Racismo, mestiçagem e outras vivências suburbanas em “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto

Introdução

Esse estudo é uma discussão em torno de alguns aspectos relacionados à miscigenação racial no Brasil e seus impactos sociais em um país com forte herança escravocrata. Além disso, nos debruçaremos também sobre a importância, para a análise de uma obra literária, de uma compreensão mais ampla do contexto social onde ela foi produzida e aquele no qual vive seu autor. Assim, a discussão proposta será conduzida a partir de uma análise do livro Clara dos Anjos, de Lima Barreto, onde algumas opções estéticas do autor serão confrontadas com o contexto histórico e social em que o escritor viveu e no qual a obra foi escrita.

A análise também será subsidiada por algumas considerações extraídas dos trabalhos de Roman Jakobson sobre o formalismo russo e das polêmicas sobre métodos de interpretação de textos que lançam mão de aspectos que Jakobson classifica como “extraliterários”. Aqui, serão consideradas as lições proporcionadas pelas reflexões deixadas por ele sobre as intricadas relações entre a vida e a obra de Maiakovski, e no quanto ambas estão relacionadas com a morte do poeta. Uma discussão que é bastante elucidativa para este caso específico, na medida em que a obra de Lima Barreto repercute visivelmente a condição social do autor, mestiço de origem humilde, morador do subúrbio carioca no início do século XX.

Sobre essa condição, aliás, também buscaremos o devido embasamento teórico na bibliografia, principalmente no que tange à condição do mestiço afrodescendente no Brasil. Para isso, buscaremos amparo no trabalho do sociólogo Kabengele Munanga, estudioso da mestiçagem e de outros aspectos relacionados à população de origem africana que vive em nosso país.

Também recorremos a alguns estudiosos da História do Rio de Janeiro para uma melhor compreensão das mazelas comuns aos moradores do subúrbio da cidade no princípio do século XX. Nossa principal fonte é o trabalho do escritor e historiador Nei Lopes, autor de várias obras sobre a formação histórica e cultural do subúrbio do Rio de Janeiro.

O autor

Affonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro em 1881, no Rio de Janeiro, filho de um ex-escravo que trabalhava como tipógrafo e de uma professora primária. Teve acesso a uma boa educação, apesar dos pais não serem de família abastada, tendo seus estudos custeados por um padrinho. Ainda como estudante, começou a colaborar eventualmente com alguns jornais da época, o que lhe garantiu o sustento, atividade que desenvolvia concomitantemente a um cargo que conseguiu, por concurso, no Ministério da Guerra.

Algumas de suas obras literárias até conseguiram boa repercussão, como os romances Recordações do escrivão Isaías Caminha e O triste fim de Policarpo Quaresma, apesar das duras críticas dos escritores de sua época. Essas eram frequentes, pois a linguagem coloquial e as características marcantemente populares de seus personagens fizeram com que ele nunca fosse plenamente aceito por seus pares, problema acentuado pela condição social do próprio autor. O fato é que o reconhecimento à sua obra foi, em grande parte, póstumo.

Sua vida foi atribulada ainda pelo alcoolismo e por internações psiquiátricas, ocorridas durante suas crises severas de depressão (à época, era um dos sintomas pertencentes ao diagnóstico de “neurastenia”, constante de sua ficha médica) vindo a falecer precocemente aos 41 anos de idade.

A obra em seu contexto histórico

Embora tenha sido escrito no ano da morte de Lima Barreto, Clara dos Anjos foi publicada de forma póstuma, quase vinte anos após a morte do autor e hoje é reconhecido como um clássico da literatura brasileira, a despeito de o conjunto da obra de Lima Barreto não ter sido bem recebido pela crítica de seu tempo.

A estória, já bastante conhecida, narra as agruras de Clara dos Anjos, jovem mestiça de família humilde que é seduzida e abandonada por Cassi Jones, rapaz branco cuja família, embora não seja rica, detém algumas posses. A trama descreve com minúcias os ardis de Cassi para a consecução do seu objetivo, que incluem mentiras, encenações, chantagens e até um assassinato.

O primeiro aspecto que chama atenção é a condição social da protagonista, que a torna ainda mais vulnerável às investidas de Cassi. A cor de sua pele e sua condição econômica dificultavam a obtenção de um casamento e a constituição de uma família de acordo com o que exigia o rígido costume de sua época. Também não se deve perder de vista que virgindade era outra exigência da sociedade patriarcal de seu tempo para que ela pudesse ser aceita como esposa. Assim, por conta de todos estes aspectos, o eventual sucesso das investidas de Cassi poderia arruinar a reputação da menina e sepultar suas chances de constituir família.

Chama atenção a opção do autor por uma Clara dos Anjos mestiça (que ele apresenta como mulata, segundo a terminologia mais em voga na época) e não negra, simplesmente. O que se pode depreender é que o mulato, naquele contexto histórico, estava exposto à mesma condição desfavorável do negro, como alvo de preconceitos e da falta de acesso a direitos básicos de cidadania.

Esse aspecto é interessante, em primeiro lugar, por revelar uma nítida vivência do próprio autor. E também por trazer à luz a necessidade de desconstruir o discurso que celebra a mestiçagem como sinal de ausência de discriminação e de conflitos raciais. Pelo contrário, muitos autores inclusive já denunciam o discurso do elogio à mestiçagem como elemento supressor da identidade afrodescendente. Como diz o escritor e compositor Nei Lopes em entrevista à Revista de História da Biblioteca Nacional: “Eu discuto muito essa questão da mestiçagem, porque ela tem sido uma forma de negar a africanidade”.

