Uma carta aberta ao cara no Twitter que pergunta se sexo biológico é real

Imagine que você está parado em uma estação de trem.

Do outro lado, você vê outro homem andando nos trilhos. Ele está distraído, muito ocupado para dar uma boa olhada, perdido demais em seu telefone para notar onde está indo. Você vira a cabeça para o outro lado e vê o trem, indo em direção a ele enquanto ele caminha no trilho. O que você faz?

A resposta é óbvia, espero. Você grita. Você avisa. Você balança os braços e tenta chamar atenção. E se ele ainda não notou, ainda não levantou os olhos do telefone, você pula e empurra ele dos trilhos você mesmo. Talvez você não seja tão corajoso na realidade. Não tenho certeza se eu seria. Mas pelo menos você espera que seja isso o que faria, né?

Mas por quê? Por que você faria todo esse esforço? Porque, conscientemente ou não, você entende as leis de Newton. Você entende que força é igual a massa vezes aceleração, que algo muito pesado movendo-se muito rápido pode destruir um frágil corpo humano em um instante. Você faz o que pode para tirar o homem dos trilhos porque sabe que uma vida depende disso.

Mas você sabia que as leis de Newton não são tão estáveis assim? Que elas existem como meras aproximações, e que podem não funcionar em toda uma sorte de situações? É verdade. A física newtoniana pode predizer o modo como a luz se curva em seu caminho ao longo do sistema solar, ou como um elétron pode rodar no entorno do núcleo de um átomo. Mesmo algo tão mundano como seu telefone se baseia em um modelo muito mais sofisticado. Enquanto essas equações que você aprendeu no ginásio podem guiá-lo no seu dia a dia, a verdade completa nunca é tão simples.

Agora, aqui vai uma pergunta: sabendo disso, você mudaria o que grita para o homem nos trilhos? Afinal, “O trem está vindo em sua direção!” é tecnicamente errado. Einstein nos mostrou que o movimento é relativo. Em certo sentido, é tão racional quanto dizer que o homem está sendo arremessado em direção a um trem parado. Você só tem alguns segundos. Você usa esse tempo e tenta capturar todas as nuanças dessa discussão?

A física pode ser o menor dos seus problemas, a propósito. A biologia é tão bagunçada quanto. Você provavelmente se preocupou com o fato de que aquele homem iria acabar morto, retalhado ou em pedacinhos. Mas o que significa estar vivo ou morto afinal? Muitos cientistas diriam que não há um único critério para distinguir matéria inanimada de matéria animada. Algumas entidades, como vírus ou um príon, ficam naquela área cinza entre duas categorias. Se você nem é capaz de explicar porque o homem nos trilhos está vivo, o que “vivo” realmente significa, então qual o sentido de se preocupar em mantê-lo dessa forma?

E é claro, tudo isso sem considerar o fato que não sabemos o que torna algo certo ou errado em primeiro lugar. Dúzias e dúzias de questões éticas complexas existem sem que haja qualquer consenso, e as fundações da moralidade são infindavelmente debatidas. Será que você realmente deveria fazer qualquer coisa para ajudar o homem? Dá para imaginar situações onde a inação é a melhor saída; talvez ele seja um assassino em série, ou algum outro monstro incorrigível. Talvez não exista nenhuma verdade moral, e todo o seu esforço para salvá-lo é completamente irracional. Como você pode ter certeza de que é certo intervir, se você não é capaz nem mesmo de definir o que “certo” significa para começar?

Olhando para trás, o que começou tão simples termina um tanto complexo — uma obrigação complexa, um processo complexo, um resultado complexo. Presumivelmente, você irá querer ter certeza de que os seus avisos na linha do trem estão alinhados com com o que há de mais recente na teoria quântica. Você irá querer esclarecer o que quer dizer com “vida” e “morte” também. E não seria de todo mal buscar o padre ou professor de filosofia mais próximo para elaborar melhor os pontos da ética. Nuances, precisão e um olho crítico são importantes, afinal. Não deveríamos nos esforçar para fazer tudo certo?

Agora, aqui vai um outro experimento mental: Imagine que é você na linha do trem.


Nos últimos tempos, tenho visto muitos debates aparecendo no Twitter sobre o sexo biológico — o que o define, como se pode medi-lo, se ele existe afinal. Os homens que dominam esses debates geralmente são experts em seus campos de atuação, o que significa que eles usam termos como “distribuição bimodal” e “cariótipos não-regulares” para construir suas argumentações, que de outra forma seriam mundanas. Acho que a maioria dessas argumentações é boba, ecos cansados de falácias identificadas pela primeira vez pelos gregos antigos no quarto século antes da era atual. Eles confundem — ou, talvez, intencionalmente confluam — imprecisão e invalidade, percepção social com construção social, e binarismo com exclusividade. Em outras palavras, eles trocam a tão familiar falta de lógica que infesta a intersecção da ciência com a filosofia, onde a covardia ontológica aparece como a mais alta forma de nuance.

