Sudão: é assim uma revolução no século XXI

Protesto ontem no Comando Geral das Forças Armadas, em Khartoum. Fonte: Sudan Translators for Change STC

Nós, aqui no Brasil, sofremos tantas derrotas políticas de uns anos pra cá que boa parte da militância de esquerda tá abatida, sem perspectivas, muitas vezes até em crise pessoal e psicológica.

Só que o mundo é muito grande. Na África, que é tão importante pra nós (ou deveria ser), estão acontecendo lutas muito importantes, que estão mudando a cara do continente. Vou falar sobre uma aqui, uma autêntica revolução popular na nossa cara.

A segunda onda da primavera árabe

A partir da virada de 2010 para 2011, começando pela Tunísia, uma série de protestos de milhões de pessoas percorreu todo o mundo árabe, derrubando ditaduras de décadas, como as do Egito, Iêmen e Tunísia. Essas revoltas foram o resultado de um longo período de acúmulo de rejeição às desigualdades sociais e à repressão política na região.

Infelizmente, pela própria dificuldade de organização de classe e da sociedade civil nesses países, a maioria dessas revoltas acabou não atingindo o objetivo da democratização, e o poder acabou sendo recuperado, na maioria dos casos, pelos militares ou por setores islamistas. A Tunísia foi a única exceção que chegou à democracia parlamentar, com criação de partidos de esquerda, movimentos feministas, fortalecimento dos sindicatos etc. Por outro lado, na Síria, na Líbia e no Iêmen, a situação se degradou até virar guerras civis sangrentas.

… só que os problemas sociais que levaram o povo às ruas continuam, e há poucos meses houve um novo fôlego.

Uma história de lutas populares

Desde a sua independência no período contemporâneo, em 1956, o Sudão passou por longas ditaduras. Mas os povos do país também têm um histórico muito combativo, e derrubaram os dois primeiros ditadores, em 1964 e 1985. Sempre houve um movimento sindical forte, e o Partido Comunista Sudanês era o segundo maior do mundo árabe (junto com o do Iraque), tendo tentado tomar o poder em 1971 junto com militares nacionalistas.

Desde 1989, o poder está nas mãos de Omar Al-Bashir, que criou um regime islâmico que foi um pólo de difusão do fundamentalismo na região. A imposição da lei islâmica foi tão agressiva que a região sul, onde a maioria da população é seguidora de religiões tradicionais africanas ou cristã, entrou em conflito cada vez maior, que virou uma guerra civil e, finalmente, levou à separação e independência do Sudão do Sul em 2011.

O povo quer a queda do regime!

Em 19 de dezembro do ano passado, o governo anunciou a triplicação dos preços de vários produtos de primeira necessidade. O povo novamente voltou às ruas, e está corajosamente mantendo um ritmo de manifestações semanais até hoje, exigindo a renúncia de Al-Bashir e novas eleições. A palavra de ordem da primavera árabe é cantada com todas as forças: Ash-shab yurid isqat an-nizam (o povo quer a queda do regime), ou também Tasqut Bas (Caia! É só isso!) . As forças de oposição se uniram na Declaração pela Liberdade e Mudança. Desde dezembro, as mulheres estão na linha de frente da luta.

Ontem (6 de abril) foi o aniversário do levante popular de 1985, que derrubou a segunda ditadura no país, a de Jaafar Nimeiry. Os manifestantes fizeram o maior dos protestos até agora, indo até a sede do Comando Geral das Forças Armadas para exigir que os militares retirassem o apoio à ditadura. A mobilização continuou noite adentro, e as forças da Declaração pela Liberdade e Mudança convocaram uma greve geral por tempo indeterminado, até a queda do regime.

Como nós podemos ajudar?

Para nós, que vivemos há décadas numa democracia formal, é difícil imaginar o que significa o governo poder te prender e desaparecer com você por causa de críticas. Mas a democracia, para o povo sudanês, seria uma grande conquista, que ia abrir o caminho para a maior organização dos trabalhadores e setores populares.

Nós não temos praticamente condição nenhuma de influenciar os acontecimentos numa região tão distante. Mas podemos difundir as notícias sobre a revolta popular, mostrando na prática o que é solidariedade internacional, e dando uma pequena contribuição para quebrar o clima neoliberal de que “não há alternativas”. Além da imprensa internacional (The Guardian e The New Arab estão fazendo uma boa cobertura, por exemplo), existem mídias alternativas, como a página Sudanese Translators for Change STC, no Facebook.