A questão do aborto na esquerda

 Existe um bordão que acho curioso que é “as ricas abortam, as pobres morrem”. Não acho curioso porque não seja verdade, mas, sim, porque não é a questão. Com essa frase criamos um foco classista, que creio que seja a origem bem-intencionada, mas tiramos o foco feminista, que às vezes é a má intenção, mas de modo geral não é no que as que o entoam pensam.

A criminalização do aborto é um controle dos direitos reprodutivos das mulheres. Não das mulheres pobres. Não das mulheres trabalhadoras. De todas as mulheres. É interessante pensar nisso porque já vi de muitas ativistas negras afirmarem que legalizar o aborto em alguns lugares do mundo permitiu que se esterilizasse mulheres negras e, assim, se encontrasse outra maneira de viabilizar o genocídio da população. Também já li que isso acontece corriqueiramente a mulheres pobres, que majoritariamente não são brancas, mas uniformemente são de classes economicamente oprimidas. Ou seja, enquanto temos o bordão de que “as ricas abortam, as pobres morrem”, há o contraponto: as ricas ou brancas ou ambas abortam quando querem, as negras ou pobres ou ambas têm menos direito de escolha assim. Porque, nesse caso, estamos falando de um problema tangencial ao de ser mulher, que é o de ser mulher e pertencer a mais outra classe socialmente oprimida (negra, ou pobre, ou ambos). É bem marcado, quando essa discussão acontece, que as mulheres que trazem essa problemática estão falando de algo além do aborto, não estão usando isso para contrariar a legalização do aborto.

No entanto, o bordão das ricas e pobres é usado para falar de algo que é só o aborto. Que é só o problema de mulheres, que todas as mulheres em idade reprodutiva compartilham. Estamos defendendo que o aborto deve ser legalizado porque há um problema de classe nele, e essa justificativa não é muito boa – não responde à pergunta “as mulheres deveriam poder abortar?”, e sim à pergunta “as mulheres que abortam têm as mesmas chances de sobrevivência?”. Os grupos chamados pelo STF para a audiência sobre considerar vida até a 12a semana de gestação não estão indo responder à segunda pergunta – eles estão indo responder à primeira.

Quem acha que o aborto é errado acha que o aborto da mulher rica também é errado, porque não é uma questão de classe. Quando foi colocado no Código Penal o Art. 124 na seção Crimes Contra a Vida, não ocorreu a ninguém a ressalva “espera aí, põe aí que as ricas podem abortar”.
Existe, claro, uma questão de acesso. Que vem de muitas vias, sobretudo da econômica. À mulher rica é maior a possibilidade de abortar numa clínica rica, porque ela pode pagar, simplesmente. Ela pode conhecer médicos favoráveis à decisão (mesmo que seja apenas porque serão pagos) e pode arcar com os custos. Ela pode até viajar para outro país e lá conseguir a cirurgia. De fato, essas possibilidades são negadas às mulheres pobres, com maiores chances de tentar métodos alternativos de interrupção de gravidez e morrer em decorrência disso, seja no ato, seja por não conseguir atendimento hospitalar depois. Mas a mulher rica não tem acesso a um aborto seguro dentro do território brasileiro, simplesmente porque clínica cara não é clínica segura. Se algo der errado, se uma anestesia for mal aplicada, se acontecer qualquer coisa, essa mulher pode morrer. E, morrendo, o corpo dela vai sofrer o mesmo sumiço do que o de qualquer mulher pobre abortando numa clínica barata. Dinheiro não acaba com o tétano do material cirúrgico, dinheiro não compra comprometimento do médico, dinheiro não impede que você seja processada criminalmente, dinheiro não livra o médico de ser processado e por isso queimar o corpo da mulher que matou na mesa de operação – apenas diminui as suas chances, porque se é rica quer dizer que vem de família rica, deve ter poder, mas aí você depende da boa vontade alheia, de dar certo. Você depende de outros fatores e nada muda que cometeu um crime contra a vida de acordo com o Código Penal do seu país.

Eu não estou aqui para dizer que a mulher rica que aborta com algum nível de conforto está no mesmo patamar que a mulher pobre que compra Cytotec que pode ser pílula de farinha em um beco sujo no centro da cidade. Isso é óbvio, elas não estão no mesmo patamar. O que eu estou dizendo é que a coisa que elas têm em comum é que nenhuma delas pode abortar com a segurança de que ninguém vai bater à porta delas para entregar uma intimação, ou que nenhum médico na emergência vai tratá-las mal por saber que fizeram um aborto clandestino, ou que não vão morrer. Porque, no território brasileiro, mulher nenhuma pode abortar, e se aborta está à própria sorte.
Algumas podem comprar mais sorte. Mas continua sendo sorte.

Então, lógico, as ricas abortam, as pobres morrem, às vezes as ricas morrem também, às vezes as pobres vivem, às vezes nenhuma delas consegue abortar porque não encontra médico nem pagando, nem Cytotec de verdade, nem quem as ajude. Se você acha tão fácil assim encontrar clínica de aborto de qualquer qualidade e remédio abortivo eficaz, talvez você esteja mais perto do grupo “que aborta” do que do grupo “que morre”.
A questão é resolvida de maneira mais direta se a gente disser que mulheres morrem ou sofrem sequelas ou são culpabilizadas porque é contra as leis do nosso país interromper uma gravidez se for desejo da mulher.

Se a gente precisa dizer mais algo para defender o nosso direito de definir o que deve acontecer nos nossos corpos, algo que sai do escopo de que somos mulheres e somos as únicas pessoas que precisam desse direito (mesmo se não precisamos individualmente), é sinal de que algo está errado. Eu prefiro aquele bordão “é pela vida as mulheres”, porque é mais por aí o caminho.