Os brasileiros são um povo conformista, conservador e acomodado?

Manifestação durante a onda de ocupações estudantis em São Paulo em 2015

Muita gente fala do povo brasileiro como se fosse muito mais conservador do que os outros. Isso aí é uma ilusão e tem alguma coisa de viralatismo.

Primeiro, não tem muito sentido comparar alhos com bugalhos. Por exemplo, a China e a Rússia tiveram as duas maiores revoluções da história, perto desses dois casos, tudo fica menor.

Também não vejo sentido em comparar com outros países, por exemplo, a França, com acontecimentos do século XVIII ou XIX, ou da época da segunda guerra. Acho que não dá pra se lamentar também porquê o Brasil não tem tantas lutas como países com situações muito piores, tipo Bolívia (muito mais atrasada economicamente) ou Palestina (sob ocupação militar).

Com essas ressalvas, se a gente for ver, por exemplo, os países imperialistas:

  • na Alemanha não aconteceram grandes lutas desde o fim da segunda guerra.
  • na França, tirando a greve geral de maio de 68, as lutas têm dimensões e ritmos menores que no Brasil
  • no Reino Unido, as grandes expressões de lutas (onda de greves de 1971, protestos contra a guerra do Iraque) são mais ou menos comparáveis com as do Brasil (sendo que a onda de greves da década de 80 aqui foi muito maior)
  • nos EUA, o nível das lutas sempre foi muito mais baixo. O caso americano é importante, porque os movimentos negros e feministas têm uma tendência a idealizar as lutas nos EUA mas, se você for ver, o movimento pelos direitos civis envolveu centenas de milhares de pessoas pra lutar contra a segregação, que nem existiu no Brasil, e que era um anacronismo na época. Trezentos mil na marcha do Luther King foi importante, mas aqui já teve movimento muito maior. Acontece que o movimento negro no Brasil não conseguiu se tornar um movimento de massas, em parte, porque a militância foi englobada pelos movimentos populares de quarenta anos pra cá, muito mais avançados politicamente que os dos EUA, que quase sempre ficaram debaixo da asa do Partido Democrata (o que não quer dizer que os sindicatos substituem o movimento negro, nem que ele não tenha que se fortalecer, porque tem bandeiras que não se resumem às dos sindicatos).

Todos esses países, hoje, têm uma quantidade de greves qualitativamente mais baixa do que no Brasil e, tirando a França e o Reino Unido, muita onguização da militância.

Dos países imperialistas, quem tem lutas mais importantes que o Brasil, com certeza, são Espanha e Itália. A Espanha teve uma das grandes revoluções do século XX, e foi um dos poucos lugares em que a crise de 2008 levou ao surgimento de uma força de esquerda, o Podemos. A Itália ainda tem lutas sindicais importantes e, no auge (1969-1978) elas foram mais radicalizadas que as do Brasil, ultrapassando o reformismo do PCI pela esquerda. Portugal é um pouco diferente porque, depois da revolução dos cravos, ficou muito mais morno do que o Brasil, apesar da esquerda eleitoral ser mais forte.

Mas essa comparação talvez não seja muito boa. Vamos comparar com países subdesenvolvidos, onde geralmente tem mais lutas:

  • O Chile, sim, que passou por uma situação pré-revolucionária em 1971-1973, pode dizer que tem mais lutas que o Brasil. Uma parte importante da militância foi morta pela ditadura, então hoje me parece que lá é mais morno que aqui.
  • O México, com uma revolução no século XX e uma zona liberada em Chiapas, também pode tirar onda. Também tem uma tradição sindical importante, mas que atualmente tá mais morna que no Brasil.
  • A Argentina tem um nível de lutas mais alto, mas que é mais atrasado politicamente (a esquerda argentina gira em torno do peronismo e nunca criou um partido operário de massas). No caso da Argentina (e do Uruguai também), também conta o fato da grande maioria da população viver na capital ou na periferia dela. Se a população do Brasil se concentrasse no Rio e em São Paulo, também pareceria que o país tá sempre mobilizado.

Saindo da América Latina, a Rússia atual tem claramente menos lutas do que o Brasil. Na China também, mas é lógico que o fato de ser uma ditadura muda tudo. Na África do Sul que, junto com a Coreia do Sul, teve um ascenso sindical nos anos 80 como o Brasil, ainda tem uma quantidade boa de greves, mais fraca que o Brasil na Coreia, e mais forte na África do Sul (inclusive com um novo partido comunista sendo criado agora). A Índia que, até agora, teve menos lutas do que o Brasil (por causa do conflito entre hindus e muçulmanos e da influência do nacionalismo burguês do Partido do Congresso), parece que vai ultrapassar a gente, agora que tá crescendo mais do que a China, e tá terminando o processo de proletarização da população.

Conclusão: estar em sexto, perdendo pra Espanha, Itália, México, Argentina e África do Sul, não é o fim do mundo, e nem exige teorias específicas sobre a suposta “passividade” dos brasileiros. No mundo inteiro, a maioria da população quase sempre não vai estar politicamente ativa – porque ir à luta tem riscos, exige romper pelo menos em parte com as ideias dominantes etc. Por isso, em geral são setores minoritários que estão enfrentando problemas agudos ou que têm algum grau de estabilidade de vida que fazem manifestações, greves etc.

O Brasil já teve a maior onda de greves até então, na década de 80, criou um partido operário de massas que quase ganhou em 89 com um programa de esquerda radical, nos anos 90 teve o maior movimento camponês da época (o MST), teve grandes manifestações populares, como as Diretas Já e os atos de junho de 2013. Estamos num período de onda conservadora, por causa da falência da esquerda institucional. Mas, quando essa onda passar, são de se esperar grandes lutas, e que haja reflexão pra não repetir os mesmos erros.