Descolonizando os tamborins: O grito de liberdade africano ecoa no Carnaval do Rio de Janeiro

Desde o século XIX, quando começaram a ser realizados estudos mais significativos acerca da história da África, até as primeiras décadas do século XX, reinou na historiografia internacional uma visão do continente africano como atrasado e irrelevante na história da humanidade. Os defensores dessa linha de pensamento fundamentavam sua posição no grande número de sociedades africanas que não deixaram códigos escritos, tendo a oralidade como traço cultural marcante. Durante muito tempo, essa corrente de pensamento foi tristemente instrumentalizada no sentido de justificar a colonização, a partilha e a exploração econômica do continente e de seus habitantes pelas potências europeias.

Contudo, as décadas de 1950 e 1960 viram emergir um novo olhar sobre a história da África, valorizando e ressignificando as múltiplas identidades africanas e o legado histórico e cultural do continente. Essa linha de pensamento, a que o cientista social guineense Carlos Lopes se refere como Corrente da Superioridade Africana, vicejou nas universidades até fins dos anos 1970 e permeou todas as discussões acadêmicas do período, segundo descreve muito bem o professor Anderson Ribeiro Oliva, em seu estudo A história africana nas escolas brasileiras. Entre o prescrito e o vivido, da legislação educacional aos olhares dos especialistas (1995-2006), publicado em 2009.

Evidentemente, a emergência dessa nova maneira de pensar a história da África estava inserida num contexto político maior. Naquele exato momento histórico, o continente africano, repartido entre as potências europeias desde a Conferência de Berlim em 1884, era sacudido pelas lutas de independência, processo que influenciava e era influenciado pelas ideias que circulavam pelas faculdades de humanidades mundo afora. Entre 1950 e 1970, a maioria das colônias europeias conquistou a sua independência formal. Segundo o jornalista Marcelo de Melo, só entre 1960 e 1961, 19 dessas nações se descolonizaram. Esse processo teve desdobramentos dos mais diversos, na política, na economia e na cultura, em várias partes do mundo. No Brasil, não poderia ser diferente. Essa influência se deu em vários aspectos da sociedade brasileira, inclusive na nossa festa maior. Algumas mudanças significativas na temática dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, verificadas a partir da década de 1960, são herdeiras diretas das discussões travadas nas universidades em torno das lutas políticas e do legado histórico do continente africano.

Diante dessa conjuntura, os anos de 1959 e 1960 se tornam emblemáticos por conta de um acontecimento que faria crescer bastante a diversificação dos enredos, num processo conscientemente conduzido por alguns dos realizadores dos desfiles. O ano de 1959 torna-se um ano chave nesse processo por conta de um desfile do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, cujo enredo abordava a vida e a obra do pintor francês Jean-Baptiste Debret. Ao assistir ao desfile como jurado, o professor de Artes Plásticas Fernando Pamplona percebeu um grande potencial estético no visual de enredos com temática afro-brasileira. As imagens da escravidão retratadas por Debret e reconstituídas pelos componentes da escola fascinaram Pamplona, que, no ano seguinte, veio a ser carnavalesco do Salgueiro.

Esse processo marcou o início de um rico e longevo intercâmbio entre as escolas de samba do Rio e a Escola Nacional de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde Pamplona trabalhava, e de onde viriam muitos profissionais para atuar na concepção visual dos desfiles. Esse aspecto causou uma notável revolução artística, principalmente em relação aos aspectos plásticos e visuais, nas apresentações das escolas, que passam a se utilizar de novas técnicas e novos materiais na elaboração de suas fantasias e alegorias.

Evidentemente, o diálogo com a universidade não iria se restringir aos aspectos visuais. As ideias que permeavam as discussões acadêmicas naquele momento histórico também circulavam nesse intercâmbio entre a academia e o universo das escolas de samba. Estudos acerca da nossa herança escravista, e principalmente sobre o Quilombo dos Palmares, surgiram em grande número entre os anos 1960 e 1970. Em Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos, Fábio Fabato e Luiz Antonio Simas citam como exemplo os trabalhos Palmares, a guerra dos escravos, de Décio Freitas, e Quilombos e rebelião negra, de Clóvis Moura. E Fernando Pamplona era, sabidamente, um grande entusiasta da causa dos colonizados que davam seu grito de independência frente aos colonizadores.

O carnavalesco traduziu esse processo de luta política e de redescoberta do legado cultural do continente africano na forma de enredos que reverenciavam figuras históricas ligadas à resistência dos afrodescendentes brasileiros diante da escravidão e que valorizavam suas manifestações culturais. Os já mencionados Fabato e Simas frisam que os carnavais de Pamplona no Salgueiro não representavam a primeira aparição da população negra na temática dos desfiles. O ineditismo residia no papel de destaque que ela recebia, sendo protagonista do enredo apresentado pela agremiação.

