“Vai pra Hungria!”


Texto de Frank Santos


A demissão de Roberto Alvim, então Secretário Especial da Cultura do governo Jair Bolsonaro, motivada por vídeo contendo diversas citações retiradas, total ou parcialmente, de discursos do Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista, Joseph Goebbels, está longe de representar uma inflexão no processo de alinhamento deste governo aos ideais de extrema-direita ou aos países que comungam, na atualidade, de tal ideário. 

O governo Bolsonaro mostrou-se arredio a encontros multilaterais e tímido para negociações bilaterais. Contudo, se o mandato do ex-capitão não obteve, até o momento, êxitos internacionais dignos de nota, é curioso observar a concepção de fortes laços com um país, em especial: a Hungria. Com população de, aproximadamente, 10 milhões de habitantes (menor que o estado do  Paraná ou do Rio Grande do Sul), e responsável por apenas 0,03% do total de exportações do Brasil, situando-se em 100º neste ranking (1), o país do leste europeu causa arrebatamento em Brasília.

Inúmeros foram os encontros entre membros dos governos brasileiro e húngaro, ao longo de 2019. Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, visitou os magiares em setembro de 2019 (2). Quem também efetuou visita oficial ao país foi Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores (3), bem como Fábio Mendes Marzano (4), secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania e, até mesmo, um dos filhos de Jair Bolsonaro,  o Deputado Federal Eduardo Bolsonaro (5). O próprio Roberto Alvim, ainda como secretário, encontrou-se, em novembro de 2019, com representantes dos governos da Hungria e da Polônia, outro país do leste europeu, igualmente governado pela extrema-direita, buscando “parcerias internacionais para o setor cultural” (6). A pauta comum, em todos os encontros, discorre acerca de políticas anti-imigração, contra o “globalismo”, pela “preservação de ideais cristãos” e “reforçar a cruzada contra o socialismo no mundo”, dentre outros.

Pelos números do comércio entre os dois países, fica claro que a natureza dessa relação pouco ou nada tem a ver com incremento da balança comercial. Uma pista é observar que os nomes escalados para representar o país nos encontros são, notadamente, de ministérios e secretarias mais sensíveis ao discurso ideológico do Presidente da República.

Parece inequívoco o esforço do governo Bolsonaro (e dessa “ala ideológica”, em particular) no sentido de aproximar-se de Budapeste e do seu Primeiro-Ministro, Viktor Orbán, como se fosse um exemplo a ser seguido. E a recíproca é verdadeira: Orbán entende que o Brasil é um importante aliado para defesa de projetos afins, como o auxílio a comunidades cristãs no Oriente Médio (7).

O Primeiro-Ministro húngaro pode ser considerado “patriota” ou “xenófobo”, a depender de quem seja perguntado sobre o assunto. Um exemplo de política pública implementada pelo premier é a intenção de iniciar um projeto para tratamento de fertilidade, de forma gratuita (8), direcionado a casais húngaros. Como boa parte do continente europeu, a Hungria sofre com a baixíssima taxa de natalidade. Porém, não há qualquer interesse em amenizar o problema com incentivo à imigração. Pelo contrário: a ideia é inibir a entrada de pessoas que não sejam “europeias”, a saber, oriundas da África e do Oriente Médio. 

Visitei a Hungria em setembro de 2019. Como turista, fiquei duas semanas na capital, Budapeste. De fato, é muito difícil encontrar pessoas que não sejam brancos e de olhos claros. A considerar os olhares e a forma como fui tratado, parece ser bem complexa a vida de um imigrante que não seja caucasiano. Mas foi outro fato que chamou a minha atenção: o posicionamento “oficial” do país em relação ao nazismo. 

Meu primeiro contato com o assunto foi através de um museu, denominado “Casa do Terror”. O local, em tese, seria dedicado às “vítimas do Nazismo e do Comunismo”. Uma pessoa que não conhece a história húngara, poderia imaginar o museu disponibilizando, tanto para o período de ocupação alemã, quando para o período de influência soviética, um espaço considerável. Contudo, o que se vê em 98% do recinto diz respeito ao período do “socialismo real”. É possível que muitas pessoas sequer tenham visto qualquer informação a respeito do Nazismo. Apesar de ter conhecimento do fortíssimo anticomunismo vivo na sociedade húngara, aquilo acendeu um sinal amarelo.

Posteriormente, visitei o Museu Nacional da Hungria. Da mesma forma, o espaço dedicado ao período nazista era diminuto, quando comparado às várias salas dedicadas ao “Socialismo Real”. O enfoque nos dois períodos históricos também é diferente: enquanto que o nazismo recebe críticas protocolares, o período comunista é apaixonadamente repelido.

O terceiro contato com esta questão não é tão ostensivo para um turista. Porém, revelar-se-ia o mais sintomático: um monumento para recordar a ocupação nazista na Hungria. Inaugurado na “Praça da Liberdade”, em 2014, pelo Primeiro-Ministro Viktor Orbán, o monumento em questão estava cercado por um manifesto, traduzido em diversas línguas, rechaçando-o. Segundo o texto, aquele monumento teria, por objetivo, ajudar a reescrever a história da Hungria, colocando-a como passiva na 2ª Guerra Mundial. A tentativa do governo Orbán, com esse monumento, seria o de mostrar que a Hungria era apenas “vítima” da Alemanha Nazista.