É fato que, embora ela seja celebrada como sinônimo de convivência harmônica entre os diferentes grupos étnicos no Brasil, a mestiçagem já se prestou a teses e políticas públicas de caráter absolutamente eurocêntrico, quando não abertamente discriminatório. A começar pelo esforço, assumido e documentado, levado a cabo pelas autoridades de nosso país em fins do século XIX e princípio do século XX, de incentivar a migração europeia e tentar, através da miscigenação, eliminar os traços de africanidade da população brasileira. Muitos estudiosos chegavam a acalentar entusiasmadas polêmicas sobre quanto tempo levaria esse processo.

Em Rediscutindo a mestiçagem no Brasil, Identidade nacional versus identidade negra, o professor Kabengele Munanga faz um minucioso trabalho de desconstrução de algumas destas ideologias marcantemente presentes em muitas políticas e discursos oficiais em princípios do século XX. O trabalho do professor Munanga, de forma clara e sucinta, descreve o mecanismo através do qual estabeleceu-se uma bem delineada política oficial guiada pela premissa da inferioridade nata das populações afrodescendentes e pautada por medidas que pudessem minorar sua presença e sua visibilidade na sociedade brasileira. Nesse contexto, a miscigenação era abertamente celebrada como um meio para o alcance desse objetivo.

Além disso, o avanço da miscigenação trouxe uma característica muito conveniente à ordem estabelecida: a capacidade de servir como um eficiente aplacador de conflitos raciais e sociais. Na medida em que o nosso racismo sempre se concentrou muito mais no fenótipo dos indivíduos do que na ancestralidade (diferentemente do caso norte-americano, por exemplo), a miscigenação serviu como válvula de escape para as tensões raciais e sociais por possibilitar que alguns indivíduos afrodescendentes atingissem um status social diferenciado em relação a outros. Isso naturalmente direcionou os esforços dessas populações para a ascensão social no espaço de uma geração, através do casamento inter-racial, ato até hoje conhecido pela expressão (tristemente disseminada no costume) “melhorar a raça”. Isso dificultava ainda mais a solidariedade e a unidade da população afrodescendente, enfraquecendo qualquer pressão política pelo atendimento de demandas de seu interesse.

Um outro aspecto em Clara dos Anjos que parece notadamente autobiográfico é o retrato das mazelas econômicas e sociais da vida no subúrbio carioca no início do século XX. O escritor fala com o conhecimento de causa de quem viveu em diferentes bairros do subúrbio do Rio de Janeiro, como Todos os Santos e a Ilha do Governador.

O retrato descrito por Lima Barreto é realmente de uma região abandonada pelo poder público, cuja condição o autor descreve sem sutilezas. A discriminação que sofrem essas regiões em relação às áreas ditas “nobres” da cidade é exposta sem meias palavras: Por esse intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias em outros pontos do Rio de Janeiro. (Barreto: 2011, pág 86)

Considerações Finais

O que podemos observar, diante de tantos aspectos biográficos do autor que permeiam Clara dos Anjos, é que ficaria bastante prejudicada qualquer tentativa de interpretação que não levasse minimamente em conta aspectos “extraliterários”. A condição de mestiço e suburbano do autor sobressaem a todo momento nas mazelas vividas pela personagem central.

Impossível não nos remetermos aí aos questionamentos levantados por Roman Jakobson em A Geração que esbanjou seus poetas, acerca da interpretação da obra literária. Toda as polêmicas em torno da interpretação proposta pelo formalismo russo, negando o recurso da utilização de aspectos interpretativos exteriores ao texto, podem ser postas em xeque se confrontadas com um autor com vida e obra que se entrelaçam de maneira tão vívida.

A pergunta lançada por Jakobson acerca do suicídio de Maiakóvski (“Será que alguém não teria, hoje, a sensação de que os livros do poeta são um roteiro por meio do qual ele representa o filme de sua própria vida?”), poderiam perfeitamente aplicar-se à obra de Lima Barreto, mesmo que este não tenha se exposto de forma tão literal, escrevendo em primeira pessoa, ou não tenha sido textual na citação de algum aspecto biográfico.

De uma forma mais geral, o que se pode apreender deste estudo é que, tanto sob o aspecto histórico quanto sob o aspecto literário, dificilmente poderá ser feita uma plena apreensão do texto, seja como obra de arte, seja como fonte histórica, sem que sejam analisados os aspectos exteriores que lhe sejam diretamente relacionados.

Referências

  • BARRETO, Lima (2011). Clara dos Anjos. 4ª edição. São Paulo. Martim Claret.
  • JAKOBSON, Roman (2006). A geração que esbanjou seus poetas. 4 ª edição. São Paulo. Cosac Naify.
  • LOPES, Nei (2012). Dicionário da Hinterlândia carioca, antigos subúrbio e “zona rural”. 1ª edição. Rio de Janeiro. Pallas.
  • MUNANGA, Kabengele (2008). Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil: Identidade nacional versus identidade negra. 3ª edição. Belo Horizonte. Autêntica.
  • Revista de História da Biblioteca Nacional edição número 53, fevereiro de 2011.
  • Wikipédia verbete Lima Barreto (http://pt.wikipedia.org/wiki/Lima_Barreto) acessado em 12/12/2018