Mas aqui vou eu de novo, certo? É tão fácil ser sugado por este debate, sentir aquela indignação quente no estômago que aparece quando uma afirmação idiota é tão orgulhosamente feita. E eu nem tenho nada a perder nesse jogo — binário ou não, o meu sexo ainda me coloca naquela categoria de “melhor remunerado, estuprado com menos frequência”. Então, qual o ponto disso tudo para além do exercício intelectual? Me parece cada vez mais óbvio que até mesmo engajar nesse debate é uma concessão, um assentimento de que as vidas das mulheres podem ser transformadas em assunto de experimentos mentais e alegações contrafactuais tiradas do nada por algum pós-graduado que, coincidentemente, nunca se preocupou com uma gravidez resultado de estupro.

Então aqui vai minha resolução de quadrimestre: não debaterei com você a respeito da realidade biológica do sexo, pela mesma razão pela qual eu não ficaria parado na plataforma do trem debatendo as miudezas da física enquanto um homem nos trilhos é arrebentado. Não porque a sua posição é inatacável. Mas porque até mesmo trazer isso à tona te faz um imbecil.

Isso pode soar um tanto dramático, uma retórica floreada para cobrir um contra-argumento fraco. Mas quanto tempo você levou para ler até aqui? Cinco minutos? Dez? Se tanto, o mundo agora tem mais quinze garotas mutiladas do que haviam quando você começou a ler. Será que os homens que conduziram essas mutilações estavam confusos quanto ao que faz um corpo fêmea? Será que eles ponderaram a respeito da paridade cromossomial e dos desvios padrões quando escolheram alguém para machucar? Ou será que esse tipo de nuança é um luxo disponível apenas para homens educados, progressistas, e falastrões como você?

Não é meio estranho que o sexo nunca foi tão complicado antes? Que não havia nada etéreo a respeito da biologia quando se tratava de escolher quem poderia ter o direito ao voto, ou a posse de propriedades, ou de andar na rua a noite sem medo. Nós sabíamos perfeitamente bem o que tornava alguém fêmea quando essa característica garantia uma vida de subserviência e dor. Foi só quando as mulheres começaram a dizer não que seus corpos se tornaram um conceito.

Muitas feministas trouxeram isso à tona, muitas e muitas vezes. Eu as vejo falar disso. Eu sei que você as lê. Você ouve o que elas estão dizendo? Se não, por quê? E por que você sempre responde quando “eu* digo? Parece que você sabe sim quem tem um corpo fêmea, quando se trata de decidir quais perspectivas serão ignoradas.

O sexo é um mistério absoluto para você quando se trata de as mulheres quererem abrigos para si mesmas, espaços de encontro exclusivos, palavras que falem de si. Perdão por perguntar, mas é igualmente misterioso quando você desloga do Twitter e vai para o PornHub? A verdadeira natureza do corpo feminino é tão complexa quando você faz o seu discurso. Ela fica mais simples na hora em que você vai se masturbar? Quem lava a roupa na sua casa? Como você foi capaz de navegar pela incompreensível sopa de X e Y para encarregar sua namorada de lavar a louça? Dando-lhe o benefício da dúvida — acho que você sabe perfeitamente bem o que é um corpo fêmea. Mas caso você não saiba, aqui vai uma dica:

É o único tipo de corpo que te faz ser jogada viva em uma pira funerária quando seu marido morre. É o único tipo de corpo que faz com que amarrem os seus pés e queimem os seus seios. É o único tipo de corpo que é engravidado através do estupro e queimado com ácido, o único tipo do qual se espera que se sente em silêncio e ouça enquanto o redefinem à vontade, o único tipo de corpo que os homens gastaram milênios criticando e avaliando e comprando e vendendo até que subitamente decidiram que nem sabiam o que caralhos queriam dizer durante todo esse tempo.

Você sabe o que é um corpo fêmea, cara? É o único tipo de corpo que faz homens como você levantarem esse tipo de questionamentos estúpidos. Então, por favor, pare. É uma emergência. São três bilhões e meio de seres humanos atados aos trilhos, e você está pilotando o trem. Sua insistência na nuança, seu fetiche por precisão, sua desconstrução presunçosa do senso comum — tudo isso não te faz um pensador. Não te faz um sábio. Só te faz um imbecil. Te torna pior do que um espectador. Um espectador não faz nada. Ele assiste tudo de longe. Você entra na discussão só para cutucar a vítima a respeito das imprecisões de seus gritos. Eu não vou entrar nessa briga, colocando a minha argumentação por cima do som dos ossos quebrados. Simplesmente não vale a pena.

Aqui vai minha resolução: enquanto prostituidores, padres e políticos souberem distinguir um corpo fêmea, eu também vou saber. No momento em que eles estiverem confusos — no momento em que eles hesitarem, no momento em que eles qualificarem, no momento em que eles adotarem a postura cuidadosa e restrita que você exige dos alvos de seus abusos — só então eu vou alegremente me abrir para a ambiguidade. Até lá, imploro. Reserve sua curiosidade filosófica, seu rigor científico, para as suas dez mil outras questões que não transformam uma atrocidade em um experimento mental. O que marca a divisão entre o conhecimento e a crença? Como a vida se desenvolveu a partir da não-vida? P = NP? Em que ponto um homem perdendo cabelo se torna careca e não meramente alguém de cabelo ralo? Tuite lá para a Rogaine e pense aí nesse quebra-cabeças. Deixe as mulheres em paz.


Traduzido de: MIX, Jonah. “An open letter to the guy on Twitter who wonders if biological sex is real“. Medium. 19 de abril de 2019.