A classe trabalhadora internacional, sindicalismo etc

A maior greve geral da história. Índia, janeiro de 2019

Quem é a classe trabalhadora no mundo hoje?

Eu tava dando uma olhada nas estatísticas do Banco Mundial e da OIT (ILOSTAT):

População trabalhadora mundial 3,25 bilhões
Assalariados 1,82 bilhão
Camponeses +- 750 milhões
Operários industriais +- 450 milhões
Desempregados 172 milhões

Rendimentos (não é a mesma coisa que a taxa de mais-valia porque inclui os lucros dos pequenos produtores e não inclui o capital acumulado): variou entre 20 e 24,6% do PIB mundial entre 1972 e 2018, sendo que a mais alta foi ano passado

Participação do trabalho no PIB (trabalho necessário): 53% em 2018

Formação bruta de capital fixo (medida mais próxima da acumulação de capital): varia entre 21,7 e 26,2% entre 1960 e 2018. Ano passado, 23,6% se eu não me engano.

O movimento sindical, apesar dos pesares, ainda organiza a população numa escala qualitativamente maior do que qualquer outro movimento. Em milhões de sindicalizados:

Índia 65,2
Rússia 23,7
Brasil 20,7
EUA 15,7
Japão 11,2
Itália 8,8
Reino Unido 7,9
Alemanha 7,6
México 6,8
África do Sul 6,2
Argentina 5,0
Espanha 3,2
Coreia do Sul 2,7
França 2,4

Na China, existem poucos sindicatos independentes, a estrutura sindical oficial é paraestatal, no Irã, a mesma coisa. Dos países grandes com tradição de lutas sindicais, não consegui achar os dados da Nigéria. Isso aqui engloba mais de 90% da população do mundo e dá mais de 185 milhões de trabalhadores.

Os mais de 600 milhões de trabalhadores urbanos por conta própria, na sua grande maioria, vivem no terceiro mundo e são camelôs, pequenos comerciantes, artesãos etc, mas uma parte são profissionais liberais (“classe média”).

Em 1921, quando teve o racha do movimento sindical, as duas alas juntas tinham 40 milhões de membros, numa população de 2 bilhões de pessoas. É proporcionalmente menos do que hoje, mas a gente tem que levar em conta de que os sindicatos praticamente só existiam na Europa e nas Américas.

A Internacional Sindical Vermelha no auge teve 17 milhões de membros, mas foi declinando durante toda a década de 1920, e perdendo espaço pra Internacional de Amsterdam, reformista.

Os sindicatos anarquistas (AIT, não confundir com a I Internacional do Marx e do Bakunin) chegaram a um auge de 1,6 milhão na Espanha em 1936. Todas as outras federações anarquistas juntam chegavam a 1 milhão. A IWW, no auge, tinha 150 mil associados.

A Internacional Comunista também foi um fenômeno principalmente europeu. Em 1921, no auge, tinha 887 mil membros, em 1924, depois do fim da onda revolucionária, tinha 650 mil, e foi declinando até chegar a um mínimo de 328 em 1931, como resultado da política de “classe contra classe” (não se unir com a socialdemocracia contra o fascismo).

O PC alemão sempre foi o partido mais importante, com mais ou menos 450 mil em 1921 e 124 mil em 1930. 75% da IC estava em quatro países: Alemanha, Tchecoslováquia, Iugoslávia e França. Nesses três primeiros, no auge, os PCs organizavam, respectivamente, 1,5%, 3% e 2% da população adulta (antes de rachar, 4,5% dos alemães adultos eram filiados ao SPD). Nas eleições, eles chegavam mais ou menos a 10% dos votos. Fora desses casos, eram partidos de quadros. Os maiorzinhos eram o britânico e o italiano, o resto era tipo o PSTU.

O italiano, aliás, que entre 1921 e 1924 foi dirigido pelos comunistas de esquerda, tinha entre 40 e 50 mil membros, o mesmo tamanho do KAPD, organização comunista de esquerda que rompeu em 1921 com o KPD (PC alemão), mas o KAPD viveu em crise permanente e se desintegrou nos anos seguintes.

E tudo isso na Europa. Menos de 5% dos militantes eram de outros continentes na década de 1920. Depois do VII Congresso da IC, em 1934, os partidos se tornam reformistas, pra todos os efeitos. Além disso, começa a guerra popular na China, a maior revolução agrária da história. Então, não tem muito sentido comparar nessas condições.

Por que eu tô falando isso? Porque eu acho que a gente tem uma visão distorcida pelo saudosismo. A classe trabalhadora não era monstruosamente mais organizada cem anos atrás. O que mudou, isso sim, foi a radicalidade das alternativas. E a minha impressão é de que as possibilidades concretas de cada época é que criam esse salto na consciência, e não o contrário. Hoje, com as relações capitalistas enraizadas no mundo inteiro, as perspectivas são diferentes de quando o que estava em jogo eram os caminhos para o desenvolvimento.