Um termo problemático: porque os dois lados estão errados sobre a islamofobia

Artigo de Andy Heintz, traduzido daqui

Protesto de muçulmanos sufis contra o regime fundamentalista do Sudão

“Islamofobia” virou um termo controverso politicamente. O instinto natural dos americanos progressistas tem sido o de usar o termo em defesa dos muçulmanos, que eles veem como uma minoria oprimida que enfrenta uma discriminação desnecessária e, muitas vezes, excessiva, por parte do Estado-nação. Enquanto isso, os republicanos, na sua tentativa corrente e, em grande parte, bem-sucedida de exigir um monopólio sobre como definir e interpretar o politicamente correto, muitas vezes desprezaram a islamofobia como outro exagero de liberais ultrassensíveis e relativistas culturais.

As visões estreitas adotadas pelos dois maiores partidos são inexatas e trágicas, porque essas narrativas omitem algumas das vozes mais visionárias que examinaram criticamente o termo problemático “islamofobia”. Mesmo que os progressistas estejam corretos ao dizer que a discriminação contra os muçulmanos e os excessos do Estado de Segurança Nacional devem ser combatidos com vigor, a maioria dos progressistas falha em reconhecer como o termo foi cooptado pelos islamistas, para atacar qualquer um que interprete o Islã de forma diferente ou — horror dos horrores — faça uma crítica ao Islã.

Vozes dissidentes essenciais, como Marième Hélie-Lucas, Pragna Patel, Gita Sahgal, Fatou Sow, Diep Saeeda, Karima Bennoune, Houzan Mahmoud, Pervez Hoodhboy e outros, fizeram várias objeções de princípio à escassez de vozes progressistas seculares do oriente médio e norte da África que, através, muitas vezes, de experiências trágicas, conhecem os graves perigos de deixar os islamistas e extremistas (sejam violentos ou não-violentos) definirem o que significa ser islamofóbico.

Infelizmente, nenhuma dessas pessoas – nem as pessoas incrivelmente corajosas para as quais elas tentam chamar atenção – conseguiram muita atenção na mídia progressista. O excelente livro de Bennoune, A sua fatwa não se aplica aqui: histórias não contadas da luta contra o fundamentalismo islâmico, talvez seja o melhor exemplo de por que as vozes dos muçulmanos que enfrentam a prisão, a tortura e a morte no oriente médio e no norte da África merecem mais atenção da mídia internacional. O livro sublinha dois pontos importantes: 1) Ele joga luz sobre a coragem incrível dos muçulmanos progressistas e dos secularistas de origem muçulmana, mostrando a sua decisão de arriscar (e, muitas vezes, sacrificar) as suas vidas para conseguir igualdade de gênero, liberdade de imprensa e direitos humanos e 2) esses exemplos destroem as narrativas da extrema direita sobre uma versão monolítica e mumificada só Islã, incompatível com os valores ocidentais, porque a maioria das pessoas que arriscam as vidas lutando contra o fundamentalismo islâmico também são muçulmanas.

Sempre que um comentarista da mídia, numa sala com ar condicionado, pregar sobre a necessidade de mais vozes islâmicas moderadas se contrapondo ao terrorismo islâmico, alguém devia lhe emprestar uma cópia do livro de Bennoune e mandar ler o começo do capítulo 4, que conta detalhadamente sobre quando o jornal argelino El Watan (A Nação) foi bombardeado pelos fundamentalistas, matando dezoito pessoas, e ferindo 52 dos seus colegas de trabalho e vizinhos. Foi quando o editor argelino Omar Belhouchet decidiu que isso não ia impedir o El Watan de mandar os jornais pras bancas no dia seguinte. 

“Nós nunca nos intimidamos com essas pessoas”, Belhouchet disse para Bennoune. “Eu disse: não temos que ter medo. Vamos continuar o nosso trabalho. Ele só vão nos parar se matarem todos nós.’”

Fazer leis que discriminam um grupo por causa da sua religião é errado, mas criticar as ideias do Islã (ou do cristianismo, budismo, judaísmo, hinduísmo etc) não é anti-Islã, é uma liberdade de expressão que deve ser protegida bravamente. É por isso que a palavra “islamofobia” deve ser jogada na lata de lixo da história, em favor do termo “preconceito antimuçulmano”, definido como discriminação do governo contra os muçulmanos, especificamente por causa da religião, e discurso de ódio e crimes de ódio contra americanos muçulmanos. Essa definição é contra a discriminação, mas não pode ser usada pelos islamistas contra os seus rivais laicos.