Os palhaços do rei: Uma discussão em torno dos limites do humor

“Nada descreve melhor o caráter dos homens do que aquilo que eles acham ridículo.” (Goethe)

Em abril de 2013, o canal de entrevistas “8 Minutos”, apresentado pelo humorista Rafinha Bastos e transmitido pelo You Tube, publicou uma entrevista com o também humorista Fábio Porchat. Logo no início da entrevista, entre gargalhadas, Porchat disse, em tom de brincadeira, que tinha um desabafo a fazer ao seu anfitrião. O convidado se disse cansado de responder, de forma reiterada, em todas as entrevistas de que participava, a uma pergunta que sempre lhe era feita, segundo ele, por culpa de Rafinha. Aonde quer que fosse, em qualquer programa de entrevistas a que era convidado, invariavelmente lhe perguntavam “quais eram os limites de humor”.

De certa forma, Fábio não estava errado. Durante os meses anteriores, muitos humoristas foram convidados a responder a essa pergunta em debates, entrevistas ou em redes sociais. Tudo por conta da repercussão de uma piada proferida por Rafinha Bastos que, ao elogiar a beleza física da cantora Wanessa Camargo (à época gestante), disse que “comeria ela e o bebê”. O chiste, de mau gosto certo e de graça discutível, rendeu a Rafinha um processo judicial, perda de público para seus espetáculos, o emprego no humorístico CQC e contratos de patrocínio. E nem se pode dizer que foi um caso isolado. Ele também foi o autor de um comentário ainda mais infeliz, quando disse numa entrevista que mulheres feias deveriam agradecer se viessem a ser estupradas.

A discussão acerca dos “limites do humor” continuou dando as caras episodicamente e ressurgiu esse ano em todo seu esplendor por conta do humorista Danilo Gentili, outro protagonista habitual desse tipo de polêmica. Em 2016, Danilo ofendeu publicamente a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), chamando-a de “nojenta”, “falsa” e “cínica”. Ela o processou e, em 2017, quando o humorista recebeu a notificação extrajudicial, ele achou que seria uma boa ideia gravar um vídeo debochando da situação e esfregando o documento em suas partes íntimas. Evidentemente isso foi usado contra ele no processo e ele foi condenado, numa decisão anunciada poucas semanas atrás.

Com posturas como essas, humoristas como Rafinha ou Danilo acabam por colecionar polêmicas que, embora os promovam, lhes rendem problemas com a justiça. Nessas ocasiões, as reações dos envolvidos invariavelmente ficam entre protestar contra as medidas judiciais, que eles consideram atos de censura (um equívoco, como veremos mais adiante), e bradar contra o “patrulhamento” que dizem sofrer. Cabe ressaltar que o termo patrulhamento é utilizado por eles para definir a rejeição manifesta que suas opiniões eventualmente encontram, algo que eles associam a censura ou cerceamento, demonstrando que alimentam uma concepção de democracia bastante pueril. Uma lacuna considerável na formação intelectual desses humoristas, que ajuda muito a explicar a incompreensão crônica que eles alimentam em relação a alguns aspectos básicos da convivência democrática. Infelizmente essa incompreensão é compartilhada por uma boa parcela do público, o que explica a boa acolhida que seu trabalho ainda encontra.

O primeiro aspecto que chama a atenção nesse discurso dos humoristas é exatamente essa incompreensão do que é viver e conviver num ambiente democrático. É um ponto basilar da vida em sociedade a colocação consensual de restrições aos direitos de cada um em prol do respeito aos direitos da coletividade. O exercício de qualquer direito pressupõe algum limite em prol dos direitos dos demais, numa premissa que aparece de formas das mais variadas em ordenamentos jurídicos e tratados internacionais por quase todo o mundo. Os exemplos são incontáveis. O direito à legítima defesa não pode transcender o uso da força mínima necessária para isso; o direito à propriedade deve levar em conta a preservação do ecossistema e do patrimônio cultural, e por aí vai. Nada mais natural que o direito legítimo a liberdade de opinião não inclua a violência verbal embutida na fala preconceituosa, na mentira ou na ofensa pura e simples.

