O ANTI-IMPERIALISMO DOS TOLOS*

É muito disseminado um certo pensamento que vê a guerra como uma espécie de Copa do Mundo e trata logo de escolher algum país para o qual torcer. Mas o que é um país? É a população com toda a sua diversidade, história, cultura, língua, religião, costumes, particularidades, dividida em classes sociais e frações, com interesses, consciência, organização e ação política em disputa; ou é o governo deste país e suas forças armadas?

Analisar a luta de classes em cada país é muito difícil, então esse pensamento reducionista escolhe um governo e um exército para o qual torcer. Dividem-se os países (governos) em “bons” e “maus”, conforme estejam ou não alinhados contra os Estados Unidos.

Dentro dessa lógica, não importa que Rússia, China e Irã tenham governos extremamente autoritários, que pratiquem nos seus territórios e zonas de influência ações de limpeza étnica, genocídio, campos de concentração, encarceramento em massa, torturas, assassinatos políticos, atentados terroristas, repressão contra toda forma de oposição política, eleições de fachada, sistemas de governo autocráticos, teocráticos ou de partido único, violência policial sistemática, proibição de organizações independentes dos trabalhadores, proibição de greves, censura à comunicação e à produção artística e cultural, vigilância eletrônica contra seus habitantes, perseguição a LGBTs, restrições medievais aos direitos das mulheres, etc. Não importa que sejam países capitalistas, que mantém a exploração do trabalho, em condições brutais, enriquecendo a burguesia interna, corporações transnacionais e os burocratas do Estado, em conluios fechados a qualquer tipo de influência da população. Pouco importa tudo isso, já que são rivais dos Estados Unidos.

Tornam-se assim, por esse simples posicionamento, uma espécie de modelo ou referência para os “anti-imperialistas”, que revelam dessa forma o seu mais profundo desprezo pelas condições de vida concreta de centenas de milhões de pessoas dentro desses países. Um desprezo tecnocrático digno de quem raciocina com a lógica de aspirantes a gestores do Estado. Se estivessem no governo em algum desses países, ou em qualquer outro, provavelmente adotariam as mesmas práticas sem pestanejar, contanto que se opusessem aos Estados Unidos. Isso aparentemente desculpa tudo, os fins justificam os meios, e as razões de Estado da disputa geopolítica, interpretadas por seus (autoproclamados) conhecedores supremos, prevalecem sobre as vidas, as aspirações, os sofrimentos e os dramas desses milhões de seres humanos. Lamentável!

Note-se que registrar tudo isso em relação aos adversários geopolíticos dos Estados Unidos não significa isentar o governo estadunidense e desconhecer que este reproduz aquelas mesmas práticas, no seu território e no mundo inteiro. Fazer essa ressalva é importante devido à predominância avassaladora do pensamento binário, maniqueísta e superficial que considera que, se você está criticando um lado, automaticamente está apoiando o outro, o que absolutamente não é o caso. Criticar o bloco Rússia/China/Irã** não significa apoiar os Estados Unidos, significa dizer tão somente que nenhum imperialismo presta, não existe nenhuma espécie de “imperialismo benigno” ou “menos pior”.

Mesmo porquê, supondo-se que os Estados Unidos de alguma forma perdessem o posto de principal potência mundial, imediatamente alguma outra assumiria o seu lugar, seja a China, a Rússia ou a União Europeia. Isso não mudaria nada, o sistema capitalista mundial continuaria se reproduzindo com suas disputas e desigualdades, como era antes dos Estados Unidos se tornarem a potência hegemônica. Não existe nenhum atalho, brecha, passagem secreta ou passe de mágica que faça com que uma simples derrota militar ou política dos Estados Unidos e seu rebaixamento do topo do imperialismo mundial abra caminho para a libertação do mundo. Todo o trabalho de superação do capitalismo continua tendo que ser feito.

Não se trata portanto de lutar apenas contra uma potência imperialista principal, mas contra todo um sistema imperialista global que divide o mundo em nacionalidades rivais. Pois o imperialismo é nada menos que o capitalismo desdobrado mundialmente e para ser anti-capitalista é preciso ser contra todo e qualquer Império ou potência global ou local. Isso significa ser contra a guerra, e não escolher um lado para torcer.

