Porta-voz da Malandragem

“O que fazem os autores do morro? Eles dizem cantando aquilo que queriam dizer falando. E eu sou o porta-voz.” 

Bezerra da Silva

Analisando a história da música, seja num país específico ou no cenário internacional, sempre toparemos com aqueles artistas icônicos, cujo alcance e importância de sua obra transcendem os estreitos limites da discussão acerca da qualidade de sua produção. Em geral, acabam virando referências culturais tão além da música que influem no comportamento e na visão de mundo de um determinado grupo social. E o fazem de forma tão profunda que se atribui ao artista a propriedade e a legitimidade para falar em nome desse grupo. Numa expressão que guarda alguma dose de pretensão e exagero, são celebrados como “porta-vozes” de uma geração, de um movimento ou de um determinado público.

No último dia 23 de fevereiro, se completariam 92 anos de um artista que cumpre como poucos o papel de ser porta-voz dos sentimentos, aspirações e da visão de mundo do grupo social do qual ele se originou, mesmo estando longe de ser uma estrela internacional. Afinal, se há um artista que pode ser considerado porta-voz de seu povo é o pernambucano José Bezerra da Silva. Ou, como o Brasil o conheceu, simplesmente Bezerra da Silva.

Nascido em Recife, em 1927, Bezerra veio para o Rio na condição aventuresca e nada glamorosa de clandestino num navio de carga, quando ainda era adolescente. Procurava pelo pai, que abandonara sua mãe grávida e viera para o Rio de Janeiro, mas, ao fim de sua jornada, o reencontro com seu pai não foi como planejado. O jovem José Bezerra desentendeu-se com ele, tendo que buscar sua sobrevivência por terras cariocas por conta própria. Trabalhou como pintor de paredes e ajudante de pedreiro e residiu na região central da cidade, de onde só saiu para aquela que seria sua morada mais conhecida no Rio (e que sempre esteve presente em sua vida e em seu caminho na música): o Morro do Cantagalo, na zona sul do Rio de Janeiro.

Sua trajetória musical reflete, de certa forma, seu caminho na vida. Seus primeiros passos na música se dão a partir de parcerias com Jackson do Pandeiro, onde ele assinava como José Bezerra. Embora ele já demonstrasse talento como percussionista no samba, tocando no bloco do morro e na banda de uma gravadora, foi no coco, ritmo característico de sua terra que ele começou a gravar e, a partir das gravações, começou a usar o nome artístico de Bezerra da Silva.

E se não fosse o samba,

quem sabe hoje em dia eu seria do bicho?

E se não fosse o samba,

quem sabe hoje em dia eu seria do bicho?

Não deixou a elite me fazer marginal

e também em seguida me jogar no lixo

Se não fosse o samba (Carlinhos Russo e Zezinho do Valle)

Bezerra da Silva só foi abraçar o samba como sua expressão musical a partir de 1977, quando lançou o disco Partido Alto nota 10, pela gravadora CID. É nesse encontro com o samba que Bezerra começa, além de fazer o próprio nome, a ser o porta-voz, senão de sua geração, mas de vários artistas talentosos sem tanto acesso a gravadoras e sem tantas oportunidades de mostrar suas composições. Bezerra da Silva construiu sua carreira de intérprete gravando compositores anônimos, com letras que versavam sobre aspectos gerais da vida nos morros e favelas cariocas. Desilusões amorosas, dificuldades financeiras e críticas às mazelas sociais verificadas nessas comunidades, notadamente a violência urbana.

Esse aspecto específico, por sinal, acabou sendo uma espécie de marca registrada de sua obra, visto que é a faceta mais conhecida de suas músicas. Não raro, por conta da crueza de muitas dessas letras, Bezerra teve que responder a críticas e acusações de que estaria fazendo a apologia de práticas criminosas, uma alegação que o cantor sempre repudiou com veemência. Fazendo uma defesa enfática de seus compositores, ele sempre alegou que se limitava a cantar o cotidiano que eles denunciavam. Em suas entrevistas a respeito, também não faltavam críticas à hipocrisia de quem se horrorizava com as canções mais do que com a situação de seus autores, que conviviam com muitas das tristes situações descritas nas letras.

