Festa, espaço em disputa

Existem algumas polêmicas no nosso cenário político que são absolutamente cíclicas, indo e voltando com regularidade quase que sazonal, com época certa pra começar e acabar, como as estações do ano. Com a proximidade do carnaval, retorna com força uma das mais maçantes e inócuas dessas discussões: O suposto caráter alienante das grandes festas e comemorações populares.

Tão cansativa quanto falsa, a polêmica deu as caras mais cedo do que de costume, no fim de novembro, quando as ruas do Centro do Rio de Janeiro foram tomadas por torcedores do Flamengo em festa pelo título da Copa Libertadores da América. À época, dentre muitos comentários sobre uma suposta despolitização daquela iniciativa, viralizou um tuíte da professora e militante do PT Elika Takimoto criticando a “falta de consciência de classe” da multidão presente à festa.

Essa crítica, que, como veremos adiante, guarda pouco nexo com a realidade, é constantemente lançada contra muitas festas populares, notadamente aquela que é meu objeto de estudo e uma das minhas mais ricas fontes de lazer e cultura: o Carnaval.

Em trabalhos anteriores publicados nesse blog (como aqui e aqui), já examinamos situações em que se desmonta como um castelo de cartas a tese do carnaval como sendo uma festa alienante e despolitizada. E não me refiro só as situações em que isso é gritante, como no escracho da política e dos costumes característico dos blocos ou nos enredos mais críticos levados à avenida por algumas escolas de samba. Mesmo que aquelas enormes massas que tomam as ruas a cada fevereiro não pensem em nada além de dançar, beber ou transar, poucas ocasiões são tão propícias à discussão de vários temas políticos, a começar pela própria ocupação do espaço público. É uma discussão central à democracia a definição de quem tem direito a ocupá-lo, quando e em que condições, numa polêmica central desde que o carnaval de rua existe, e que justifica uma série infindável de medidas (em geral, inócuas) de regulá-lo.

Além disso, é menosprezado por uma significativa parcela da intelectualidade o caráter de resistência embutido no ato de festejar o que quer que seja no seio da coletividade no espaço que é público por excelência. Seja a resistência simbólica presente na atitude e na preservação de expressões culturais ou mesmo a resistência no sentido mais estrito, onde a diversão tem papel preponderante, ajudando a suportar as tensões da luta cotidiana pela sobrevivência. Sobre isso, o professor e escritor Luiz Antonio Simas, um dos maiores estudiosos de nossas manifestações populares, definiu esse dilema de forma exemplar: “Meus avós tiveram a sabedoria de me ensinar o seguinte: a gente não faz festa porque a vida é fácil. A gente faz festa exatamente pela razão contrária”. E ele ainda arremata, citando o compositor Laudemir Casemiro, o famoso Beto sem Braço, baluarte da escola de samba Império Serrano: “o que espanta miséria é festa”.

Toda essa polêmica ainda guarda um outro aspecto que também deveria ser objeto de atenção por parte da nossa esquerda, embora esse último seja ainda mais controverso. O escritor Frei Betto, histórico militante de esquerda e frei beneditino, um dos grandes defensores da Teologia na Libertação no Brasil costuma dizer que “a cabeça pensa onde os pés pisam”. Uma crítica bastante óbvia (e, em muitos casos, pertinente) ao distanciamento de grande parte da militância de esquerda da vida cotidiana da grande massa trabalhadora do país. Um problema que está na raiz da dificuldade crônica que grande parte da esquerda encontra em dialogar com os trabalhadores. Ela não compartilha de seus gostos, hábitos e espaços de convivência, não compreendendo suas prioridades e sua visão de mundo. Por mais que sua pauta econômica dialogue diretamente com as necessidades dos mais pobres, a militância não consegue engajá-los num projeto consistente de transformação social.

O mais alarmante nessa distância que foi estabelecida é que a direita não parece compartilhar desses dilemas. Só pra ficar no exemplo lá do início do texto, a boa fase do Flamengo foi surfada de todas as formas possíveis pela direita mais fascista. A sede do clube foi visitada por uma estrela da moderna crise de lawfare que assola o Brasil, o juiz Marcelo Bretas, e várias premiações contaram com a presença de expoentes do neofascismo tupiniquim. O deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro nas últimas eleições, Rodrigo Amorim, que alcançou uma triste celebridade por ter quebrado em público uma placa que homenageava a vereadora Marielle Franco, é um assíduo frequentador dos jogos do time, sempre fazendo disso um fato midiático. Sem falar no governador do Estado e no próprio presidente da República, que sempre estão presentes nas partidas e vestem ou portam camisas do clube em eventos oficiais. O fato de nenhum dos dois ser torcedor do clube é um detalhe irrelevante nessa equação.

Enquanto estamos lamentando a “falta de consciência de classe” da festa popular, a direita está saltitando feliz no meio dela, entendendo muito melhor do que a esquerda a importância daquele espaço como um campo a ser disputado. Que a lição seja aprendida, com urgência.