É necessário fazer um parêntese, de modo a entender por qual motivo este assunto é tão importante. Ainda no século XIX, durante o Império Austro-Húngaro, a nobreza húngara construiu laços militares com a Alemanha e a Itália, sintetizada na “Tríplice Aliança”. Este consórcio lutou — e foi derrotado — na 1ª Guerra Mundial. No período entreguerras (1918-1939), o Almirante Miklós Horthy, que governaria a Hungria por 24 anos (1920-1944), colocou em prática leis antissemitas, aliando-se a Adolf Hitler na perseguição, deportação e confinamento em campos de concentração, de judeus, socialistas, comunistas, bem como diversas minorias religiosas, étnicas e de gênero. Horthy, que definia seu governo como “cristão e nacional” e considerava os judeus como “parasitas”, tem seu legado defendido pela extrema-direita e vê sua popularidade crescer entre os jovens, sobretudo através da internet (9). Parece familiar?

A Hungria participou dos esforços de guerra que levaram à invasão da União Soviética. Participou ativamente, também, do Genocídio na 2ª Guerra Mundial. O país beneficiou-se da aliança com a Alemanha nazista, de Hitler, e a Itália fascista, de Benito Mussolini, para expandir suas fronteiras. Era cúmplice, em suma. Saí de lá assustado com o que vi: em marcha, um grandioso projeto visando reescrever a história recente do país, eliminando qualquer traço de cumplicidade com o Nazismo e o Fascismo. Esquecer essa parte da história parece ser um dos principais objetivos do governo Orbán. Pelo que foi possível perceber, com apoio relevante no seio da sociedade magiar, para que tal deturpação da história aconteça. Era como ver o Brasil de Jair Bolsonaro no espelho. 

Olhando por esse prisma, independente de quaisquer modificações superficiais, o projeto de ressignificação da “cultura brasileira” e de releitura da história do Brasil, em bases ultraconservadoras, não só persiste como sequer foi abalado. A defesa da ditadura civil-militar (1964-1985) e das atrocidades cometidas, simbolizadas pela exaltação das mortes e dos casos de tortura ligados ao nome do chefe do DOI-CODI, Carlos Alberto Brilhante Ustra, talvez seja o caso mais conhecido, mas não o único.

A persistência da crise econômica, contudo, pode ser (no longo prazo) um obstáculo importante para o êxito do projeto bolsonarista. Na Hungria, observa-se preconceito e crescimento econômico em processo de “retroalimentação”: o mesmo país que ostenta o maior percentual de elevação no Produto Interno Bruto (PIB) da União Europeia (10), detém um dos maiores índices de xenofobia da Europa (11), a ponto de Orbán utilizar deste medo para conseguir frutos eleitorais (12). 

Até o momento, é possível observar que o projeto de país almejado por Bolsonaro, das minorias que devem se curvar ou desaparecer, dos quilombolas que são ridicularizados e da xenofobia aos imigrantes e refugiados (logo ele, descendente de italianos), sofre derrotas pontuais. Porém, é pouco frente o apoio ou a indiferença da maior parte da população brasileira, mesmo num cenário de crise econômica persistente. A melhora dos índices econômicos poderá ser o legitimador deste discurso excludente.


  1. http://www.mdic.gov.br/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/comex-vis/frame-pais?pais=hun
  2. https://www.mdh.gov.br/todas-as-noticias/2019/setembro/na-hungria-ministra-damares-ressalta-que-o-brasil-e-um-pais-pro-familia/na-hungria-ministra-damares-ressalta-que-o-brasil-e-um-pais-pro-familia.png/view
  3. https://exame.abril.com.br/brasil/em-viagem-a-europa-araujo-reforca-relacoes-com-a-extrema-direita/
  4. https://oglobo.globo.com/mundo/religiao-faz-parte-do-processo-de-reformulacao-das-politicas-publicas-no-brasil-afirma-diplomata-na-hungria-24107083
  5. https://pt.euronews.com/2019/04/21/eduardo-bolsonaro-vim-lutar-contra-o-socialismo
  6. http://cultura.gov.br/secretario-especial-da-cultura-busca-parcerias-internacionais-para-o-setor/
  7. https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2019/11/27/extrema-direita-hungara-quer-brasil-financiando-cristaos-no-oriente-medio.htm
  8. https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51068970
  9. https://www.publico.pt/2012/06/25/mundo/noticia/herois-antisemitas-e-nazis-a-historia-que-os-hungaros-nao-conseguem-ler-1551959
  10.  https://sol.sapo.pt/artigo/674251/hungria-um-pais-a-crescer
  11. https://pt.euronews.com/2016/07/21/hungria-e-um-dos-paises-europeus-mais-xenofobos
  12.  http://www.rfi.fr/br/europa/20190521-campanha-base-de-propaganda-anti-imigracao-e-fake-news-isola-os-hungaros-da-realidad