Era e civilização tecnológica: a filosofia de Álvaro Vieira Pinto

O conceito de “era tecnológica” encobre, ao lado de um sentido razoável e sério, outro, tipicamente ideológico, graças ao qual os interessados procuram embriagar a consciência das massas, fazendo-as crer que têm a felicidade de viver nos melhores tempos jamais desfrutados pela humanidade. Para dar esta impressão faz-se mister recorrer a diversos sofismas, que ao longo destas páginas tentaremos indicar.

Um deles, que desde já convém mencionar, consiste na conversão da obra técnica em valor moral. A sociedade capaz de criar as estupendas máquinas e aparelhos atualmente existentes, desconhecidos e jamais sonhados pelos homens de outrora, não pode deixar de ser certamente melhor do que qualquer outra precedente. As possibilidades agora oferecidas aos possuidores de recursos para a conservação da vida, aquisição de conforto e de meios para ampliar a formação cultural não encontram paralelo no passado. Logo, esta época é superior a todas as outras, e qualquer indivíduo hoje existente deve dar graças aos céus pela sorte de ter chegado à presente fase da história, onde tudo é melhor do que nos tempos antigos. Com esta cobertura moral, a chamada civilização técnica recebe um acréscimo de valor, respeitabilidade e admiração, que, naturalmente, reverte em benefício das camadas superiores, criadores de todos esses serviços prestados à humanidade, dá-lhes a santificação moral afanosamente buscada, que, no seu modo de ver, se traduz em maior segurança.

Para efetuar este jogo sofistico é preciso desenhar um quadro da época atual que a represente sem causas antecedentes. Isto significa atribuir aos progressos contemporâneos da ciência e da técnica uma qualificação inédita, só explicável por uma ruptura qualitativa no processo do desenvolvimento histórico. Mas, nem nesse modo de proceder da intelectualidade submissa há originalidade. Talvez possa dizer-se, com valor de lei sociológica, que os serviçais em todos os tempos pensam analogamente. Se consultarmos os ideólogos da dominação de épocas passadas, encontraremos a mesma atitude, ainda quando se referiam às sociedades que agora, na perspectiva de que dispomos, sabemos estarem situadas indiscutivelmente no ramo descendente de sua trajetória. Também muitos memorialistas do fim do Império Romano declaravam viver numa era de delícias, de extraordinário progresso da civilização a que pertenciam. A iminente derrocada certamente lhes pareceria inconcebível. Se havia outros pensadores falando em tom pessimista, eram julgados como insatisfeitos habituais, sem maior ressonância.

O que distingue, porém, o otimismo das classes poderosas atuais é, segundo dissemos, a justificação pela técnica, interpretada como obra sua, da superioridade por elas apregoada. Reconhecem ser a técnica um processo cumulativo. Portanto, também as civilizações passadas tiveram suas conquistas, oriundas do aproveitamento dos conhecimentos herdados e das pesquisas relativamente reduzidas que efetuaram. Somente agora, no entanto, as sociedades desenvolvidas chegaram a amontoar um volume crítico, de tal modo diferenciado de tudo quanto se fizera anteriormente, que apenas nós temos o direito de dizer estarmos vivendo em plena “civilização tecnológica”.

Note-se a visível preferência pela expressão “civilização tecnológica”, em vez de “civilização técnica”, nos escritos dos ideólogos do regime social vigente. Este detalhe, aparentemente insignificante, é rico de conotações, conforme veremos a seguir. Por isso, hoje a técnica necessita revestir-se de valor moral, na verdade o valor que os grupos dirigentes e promotores do progresso desejam se adjudicar. O saber que antes, repetindo o conhecido aforisma, apenas significava poder, agora significa também valer. Com isso, a ciência e a técnica aparecem como uma benemerência pelo valor moral que outorga aos seus cultores, e, muito naturalmente, e com mais forte razão, aos patrocinadores. O laboratório de pesquisas, anexo à gigantesca fábrica, tem o mesmo significado ético da capelinha outrora obrigatoriamente erigida ao lado dos nossos engenhos rurais.

Utilizando-se de falsa e insidiosa aplicação do conceito de totalidade, que de fato é a negação de quanto se deve entender corretamente como tal categoria dialética, os incensadores da civilização ocidental de nossos dias pintam-na com as cores de um bloco uniforme, a respeito do qual proferem julgamentos de conjunto, entre os quais este, o de constituir uma época de esplendor tecnológico, seguro penhor de felicidade para quem dela participa. Convém aos locutores dessas formulações fazer a realidade ser tomada em bloco, sem distinções, pois qualquer ensaio de análise, qualquer referência aos componentes do todo revelar-se-á fatal às líricas expressões de euforia, que tanto importa inculcar e transmitir.

A menção às divisões internas da sociedade, em virtude das quais as bençãos da era tecnológica não parecem chover equitativamente sobre todos os homens, é recebida como uma intromissão de mau gosto, perturbadora da beleza do quadro. Referindo-se essas observações discrepantes às desigualdades econômicas e culturais entre os setores da sociedade e, ainda mais decisivamente, às diferenças de grau de desenvolvimento entre as nações, tornando umas dependentes das outras, a alusão ao fato político, mais ainda do que ao econômico, é rejeitada com aspereza, e depois combatida com veemência, porque destrói a imagem etílica da era tecnológica, que a todo custo é preciso preservar.

O conceito de “era tecnológica” constitui importantíssima arma do arsenal dos poderes supremos, empenhados em obter estes dois inapreciados resultados: (a) revesti-lo de valor ético positivo; (b) manejá-lo na qualidade de instrumento para silenciar as manifestações da consciência política das massas, e muito particularmente das nações subdesenvolvidas. Quanto a estas últimas, é preciso empregar todos os meios para fazê-las acreditar — e seus expoentes letrados nativos se apressaram sem dúvida em proclamá-lo — que participam em pé de igualdade da mesma “civilização tecnológica” que os “grandes”, na verdade os atuais “deuses’, criaram e bondosamente estendem a ricos e pobres sem distinção.

Divulgando este raciocínio anestesiante, esperam os arautos das potências regentes fazer crer que toda a humanidade sob sua proteção goza uniformemente dos valores da civilização tecnológica, o que significa tornar não apenas imoral e sacrílega a rebelião contra elas, mas ainda converter a pretensão de autonomia política e econômica das massas da nação pobre em um gesto estúpido. Com efeito, se todos vivemos sob a mesma privilegiada égide do saber técnico e se, para que tão afortunada condição se mantenha, é forçoso conservar unida a parte da humanidade civilizada por ela beneficiada, a afirmação dos valores nacionais, os anseios de independência econômica são nada menos que delitos contra a segurança tecnológica de todos, esforços insensatos por destruir as condições objetivas que possibilitam o progresso comum.


Adaptado de: PINTO, Álvaro Vieira. O Conceito de Tecnologia. Volume 1. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. P. 41-43.