Socialismo como contracultura (1)

Cartaz de propaganda de uma comunidade socialista utópica owenista, 1824

Hoje em dia, somente existem duas visões coerentes de sociedade. O liberalismo e o fundamentalismo islâmico. Só as duas conseguem colocar num plano geral a natureza, a história e o lugar do ser humano, e gerar um modelo de sociedade e medidas concretas para realizar esse modelo.

O marxismo, que na metade do século XX, conseguiu formar uma visão de sociedade, hoje está completamente desacreditado e entregue a grupelhos nas margens dos movimentos sociais, depois do fracasso do “socialismo real”.

Ou seja, hoje, as pessoas têm acesso a uma apologia do capitalismo como o único sistema possível ou à sua rejeição apocalíptica. Enquanto isso, outros restos de visões derrotadas, como o nacionalismo e o populismo, ficam parasitando as outras pessoas.

O objetivo desse texto é pensar um pouco sobre a relação entre a(s) teoria (s) revolucionária(s) e os movimentos sociais. Na primeira parte, vou tentar fazer um histórico da própria ideia de socialismo, como foi concebida pelo movimento dos trabalhadores no começo do século XIX. Na segunda parte, vou falar da relação instável entre o marxismo e o movimento dos trabalhadores, e do que esperar na nossa fase histórica.

Em primeiro lugar, o que é socialismo?

Eu vou defender aqui que o Marx está na continuidade dos trabalhadores que definiram o socialismo na década de 1820. Começo com esse trecho do primeiro capítulo de O Capital:

Figuremos finalmente uma reunião de homens livres, trabalhando com meios de produção comuns, e dispendendo, de acordo com um plano concertado, as suas numerosas forças [de trabalho] individuais como uma única força de trabalho social. (…) O produto total da referida reunião de trabalhadores é um produto social. Uma parte serve de novo como meio de produção, permanecendo social; mas a outra parte é consumida [como meio de subsistência], devendo, por isso, repartir-se entre todos. O modo de repartição variará segundo o organismo de produção da sociedade e o [correspondente] nível de desenvolvimento histórico dos trabalhadores. Suponhamos, apenas para estabelecer um paralelo com a produção mercantil, que a parte a repartir por cada trabalhador seja proporcional ao seu tempo de trabalho. O tempo de trabalho desempenhará assim um duplo papel. Por um lado, a sua distribuição [socialmente planificada] na sociedade regula a justa relação das diversas funções com as diversas necessidades; por outro lado, serve de medida à parte individual de cada produtor no trabalho comum e, ao mesmo tempo, à porção que lhe compete na parte do produto comum reservada ao consumo. Neste caso, as relações sociais dos homens com os seus trabalhos e com os produtos do trabalho permanecem simples e transparentes, tanto na produção como, na distribuição.

Não foi o barbudo que inventou isso: na próxima parte, eu vou transcrever trechos escritos por operários na época em que ele era criança, dizendo mais ou menos a mesma coisa. Na verdade, ele e o Engels é que foram chamados em 1847 para a Liga dos Justos, uma associação de operários comunistas, e contribuíram com o conhecimento deles sobre economia e filosofia para um projeto político que já existia.

Mas, antes disso, só uma objeção que muitas vezes é feita por liberais e conservadores. Esse argumento de que o socialismo é uma sociedade autogerida pelos trabalhadores leva à conclusão lógica de que a URSS, a China maoísta, Cuba etc nunca foram socialistas (existe uma variedade de interpretações sobre que tipo de sociedade existiu nesses países, desde a tese de que foram formas de capitalismo de Estado a novas sociedades de classes). O que, então, leva à crítica de que estamos usando a falácia do escocês verdadeiro, ou seja, as experiências socialistas fracassadas não seriam o “verdadeiro socialismo”.

Mas duas coisas podem ser levantadas contra essa crítica.

Em primeiro lugar, que desde o início da revolução russa, existiram várias correntes que fizeram críticas a uma série de medidas concretas dos comunistas, de um ponto de vista socialista. Ou seja, nunca existiu unanimidade de que aquele fosse o caminho certo (existiu, sim, hegemonia do que depois se tornou o Partido Comunista da União Soviética sobre uma parte importante da esquerda, mas eu vou falar disso depois).

Além disso, e isso eu acho que é o decisivo, é que o argumento de que essas revoluções não chegaram ao socialismo não deve ser usado como desculpa para não pensar no fracasso delas. É a nossa obrigação, num período de defensiva ideológica como o que estamos vivendo, tentar entender porque houve totalitarismo, quais os problemas da economia planificada, porque se mantiveram a dominação masculina, o nacionalismo e o racismo etc. Não só para responder à direita mas, principalmente para buscar formas de não repetir tudo de novo.