Ser contra a guerra significa ser contra o governo do seu próprio país, qualquer que seja o lado que ele esteja escolhendo. Até o início do século XX o movimento operário era internacionalista, anti-belicista, anti-nacionalista, anti-chauvinista, anti-clerical, etc. O movimento convocava ações contra a guerra, contra o alistamento militar, em defesa dos objetores de consciência, contra a circulação de tropas, contra a produção de armamentos, etc. A ocasião perfeita para organizar ações como essas será o encontro dos aliados militares dos Estados Unidos, a ser realizar o aqui mesmo, no Brasil, nos dias 5 e 6 de fevereiro (https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/01/06/no-brasil-eua-testarao-alianca-contra-o-ira.htm). Que tal organizar protestos contra a guerra (não em defesa do regime sanguinário dos aiatolás do Irã) nos dias desse encontro?

Não se trata de ser contra a guerra por pacifismo ingênuo ou romantismo hippie, mas de denunciar que a guerra é sempre uma ação da classe capitalista e seus prepostos no Estado contra a classe trabalhadora no seu próprio país e nos outros. É preciso dizer que só quem ganha com a guerra são os super ricos que manipulam os governos das grandes potências. E mostrar que a defesa dos interesses dos trabalhadores está na luta contra essa minúscula elite de capitalistas, não contra os trabalhadores de outro país.

Por último, é importante lembrar que a ameaça de guerra aparece justamente no momento em que o Irã vivenciava a maior onda de protestos contra o governo em 40 anos, desde que foi instalado o atual regime. E essa onda de protestos não se limita ao Irã, pois atravessa países, territórios e continentes, com uma amplitude comparável ou em certos aspectos maior que a Primavera Árabe de 2011. A atual onda de protestos não recebeu ainda um nome poético como aquela, talvez porque ainda não tenha resultado em queda de governos ou regimes, mas a ausência de um rótulo jornalístico não deve diminuir em nada a sua importância.

Essa mobilização, que se estendeu por lugares tão díspares como Sudão, Hong Kong, Argélia, Haiti, Equador, Chile, Colômbia, Catalunha, Líbano, Iraque***, Irã, compartilhando métodos de luta (como as ocupações de aeroportos) e até performances como a marcante encenação das feministas chilenas que foi reproduzida mundo afora (muito precisa na sua denúncia do Estado como estuprador, órgão máximo da violência de gênero e de classe); representa o principal fenômeno da luta de classes em escala mundial. É esse fenômeno que devemos acompanhar (e trabalhar para que se intensifique e multiplique), inclusive para observar que a ameaça de guerra surge como uma forma dos estados capitalistas tentarem impedir exatamente essa irradiação. Então, se há um lado a ser escolhido aqui, é sempre o da classe trabalhadora e suas mobilizações autônomas, nunca de qualquer governo e seus exércitos.

*Copiei a expressão “anti-imperialismo dos tolos” de uma publicação do Rodrigo Silva no Facebook

**Falamos em Rússia/China/Irã como um bloco de modo genérico, informal, sem implicar que tenham alinhamento automático entre si em todas as questões (pelo contrário, existem atritos e desacordos), equivalência hierárquica enquanto potências (Rússia e China atuam globalmente, o Irã atua principalmente no Iraque, Síria e Líbano) ou outras semelhanças além daquelas apontadas no próprio texto, pois possuem particularidades históricas especialíssimas.

***O grande ausente nas discussões sobre a atual crise é justamente o epicentro da situação, o Iraque. O país vem sendo devastado por guerras e invasões estrangeiras desde o começo deste século. Seu governo não funciona sem o aval do Irã e dos Estados Unidos. No final de 2019 a população iraquiana começou a protestar e enfrentar a repressão, exigindo o fim do atual governo e das interferências externas. As manifestações unificavam xiitas e sunitas, e todas as minorias étnicas do país. Para o sistema imperialista mundial, a aparição autônoma do povo iraquiano é mais perigosa do que a ameaça de guerra. O atual enfrentamento entre Irã e Estados Unidos tenta justamente acabar com essa unificação do povo iraquiano e redividir a população do país e da região entre os dois lados beligerantes.