As corajosas opções estéticas de Pamplona iam na contramão da abordagem correntemente dada à história do Brasil nos desfiles das escolas de samba. Pela necessidade de legitimação e apoio público para as suas apresentações, desde os primórdios dessa festa, a prática corrente das agremiações era apresentar uma visão oficialista da história do Brasil, celebrativa dos fatos e pessoas entendidos como relevantes pela historiografia mais tradicional. Os mais lembrados eram os governantes (do período colonial, imperial ou republicano), como d. João VI, d. Pedro II e Getúlio Vargas, e as figuras tidas como heróis da pátria, como Tiradentes ou o Duque de Caxias.

Por tudo isso, como bem lembra o jornalista Marcelo de Melo em matéria publicada no site do jornal O Globo em 29 de setembro de 2013, sugestivamente intitulada Fernando Pamplona, um militante contra o colonialismo no samba, Pamplona marcou posição já no primeiro carnaval que assinou no Salgueiro, ao exaltar Zumbi “em vez de Duque de Caxias, Almirante Tamandaré ou d. Pedro I”. Na mesma matéria, Marcelo de Melo ouve também o já mencionado professor Luiz Antonio Simas, autor de várias obras sobre a história do carnaval carioca e profundo conhecedor do trabalho de Fernando Pamplona. O professor é categórico ao afirmar que as ideias que circulavam no ambiente acadêmico na época influenciaram as escolhas estéticas do carnavalesco: “As escolas de samba exercem influência, mas também são influenciadas. Um intelectual com a sólida formação do Pamplona certamente não ficou indiferente ao que acontecia no mundo e foi seduzido pelo clima de africanidade daquela época. Acho importante destacar isso, porque a revolução salgueirense liderada por ele costuma aparecer nas narrativas sem uma contextualização”.

Uma mudança dessa magnitude evidentemente não poderia se dar sem a adesão da comunidade do Salgueiro. E ela foi conquistada, mas não sem resistências. É importante notar que, num primeiro momento, os componentes resistiram a aceitar desfilar com figurinos de inspiração africana. Como lembrou o jornalista Sergio Cabral em Escolas de samba do Rio de Janeiro (São Paulo: Lazuli, 2011):

…era uma ideia que contrariava uma velha tradição, não só das escolas de samba como das manifestações folclóricas de origem negra, pois era através delas que os negros realizavam, pelo menos na indumentária, o sonho de se apresentar como reis, rainhas, duques, etc. Enfim, o velho sonho que se acabava na quarta-feira, como tantas vezes foi escrito. Afinal, o povo das escolas de samba, desempregado ou mal pago em seus empregos, já era escravo o ano inteiro. Por que ser escravo também no carnaval?”

Contudo, foram vencidas as resistências iniciais e outros enredos com essas temáticas se sucederam: o próprio Salgueiro desfilaria com Chica da Silva em 1963 e Chico Rei em 1964. Ele acabou sendo seguido por outras agremiações, inaugurando uma tendência e abrindo as portas para outros enredos igualmente fora de sintonia com o ufanismo em voga até então.

Outras escolas seguiram por esse caminho nos anos posteriores, e a influência do trabalho de Pamplona no Salgueiro pode ser avaliada pelo número de carnavalescos hoje consagrados que passaram por suas equipes, como Joãosinho Trinta, Max Lopes, Maria Augusta, Rosa Magalhães e Renato Lage, entre outros. Assim, começaram a ser vistos, em variadas agremiações, enredos sobre personagens não tão celebrados pela história oficial, bem como acontecimentos pouco mencionados nos livros didáticos até então, como revoltas e massacres. Episódios como os enfrentamentos em Palmares e em Canudos foram cantados em verso e prosa nos desfiles. Grupos sociais excluídos, principalmente os negros e, posteriormente, indígenas, sem-terra, moradores de rua ou menores abandonados começaram a ter a sua história contada na Avenida. Uma tendência que nem mesmo o regime militar conseguiu reverter.

Essas mudanças na temática influenciaram os desfiles como um todo. As apresentações ganharam novas concepções visuais e os sambas de enredo ganharam letras menos rebuscadas e exploraram novas possibilidades poéticas e melódicas. A identificação e a empatia desses temas com os componentes das escolas e o grande público permitiram que muitos desses enredos resultassem em desfiles de grande apelo popular e sambas de enredo de grande sucesso e qualidade reconhecida pela crítica musical.

Frise-se que essa tendência se estabeleceu de modo gradativo, não impedindo que algumas escolas mantivessem a linha anterior em seus enredos, e até a aprofundassem durante o regime militar. Algumas escolas, inclusive, se dedicaram, de forma reiterada, a homenagear em seus enredos as realizações dos governos militares. Ainda assim, a tendência de romper com os estreitos limites da história oficial manteve-se crescente e irreversível durante esse período, e intensificou-se com a redemocratização.

* Adaptado de Descolonizando os tamborins: O grito de liberdade africano ecoa no Rio de Janeiro, artigo de minha autoria publicado na revista do Museu do Samba em Novembro de 2016