Nós não somos porra nenhuma

Desde 2016, não tô em nenhum movimento ou organização. Eu tenho tentado voltar, mas sem conseguir. Tem os problemas pessoais, mas também tem a preocupação de não ficar fazendo um tipo de pseudomilitância muito comum, que seria participar de várias atividades com pessoas também militantes, pra olhar um pra cara do outro, sem tentar aumentar a organização e a consciência das pessoas.

Por outro lado, os movimentos sociais estão em refluxo, na minha categoria já há alguns anos (tô escrevendo um texto à parte sobre o governo e a atonia dos movimentos). Eu acho que a quase estagnação econômica (crescimento do PIB entre 1 e 2,5% até 2022) e a crise política permanente do governo vão levar o povo pra rua mas, na ausência de organização, o máximo que pode acontecer é isso favorecer a volta da centrodireita.

A esquerda brasileira está cometendo suicídio político. O PT é responsabilizado pela população (com uma boa parte de razão) pela crise de 2014-2016, a pior das últimas décadas, e pela corrupção generalizada. Diante disso, eles usam a perseguição real que sofreram com a Lava Jato como pretexto pra negar esses fatos, e continuam num discurso messiânico, como se o Lula ainda pudesse ser candidato e, mais ainda, como se ele pudesse refazer todo o ciclo que se esgotou em 2014 se fosse eleito.

Esse discurso messiânico foi o mesmo que fez o Bozonaro ser eleito, já que o PT transformou a campanha eleitoral num plebiscito sobre a honestidade do Lula, num momento em que a maioria da população queria ele preso. As esperanças levantadas quando ele foi pra prisão domiciliar tomaram um banho de água gelada, quando ficou claro (pra quem ainda não queria ver) que ele não tem nenhum projeto de enfrentamento com o governo antes das eleições.

Que o PT não tenha como ganhar as eleições nos próximos anos não significa que ele não continue uma força eleitoral importante, o que inclusive deixa ele com recursos pra cooptar, desmobilizar e destruir possíveis competidores dentro da esquerda.

O Ciro Gomes tenta se projetar como alternativa ao PT, procurando a sua bola quadrada, o antipetista disposto a votar na esquerda. Esse é o significado da atitude de não querer ser “guru de costumes” (ou seja, não se posicionar contra o conservadorismo na política) e da “oposição propositiva” ao governo.

O PSOL, que conseguiu ter independência em relação ao PT até 2014, durante a luta contra o impeachment (que foi correta), acabou se subordinando de uma tal forma que virou um satélite do PT e a única crítica que consegue balbuciar é às alianças do PT no governo.

Existem exceções, claro, como o PSTU ou o pequeno campo autonomista, mas sem peso político suficiente pra mudar o rumo das coisas. Esses setores costumam propor mobilizações muito além do nível que a classe trabalhadora está disposta a se arriscar, o que faz com que eles só consigam sair do isolamento em raros momentos em que se colocam como a ala radical de greves dirigidas pela esquerda institucional ou de movimentos espontâneos localizados e de curta duração.

Diante disso, a tendência é a reeleição do Bozo (improvável, mas possível) ou, mais provável, a eleição de algum candidato da direita tradicional, ligada à mídia e ao mercado financeiro, em 2022. O giro à direita no discurso político é tão forte que até candidatos da direita tradicional têm que fazer discurso de miliciano pra não perder base eleitoral, como é o caso do Dória e do Witzel.

E como mudar essa situação? Aí é que entra o desânimo. Nós não somos porra nenhuma. Todos os partidos, quando se institucionalizam, têm seus interesses próprios de autoconservação que, na situação de hoje, se resumem a manter uma bancada parlamentar, entrar em governos estaduais e pegar uma parte do fundo partidário.

Nós, trabalhadores com uma perspectiva de classe e socialista, não temos como influir. Não podemos organizar greves sozinhos no meio da apatia e do individualismo, não temos como reconstruir os movimentos sociais desarticulados. Não temos como mudar o rumo dos partidos. Fazer trabalho de base vai atingir, com sorte, algumas dezenas de pessoas, geralmente não em situação de agir imediatamente.

Uma mudança grande na esquerda a nível nacional dependeria, nessas circunstâncias, de uma ruptura significativa na direção de um dos partidos da esquerda institucional (que também são majoritários nos movimentos sociais). É só pensar que os dirigentes desses partidos chegaram lá justamente por jogar as regras do jogo, que essa possibilidade desaparece por si só.

Sem ser organizado, o máximo que se pode esperar é ser uma figura pública com acesso à mídia ou poder dentro da estrutura acadêmica, isso pra o que você fala ser levado em consideração. Um simples trabalhador, um militante de base, são apenas números. Fora isso, você é um zero.

Durante mais de quinze anos, eu participei de organizações e movimentos que lutaram pra construir uma oposição revolucionária ao PT, contando que um ascenso forte dos movimentos fosse capaz de colocar em movimento novos setores da classe trabalhadora, dispostos a uma política radical. Em 2013, eu vi que o peso do conservadorismo era forte o suficiente pra não deixar essas pessoas simplesmente lutando por reivindicações econômicas, e conseguia botar pelo menos uma parte delas em luta pelas bandeiras da direita, o que era mais fácil ainda num governo de centroesquerda.

Hoje, a forma principal da ideologia dominante não é mais a crença no discurso de liberdade do capitalismo. Essa ideologia pode ter influência em alguns setores da classe média e em poucos trabalhadores por conta própria. Mas a principal ideologia nas classes populares (e na classe dominante), a minha impressão é que é o cinismo: as pessoas não têm nenhuma ilusão sobre a justiça ou a possibilidade de melhora da sociedade, e tentam minimamente manter a si mesmos e às próprias famílias. Quer dizer, a crítica imanente do neoliberalismo, pra usar um conceito marxista, foi em nome de um individualismo doentio, em que a coletividade é o interesse do meio social mais próximo. Isso não acontece só no Brasil, como um certo viralatismo de esquerda imagina: é o mesmo sentimento por trás da eleição do Trump, do Brexit etc. Na juventude, esse cinismo é transformado em hype com memes niilistas e humor autodepreciativo.

Não temos perspectiva a curto, médio nem longo prazo. No máximo, temos que esperar indefinidamente surgirem condições pra existir uma perspectiva a longo prazo. Qualquer pessoa que queira continuar ativa politicamente tem que contar com o pressuposto de que não vai haver nos próximos anos nenhuma alternativa socialista, partidária ou nos movimentos. E, ainda assim, é preciso não cair no cinismo e na apatia. É fazer o mínimo de atividade, com a angústia de saber que esse mínimo é muito aquém das necessidades.