Na compreensão dessa assertiva, esses humoristas fracassam miseravelmente. Em geral, referem-se a essas restrições como censura descabida fruto de uma vocação autoritária daqueles que não apreciam seu trabalho. Numa mescla de formação política deficiente com oportunismo raso, não levam em conta que as sanções que sofrem são previstas em lei e normalmente decorrem do recurso do ofendido ao poder judiciário, com direito ao contraditório. Por mais que o processo legal não seja imune a erros ou a influências ideológicas, ele é o caminho característico das sociedades democráticas para sanar esse tipo de conflito. O derrotado nesse tipo de processo sempre pode questionar o resultado ou a lisura do processo, mas vai ter dificuldades em apresentar-se como um mártir da liberdade expressão contra um regime ditatorial. Alguns destes humoristas, contudo, se expõem ao ridículo de tentar.

Além disso, a imagem de paladinos da liberdade de expressão que humoristas como Rafinha e Danilo tentam construir não é precária somente pela previsão legal das punições que sofrem. Via de regra, a veemência com que se insurgem contra os movimentos sociais e os políticos de esquerda que denunciam os preconceitos em suas piadas desaparece diante de patrocinadores ou grupos organizados com algum poder econômico.

Essa diferença de tratamento, por sinal, é a chave para a compreensão do quanto esse humor não é neutro. No documentário O Riso dos outros, de Pedro Arantes, que ouve humoristas, políticos e ativistas sociais acerca da questão dos limites do humor, é opinião quase unânime entre os entrevistados que o humor é ofensivo na sua essência. A grande questão gira exatamente em torno de quem são as vítimas dessa ofensa, um ponto central para se avaliar a qualidade desse humor e o posicionamento político dos seus autores. A mediocridade de boa parte dos representantes do stand-up comedy brasileiro fica evidente na cômoda opção, majoritária entre seus representantes, por ridicularizar aqueles dos quais a sociedade brasileira está acostumada a rir desde sempre. Negros, gays, mulheres, pobres e obesos são os alvos em quase todos os trechos de apresentações de humoristas exibidas no filme, muitas delas de uma falta de graça constrangedora.

Por outro lado, do mesmo filme, também salta aos olhos a potencialidade (bastante subaproveitada) do humor como instrumento de questionamento à ordem, capaz de arrastar ao ridículo toda forma de comportamento opressor e os indivíduos que os promovem. Um caminho que exige muito mais da inteligência e da capacidade desses artistas e, exatamente por isso, não tão trilhado pela maioria deles. Também é o caminho oposto ao escolhido por Rafinha Bastos, Danilo Gentili e boa parte dos humoristas brasileiros.

Felizmente, há exceções nessa conjuntura. Alguns coletivos de humoristas como os dos canais do Porta dos Fundos e Choque de Cultura, além do recém-extinto programa Tá no Ar, exibido pela Rede Globo, celebrizaram-se por esquetes e quadros repletos de alfinetadas a diversas mazelas da conjuntura atual. Trabalhos onde são ridicularizados, sem piedade, comportamentos machistas, racistas e promotores de toda a forma de preconceito e exclusão. Os resultados são variados, mas o esforço criativo em remar contra a maré, via de regra, produz trabalhos melhores.

É mais que conhecida a importância histórica da arte na denúncia de grandes corporações e de governos ditatoriais e antipopulares. A valorização de um humor mais crítico e inteligente pode ser um excelente recurso num contexto político como o atual, marcado pelo retrocesso e conservadorismo. Ainda mais se levarmos em conta a inegável vocação para o ridículo demonstrada em várias ocasiões por alguns membros do primeiro escalão do governo federal. Uma pena que, numa conjuntura tão favorável à crítica bem-humorada, muitos humoristas ainda insistam em ser, como descrito por Millôr Fernandes, “palhaços dos reis”, quando bem poderiam ser “reis dos palhaços”.