Dossiê pós-cinzas – parte 2: A festa que destrona e coroa

Embora seja parte integrante do calendário litúrgico da Igreja Católica, o carnaval é uma festa religiosa milenar, cujas origens são bem anteriores ao próprio cristianismo. Assim como é comum em qualquer religião, essa celebração guarda elementos de várias culturas e religiões que a precederam. No caso específico do carnaval, podem-se observar vários elementos de festas pagãs da antiguidade, em geral, festas de agradecimento a alguma divindade por conta de ciclos da natureza, como colheitas ou mudanças de estações.

A maior parte dos estudiosos costuma citar algumas festas específicas das quais o carnaval descende mais visivelmente. Duas delas vêm do Egito antigo, como a festa do Boi Ápis, um festival consagrado a Osiris no antigo Egito, a quem os egípcios agradeciam pela força geradora da natureza, e a festa em honra à deusa Isis, também relacionada à fertilidade.

Outras festas da Antiguidade presentes na árvore genealógica do carnaval como o conhecemos vêm do mundo greco-romano: as festas em honra a divindades como Baco, na Grécia e Saturno na Roma antiga. Celtas e gauleses também tinham festas similares, todas por essa época, mais ou menos próximas do fim do inverno e começo da primavera no hemisfério norte.

Na Idade Média, esses festejos foram sendo incorporados à liturgia católica, como tantos outros elementos pagãos, num extenso rol que inclui da árvore-de-natal ao ovo de páscoa. Para o catolicismo, esses seriam os últimos dias de excessos que antecederiam o período de contrição e abstinência característico da quaresma, o período de quarenta dias antes da páscoa. Dessas comemorações também viriam algumas hipóteses para a origem da própria origem da palavra carnaval, ora atribuída ao carne vale (do latim, “adeus à carne”), ou a carrus navallis, também do latim, mas uma referência aos carros decorados em forma de navios, tão comuns nesses festivais.

Todas essas comemorações têm algumas características em comum que chegaram até o carnaval de nossos dias e podem jogar um pouco de luz sobre a maneira como a política aparece nas ruas durante nossa festa maior. Veremos que a contundência das críticas políticas vistas esse ano, por mais que estas sejam potencializadas pela conjuntura, tem muito a ver com a própria natureza dessa festa em suas origens e características.

Como vimos, a maioria dessas festividades está associada ao fim de um ciclo, de um período religioso ou agrário, chegando mesmo a ser realizada num período que, em calendários anteriores, ficava próximo ao fim do ano. Assim, era comum que essas datas fossem marcadas por uma percepção de fim de tudo para um posterior recomeço, o que incentivava o costume de se extravasar desejos, opiniões ou sentimentos reprimidos ao longo do resto do ano. A cristianização medieval também manteve esse caráter, na medida em que associou a festa aos excessos dos quais todos deveriam se despedir antes da quaresma.

Nesse contexto, é razoável supor que essa defesa da falta de freios e da tolerância para com os excessos característicos dessas festas favoreçam a iconoclastia e a expressão de impulsos contidos ao longo daquele ciclo que se encerra. Via de regra, isso engloba algum relaxamento das restrições alimentares, religiosas, da moral sexual ou mesmo dos papéis sociais, que, não raro, são subvertidos. Pessoas vestem-se como indivíduos do sexo oposto ou fazem uma inversão, temporária e ritualizada, das relações de poder. Nobres disfarçam-se para se misturar à plebe, enquanto os mais pobres fantasiam-se de reis. Como já dizia o filósofo Mikhail Bakhtin, em seus estudos sobre cultura popular, “substancialmente, todo dia de festa destrona e coroa, portanto, tem o seu rei e sua rainha”.

Essa subversão que caracteriza o carnaval de rua chega em nossas terras pela via da colonização portuguesa, onde ele era festejado na forma do entrudo, uma algazarra suja e barulhenta que tomava as ruas da colônia nesse período. Os participantes divertiam-se arremessando uns contra os outros objetos sujos ou malcheirosos em tumultos que, não raro, acabavam em violência. A festa perdia o controle de tal maneira que começou a ser coibida pelas autoridades, com apoio de setores da imprensa e de grande parcela da sociedade a partir da terceira década do século XIX.

Não chega a ser uma surpresa. O fato é que essas festividades, por suas próprias origens, guardam um razoável histórico de atritos com o poder estabelecido em diferentes contextos históricos. Por essas terras não seria diferente. A jornalista e escritora Eneida de Moraes, ativa militante comunista e uma das primeiras grandes pesquisadoras a se debruçar sobre a história do carnaval do Rio de Janeiro, tem uma frase famosa sobre essa relação, genial na atemporalidade e no poder de síntese. Segundo ela, “os dois maiores inimigos do carnaval carioca são a chuva e a polícia”.

Essa iconoclastia, tão cara a essa festa, chegou até nossos dias turbinada por alguns elementos da realidade política atual. Se, por um lado, a afronta à ordem já está no DNA do carnaval, por outro, somos obrigados a constatar que a atual conjuntura política nos põe frente a frente com autoridades com uma incomparável vocação para o ridículo. As seguidas demonstrações de inépcia e ignorância de membros do primeiro escalão do atual governo federal mostraram-se um prato cheio para o deboche dos foliões que o ridicularizaram em marchinhas e fantasias. Tanto pelas trapalhadas na comunicação, com os já folclóricos recuos e desmentidos, quanto pelos escândalos de corrupção. Fora as medidas encaradas como ataques diretos à população, como as mudanças aventadas na previdência e na legislação trabalhista. Tudo isso foi inspiração para manifestações carnavalescas Brasil afora.

A maneira de se expressar politicamente observada nos foliões nos blocos de rua tem uma diferença vital em relação àquela que se observa nas escolas de samba (cujo posicionamento já discutimos aqui, na primeira parte desse dossiê). Elas se apresentam de maneira mais ordenada, guiadas por uma intrincada alternância de táticas subordinadas a uma estratégia de inserção e sobrevivência, guiadas por uma leitura empírica, porém afiada, da conjuntura política que enfrentam. Já os blocos ainda guardam a mesma disposição para a desobediência caótica tão entranhada nas origens do carnaval. E, assim como as escolas, eles também têm suas lições a ensinar.

Num momento em que, pelos mais variados motivos, uma parcela significativa do eleitorado optou por um governo tão fortemente identificado com o retrocesso, talvez não seja eficaz denunciar raivosamente suas contradições. Na presente conjuntura, em que boa parte da sociedade brasileira se mostra tão resistente a conceitos básicos de humanidade, como a ideia de igualdade de oportunidades ou a proteção aos direitos humanos, talvez valha pouco apontar o menosprezo governamental por tais temas. Talvez um governo como o atual se desgaste muito mais se desnudarmos a insolúvel contradição entre seu discurso moralista e a corrupção que lhe infesta todos os escalões. Ou então, se evidenciarmos a incompetência ou a ignorância crassa que permeia várias de suas ações e posicionamentos públicos. Para tais narrativas, o deboche inerente à espontaneidade dos blocos pode servir muito bem. Se não para derrubar os portões do palácio, pelo menos para mostrar o quanto o rei está nu.