Pelo direito de dizer “eu avisei”

Com os cortes na educação, uma parte dos eleitores da família Bozo se arrependeu. Isso virou meme na esquerda, mas também criou uma discussão: temos que meter o dedo na cara e dizer “eu avisei”, ou temos que, agora, chamar essas pessoas pra luta?

Lógico que não tem sentido expulsar alguém de manifestação por causa da merda em que ele votou na eleição passada. Mas eu não vou abrir mão do meu direito de esculachar essa pessoa, que eu conquistei com muito esforço tentando convencer essas criaturas em outubro. Vou explicar o porquê.

Em primeiro lugar, esses casos de eleitores do miliciano que se arrependeram e vão pras ruas lutar contra o governo são raríssimos. Eu, até agora, não vi fora do Facebook. A grande maioria dos arrependidos são os caras que pararam de encher o saco agindo como fã de político ou, principalmente, os que voltaram pra posição antiga do senso comum de que “político é tudo igual”. Isso significa que não aprenderam porra nenhuma com essa história toda, e que têm tudo pra seguir o próximo nome que a direita inventar, como o Dória, o Moro ou o Luciano Huck.

Essas pessoas são, pra usar uma expressão maoísta, as massas atrasadas. Se você olhar os resultados das eleições presidenciais desde 1989, sempre teve pelo menos 35% da população que votou na direita em todas elas.

Faz diferença ter votado numa direita neoliberal como o FHC porque o Plano Real derrubou a inflação e ter votado num cara totalmente despreparado e preconceituoso, unicamente por motivos filhos da puta (como querer que a polícia saia matando ladrão de celular ou querer que as igrejas evangélicas tenham mais poder político) mas, de qualquer forma, isso significa que uma parte considerável da sociedade brasileira tem valores conservadores e acaba não votando nunca na esquerda.

Imagina se existisse um governo de esquerda radical no Brasil, com amplo apoio popular. Essas pessoas seriam as que, em qualquer período de progresso, ficam reclamando que “antigamente era melhor” e se perguntam “onde esse mundo vai parar?” Seriam os velhos que diziam, na década de 90, que na ditadura era melhor. São os americanos que têm nostalgia da Confederação. A melhor atitude da esquerda seria neutralizar essas pessoas, ou seja, tentar garantir que as condições sociais fossem boas o suficiente pra essas pessoas não se organizarem em defesa dos seus valores reacionários e aceitarem o novo período por causa das melhores condições de vida, mesmo que a contragosto.

Fugindo um pouco do assunto, a vitória do populismo de direita aconteceu quando essas lideranças se conectaram com essas massas atrasadas, numa situação em que a direita neoliberal estava desgastada com a piora das condições econômicas desde a grande recessão de 2008, e a esquerda não conseguiu oferecer nenhuma alternativa, porque os seus partidos mais importantes adotaram as principais políticas neoliberais, o que fez essa parte da população pensar, com alguma base na realidade, que a esquerda e a direita no poder são a mesma coisa.

Então, quer dizer que não tem nenhum prejuízo político em mandar bolsominion arrependido se fuder?

Sim.

Mas nem só de xingar esses caras é feita a vida.

Toda a parte da população que tem um nível de consciência política socialista e mantém algum tipo de atividade política, mesmo que seja esporádica (ir em manifestações, escrever textos políticos, participar de sindicatos e associações, partidos ou organizações etc) pode ser considerada a vanguarda, pra usar outra expressão marxista. No Brasil, talvez seja um ou dois milhões de pessoas. O que a gente tem que fazer, em vez de tentar convencer quem passou as eleições dizendo que você tinha que sair do país, é tentar chamar pra luta o setor que é receptivo às ideias de esquerda, e tentar aumentar a organização e a consciência dessas pessoas.