Dossiê pós-cinzas – epílogo: A polêmica das marchinhas e as lições da quarta-feira de cinzas

Diferentemente das edições anteriores deste pequeno dossiê, nós o fecharemos com uma discussão política que não é tão específica deste último carnaval, mas sim uma polêmica que ressurge, com mais ou menos força, há vários anos. Evidentemente, ela guarda alguma conexão com aspectos bastante evidentes da conjuntura atual, mas é um tópico que já perdura há vários carnavais.

Muito antes da trilha sonora da nossa festa maior ganhar a proeminência do samba, ela foi embalada por diversos outros gêneros musicais. Nesse rico universo, um dos mais populares, sem dúvida, é a marchinha. Derivadas das marchas populares portuguesas e tendo incorporado elementos das marchas militares, as marchinhas de carnaval despontaram em fins do século XIX e se tornaram presença quase que obrigatória na festa. É dessa época, mais especificamente do ano de 1899, aquela que se tornaria a primeira marchinha de sucesso, a seminal Ó abre-alas, da maestrina Chiquinha Gonzaga.

As características mais marcantes do gênero são mais do que conhecidas, até por quem não é exatamente um folião. O compasso binário, o andamento acelerado e as letras curtas e alegres, freqüentemente trazendo mensagens de duplo sentido ou fazendo troça de algum aspecto da vida cotidiana. A exceção eram as chamadas marchas-rancho, com andamento um pouco mais lento e letras mais poéticas. As marchinhas experimentaram grande popularidade até a década de 1960, quando, com o sucesso cada vez maior das escolas de samba, começaram a perder espaço para os sambas de enredo.

Pode soar estranho falar em declínio das marchinhas para quem vê os foliões ainda hoje requebrando alegremente ao som de refrões como os de Cabeleira do Zezé ou O teu cabelo não nega. Mas se alguém tem dúvida, basta uma breve pesquisada pela história do gênero para perceber que as marchinhas mais recentes a experimentarem algum sucesso comercial são da década de 80. Uma demonstração clara de que, se ainda têm um público cativo, as marchinhas, enquanto gênero musical, carecem de renovação, tanto na sua produção quanto no seu público. Um processo que não consegue ser revertido nem mesmo com novas composições ou concursos de marchinhas realizados anualmente Brasil afora.

Uma outra demonstração empírica, facilmente observável, da falta de renovação do gênero é a idade média de sua audiência. Espetáculos como o famoso Sassaricando; e o Rio inventou a marchinha, idealizado pelo jornalista e pesquisador Sergio Cabral, teve excelentes bilheterias por anos a fio, em teatros de todo o Brasil, mas sempre com sessões lotadas de idosos.

Essa discussão emerge na última parte desse dossiê por ter relação direta com aspectos que têm acompanhado as discussões políticas nos últimos carnavais de forma reiterada. Por conta de seu marcado deboche sobre questões cotidianas, as marchinhas acabam por refletir muito do pensamento de sua época, com seus valores, visões de mundo e relações de poder. Nada mais natural que reflitam também seus preconceitos, o que está no cerne das recentes polêmicas carnavalescas.

As discussões em torno das marchinhas começam a ganhar fôlego a partir do momento em que, num processo absolutamente natural, os preconceitos refletidos em muitas de suas letras começam a ser postos em xeque. Em pleno século XXI torna-se cada vez mais difícil ignorar o racismo contido explicitamente em letras como O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor, mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero o teu amor (“O teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo e irmãos Valença). Ou a homofobia sugerida em Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é (“Cabeleira do Zezé”, de João Roberto Kelly e Roberto Faissal). E, ao contrário do que muitos pensam, esse incômodo com o preconceito contido em tais letras está longe de ser uma exclusividade de certa parcela da militância de feições pós-modernas.

É certo que a saudável preocupação em evitar discursos expressos de forma preconceituosa ou ofensiva, consagrada no termo “politicamente correto”, está a ser demonizada como nunca, normalmente vista por seus detratores como restritiva do direito à liberdade de expressão. Contudo, é razoável crer que o preconceito explícito contido nas letras cause incômodo a um público maior, silencioso, que vai bem além da militância organizada que habitualmente protesta contra essas manifestações.

A explosão a que assistimos nos últimos anos de escritores, humoristas, youtubers e políticos que se reivindicam “politicamente incorretos” pode sugerir o contrário, mas o ocaso das marchinhas pode ser um sinal evidente de uma rejeição considerável a abordagens marcadamente identificadas com o preconceito e o retrocesso. Isso ocorre porque, por mais que conte com a simpatia de muitos formadores de opinião, o discurso “politicamente incorreto” traz consigo muitas das características negativas que seus defensores imputam ao discurso contrário. Além de demonstrar uma notável intolerância com a divergência de idéias, ele flerta com um anacronismo que faz com que ele seja visto por muita gente como ultrapassado, sem graça ou careta. Sim, careta. É impossível pensar em palavra mais adequada para descrever uma letra de música que põe em dúvida a heterossexualidade de um sujeito por ele ter cabelos compridos. A julgar pelo teor da galhofa, as marchinhas são a versão carnavalesca do tiozão do pavê.

A parcela mais barulhenta da militância, que faz críticas abertas a essas letras, via de regra é vista como chata, pouco afeita ao espírito do carnaval e adepta de uma rigidez pouco compatível com nossa festa maior. Mas a verdade é que ela não está tão descolada do sentimento da maioria, um sentimento evidente na pouca recepção que a marchinha ainda consegue angariar fora dos momentos de maior seqüestro da razão.

Os três textos desse dossiê tentam se debruçar sobre o espaço que temos para a crítica e para a ação direta num momento que parece sem alternativas ante o retrocesso, o preconceito e os ataques do capital. Curiosamente, se analisado com o devido rigor, esse espaço acaba sendo evidenciado exatamente por essa festa milenar. O carnaval deste ano nos mostrou, entre outros aspectos animadores, que há espaço para a resistência, que uma grande parcela da sociedade não se sente representada pela agenda do retrocesso e que o deboche e a exposição ao ridículo podem ajudar a desmoralizar um governo repleto de gente ignorante e/ou corrupta.

Que a nossa brava militância saiba fazer uma boa leitura das lições deixadas pela quarta-feira de cinzas e tê-las como norte ao longo de todo ano.