Numa contradição bastante curiosa e incômoda para quem vê apologia ao crime nos sucessos de Bezerra da Silva, os autores de suas músicas eram, em sua totalidade, aplicados trabalhadores. Sem oportunidades de viver exclusivamente da música, todos eles compunham suas obras em concomitância com alguma outra atividade profissional tão digna quanto lícita, embora muitas vezes instável e mal remunerada. Isso fica evidente diante do mais completo inventário da obra musical de Bezerra da Silva, o documentário Onde a coruja dorme, de Márcia Derraik e Simplício Neto. O filme tem o mérito de dar a palavra àqueles de quem Bezerra se apresenta como o porta-voz. A partir de depoimentos dos compositores, geralmente gravados em suas próprias casas e locais de trabalho, o documentário traça um detalhado panorama do contexto social das obras gravadas por Bezerra da Silva.

O filme ainda traz a palavra de Bezerra, em depoimentos que primam pela coerência e contundência. Mais porta-voz do que nunca, o cantor defende a propriedade daqueles compositores para escreverem tudo o que está nas letras. De quebra, ainda demonstra um inesperado arsenal de conhecimento jurídico ao discorrer sobre direitos de autor e criticar o cruel mecanismo utilizado pelas gravadoras e pelos órgãos de arrecadação para explorar os compositores, em sua maioria trabalhadores humildes e de pouca instrução.

Meu irmão,

Se liga no que eu vou lhe dizer

Hoje ele pede o seu voto

Amanhã manda a polícia lhe bater

Candidato caô caô (Pedro Botina e Walter Meninão)

A metralhadora giratória de Bezerra da Silva e de seus compositores não tem a violência urbana ou a esperteza das gravadoras como alvos únicos. A revolta dos artistas com a corrupção na política ou com a charlatanice de líderes religiosos que exploram a boa fé de seus fiéis transparece nos depoimentos e nas letras das músicas. Que ainda transbordam coerência ao criticar o contraste entre a repressão feroz que recai sobre bandidos pretos e pobres e a benevolência com que são tratados criminosos de colarinho branco.

Nem só de crítica social vive a obra de Bezerra da Silva, entretanto. Muito do cotidiano de uma comunidade carente está presente em suas músicas, seja num relato de infidelidade conjugal, na descrição de sua relação com a música, nos conflitos familiares, no desabafo pela falta de grana ou na relação com a espiritualidade. Nesses casos, prevalece uma faceta mais leve e mais cronista dos morros do Rio.

Bezerra nos deixou em 2005, mas seu legado artístico é evidente, não só em sua obra musical, que permanece viva, mas no tanto de artistas assumidamente influenciados por ele. Suas músicas foram regravadas por nomes variados, notadamente artistas ligados ao universo do samba, do rock e do hip-hop. Suas gravações, aliás, são sampleadas aos montes por DJs ligados com carreira sólida no Rap. Seus maiores sucessos podem ser ouvidos na voz de artistas diversos, como Barão Vermelho, O Rappa, Leandro Sapucahy, Diogo Nogueira e Marcelo D2. Este último, aliás, dedicou um disco inteiro à obra de Bezerra.

Além do supracitado documentário, o cantor também teve uma biografia escrita por Leticia C.R. Viana, o elogiado Bezerra da Silva – Produto do Morro: Trajetória e obra de um sambista que não é santo, além de ser objeto de alguns estudos acadêmicos.

Junto a todos os merecidos tributos, elogios e regravações que a obra de Bezerra da Silva recebe, no próximo dia 05 de Março, terça-feira de carnaval, ela será celebrada mais uma vez pelo grande público. Dessa vez, num palco bem menos comum, mas popular até a medula. Bezerra será enredo da Sociedade Recreativa Escola de Samba Lins Imperial, brava agremiação do grupo B, do carnaval carioca. Longe do glamour e dos holofotes da Marquês de Sapucaí, a verde e rosa do bairro do Lins de Vasconcelos desfilará na Avenida Intendente Magalhães, no bairro do Campinho, palco reservado para as escolas do seu grupo e dos grupos posteriores. A escola desfilará toda a rica gama de personagens e situações descritas nas músicas de Bezerra da Silva

De porta-voz de uma comunidade, Bezerra terá uma comunidade tão alegre quanto aguerrida, como porta-voz de sua obra. Justo.

Que mal lhe fez

O meu povo humilde da colina

Que mora lá em cima

vivendo uma vida de cão

Abandonado

covardemente injustiçado

e você ainda diz

que lá só mora ladrão

Povo da Colina (Walmir da Purificação, Tião Miranda e Roxinho)

Aqui vai o link para o documentário Onde a Coruja dorme, de  Márcia Derraik e Simplício Neto:

Aqui segue o samba da Lins Imperial para o carnaval de 2019: