O ponto de partida para a compreensão da técnica: a filosofia de Álvaro Vieira Pinto

Se alguma reflexão filosófica é permitido fazer com fundamento nas criações humanas do presente, só terá probabilidade de alcançar a verdade aquela cujo núcleo central contiver o conceito de mudança, de supressão e sucessão das bases da realidade vigente. Pois se apenas admitirmos a transformação dos produtos sem condicioná-la a transformação daquilo que os produz, estaremos no puro terreno da intuição, do qual facilmente se resvala para o da ficção. Ora, o que produz o que atualmente se produz é uma estrutura econômica e política da sociedade. Os homens nada criam, nada inventam nem fabricam que não seja expressão das suas necessidades, tendo de resolver as contradições com a realidade. Portanto, nenhuma filosofia da técnica, e muito menos qualquer espécie de “futurologia”, será válida se não começar por prever serem legítimas e naturais as mudanças do modo de produção em vigor na sociedade.

Quando nos extasiamos diante dos milagres da tecnologia moderna e construímos uma visão de mundo tendo por concepção central a infinita expansibilidade de nosso poder criador, a primeira coisa a reconhecer, logo depois de haver moderado um pouco o cândido entusiasmo manifestado pelos técnicos, é que toda possibilidade de avanço tecnológico está ligada ao processo de desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, a principal das quais cifra-se no trabalho humano. Tal desenvolvimento necessariamente conduz a fraturas, a saltos qualitativos, pelos quais se instalam em certos momentos novas formas de produção. Fica entendido que uma filosofia tecnológica, para ser autêntica, tem de fundar-se na teoria das mudanças no modo de produção social. Somente assim conseguirá fundamentar em bases objetivas as considerações sobre a situação existente, e, ainda mais, as previsões aventadas.

A reflexão sobre a técnica que a desliga dos alicerces no estado vigente de desenvolvimento das forças produtivas, e por conseguinte exclui a significação do homem e de seu esforço intelectual em racionalizar os dados da realidade para se aproveitar dos recursos oferecidos, tira-lhe toda a objetividade. Transforma a técnica no substantivo abstrato, estado final de um processo de degenerescência lógica e ponto de partida para a açodada atividade especulativa dos fabricantes de impressionismos filosóficos. Estes são geralmente lançados no mercado com rótulos tais como “o homem e a técnica”, “tecnologia e humanismo”, “a técnica inimiga do homem”, o “poder avassalador da máquina”, a “sociedade dirigida por cérebros eletrônicos” e mil outros mais.

A origem dessas lucubrações irrealistas, apenas literárias, está no divórcio acima assinalado. Desligada a técnica das bases no processo social produtivo, o que significa ao mesmo tempo desconhecer a inerência dela à ação racional do homem, converte-se em um fantasma filosófico, a respeito do qual podem contar-se as mais impressionantes histórias, algumas otimistas, outras terroríficas. A técnica torna-se não um substantivo, categoria gramatical, mas uma substância, categoria física, um ser, uma coisa. Com facilidade, dela se projetam visões igualmente fantásticas para o futuro, tendo por suporte a imaginação, por mais que, para melhor impressionar o leitor incauto, se procure revestir o artefato intelectual de dados numéricos, estatísticas, gráficos, métodos de extrapolação, etc.

Tendo sido porém propositadamente abandonados os eixos do processo histórico gerador de todas as técnicas, passadas, presentes e futuras, e o motor que impede a substituição de umas pelas outras, só resta o recurso às considerações abstratas, intentando relacionar a técnica, erroneamente substantivada, com o homem, também desligado do contexto social. Deixa-se de verificar o fundamento de ambos no processo objetivo da realidade, graças ao qual o homem se vai realizando na progressiva conquista do conhecimento e nas ações técnicas pelas quais se efetua o domínio da natureza.

Compreende-se, assim, que a maioria dos ensaios filosóficos dedicados ao tema seja de especulações insuficientes, porque lhes falta o essencial, o fio condutor, encontrado na relação original do homem com a natureza, isto é, em termos históricos, no processo da produção material da existência humana. Toda reflexão que parte da técnica enquanto dado atual, imediato, primitivo, fato original, mesmo reconhecendo, pois não pode deixar de fazê-lo, o caráter social dela, e até seus determinantes econômicos, estará desde logo viciada, visto não colocar nos devidos termos o verdadeiro problema. Não adotou o ponto de vista da história natural do conceito de técnica, não lhe especificou a origem no fato absolutamente primordial, a relação produtiva do homem com o mundo. Admite-se como situação inicial o despertar ideal da consciência para o mundo tecnológico envolvente, supõe-se que esse descobrimento é um dado original, incondicionado, absoluto.

A partir da consciência assim inexplicavelmente motivada é que o homem seria levado a procurar entender os fatos objetivos, a realidade da tecnologia. Tal atitude, conforme dissemos, retira da história o ato técnico e conduz, muito explicavelmente, a essa forma particular de inversão idealista, que consiste em fazer da história um produto da técnica.


Adatado de: PINTO, Álvaro Vieira. O Conceito de Tecnologia. Volume 1. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. P. 49-50.