A Guerra Fria no futuro do pretérito

O futuro acabou. Vivemos hoje um tempo presente permanente no qual, quando se tenta escapar do horror ou do tédio, cultua-se o passado. Um dos subprodutos mais bizarros do culto do passado é uma espécie de revival da Guerra Fria. Mocinhos e bandidos perfilam-se para o combate nas redes sociais e exigem que você escolha um lado. Não é apenas o lado reacionário e anti-comunista que apela para uma linguagem, conceitos e paixões de 50 (ou 500) anos atrás, em aberrações como o olavismo cultural. O lado comunista, como não poderia deixar de ser, também volta ao passado e recicla o stalinismo. É essa nova doença contemporânea que queremos diagnosticar, mas antes, para isso, faremos um certo percurso pela paisagem psicológica e cultural do nosso tempo presente.

Raiz x Nutella

Dizíamos então que vivemos num presente em que está ausente a janela para o futuro. Ao invés de procurar no futuro uma saída para os problemas do presente, busca-se consolo e conforto num passado idealizado em que supostamente não havia tais problemas. “Naquele tempo é que era bom…”, diz o mantra da nostalgia que se generalizou como resposta difusa e quase universal diante do tempo presente que se rejeita. Mas qual é mesmo exatamente o tal tempo antigo que era bom?

Para responder isso existem muitas alternativas, ao gosto do freguês. Você pode cultuar a música da década de 1970, a moda da década de 1960, o cinema dos anos 1990, as lanchonetes dos anos 1950, o futebol dos anos 1980, carros dos anos 1940, móveis dos anos 1920, arquitetura dos anos 1930, etc., e assim sucessivamente. Inclusive, tendências contraditórias em matéria de estética, comportamento, moralidade, sexualidade, política, crenças religiosas, etc., podem conviver numa mixórdia eclética na vida de um mesmo indivíduo ou grupo social, sem que isso comprometa o giro interminável das engrenagens do sistema.

Todas as tendências foram dessubstancializadas e colocadas na prateleira. É possível ser progressista na moda e reacionário em sexo, ou vice versa, e a mesma coisa em relação à música, futebol, ecologia, etc. Tanto faz, porque nenhuma escolha específica relativa a um determinado campo tem qualquer conexão conceitual ou congruência ética com as escolhas relativas a outro campo, e menos ainda, com alguma narrativa totalizante, projeto de vida ou concepção de humanidade. Todas essas escolhas são apenas “estilos de vida” no sentido mais superficial, de um mero traje ou máscara que se adota e descarta sem maiores consequências. São simples preferências, devidamente segmentadas, compartimentadas e intercambiáveis. Nenhuma escolha tem valor intrínseco ou precedência hierárquica, o que importa é apenas pertencer a alguma tribo e seguir as novidades.

Mesmo que as novidades estejam no passado, e aqui voltamos ao eixo principal desta reflexão. Temos nesse ponto a combinação de dois fenômenos: primeiro, praticamente toda a produção cultural da humanidade acumulada em milênios (livros, pinturas, músicas, filmes, etc.) está de alguma forma disponível hoje para acesso em suporte digital; e segundo, a produção contemporânea deixou de inovar, impactar e refletir com qualidade a vida social. Por isso as produções do passado são preferíveis às do presente.

Tudo que é do passado tem um charme adicional, é “vintage”, é “retrô”, é “raiz”, e não “nutella” ou “gourmetizado”. Se bem que, no caso desse último adjetivo, as pessoas que viveram essas épocas passadas na verdade diriam que tudo que se vende hoje é uma versão gourmetizada de como aquelas épocas realmente foram.

É interessante refletir sobre o significado dessa busca de um passado idealizado para tentar identificar exatamente em que consiste esse ingrediente misterioso que não se encontra mais entre nós no presente. Quando se busca aquilo que é mais “raiz” em contraposição ao que hoje existe como “nutella”, a qualidade que se está buscando e que escapa pelos dedos é a autenticidade. O passado era autêntico, era feito a mão, era “de madeira”, era singular, original e analógico. No presente as coisas são simuladas, são feitas de plástico, são descartáveis, multiplicadas em série, copiadas e digitalizadas.

Todo mundo sente que vive num mundo simulado e de plástico. A distopia do filme “Matrix”, de 1999, virou uma profecia que se concretiza a cada vez que alguém navega na sua bolha das redes sociais, sendo suprido de tudo que precisa para não encarar o deserto do real.

Um museu de grandes novidades

O mal estar da existência em uma simulação e a desaparição do futuro têm uma origem concreta, que é a vida no capitalismo mundializado-tardio-decadente-austericida-autoritário do século XXI. O futuro acabou não porque o tempo teria deixado de transcorrer, afinal os dias, meses e anos continuam se sucedendo, as folhas no calendário vão sendo viradas, os anos continuam sendo empilhados, na sua rotina cada vez mais repetitiva e monótona, e de repente, num piscar de olhos, já estamos em 2020. Mas nada parece estar realmente acontecendo, nada está mudando, pois cada ano que chega é só uma versão requentada da temporada anterior. O futuro não existe mais porque os anos se sucedem como um mero acúmulo quantitativo de datas, de tempo vazio e homogêneo, como diria Walter Benjamim.

O futuro que acabou é o tempo que se vislumbrava adiante como dimensão qualitativamente distinta, como promessa utópica de mudanças radicais no modo de vida. O futuro como uma promessa excitante de novas descobertas, novos conhecimentos, novas relações humanas, descarrilou como mero acúmulo quantitativo de simulações plastificadas. É nisso que desaguou a ideologia burguesa do progresso, pois ela não continha em si nada além de aumento da produção e morte da imaginação.

A verdadeira emancipação humana teria que estar para além das relações sociais burguesas, do capitalismo e sua obsessão por aumento quantitativo, por mais valor, mais dinheiro, mais mercadoria, mais PIB, mais produção, mais performance, mais curtidas, obsessão que permeia todas as esferas da vida. O aumento quantitativo da produção já perdeu o sentido há muito tempo e passou por cima de quaisquer outras aspirações humanas como uma locomotiva desgovernada, reduzindo tudo a medidas abstratas de valor, dinheiro que gera mais dinheiro.

Baile da saudade

O capitalismo já existe há séculos, e junto com ele existe também um certo discurso muito semelhante a tudo que foi escrito acima, mas essencialmente diferente, lamentando a degeneração do tempo presente e louvando um passado que supostamente era melhor. Praticamente todas as gerações fizeram isso ao envelhecer: rejeitar o presente e dizer que “no meu tempo era melhor”. Bem como apontaram o dedo acusador para a tecnologia, ou para a ganância, a “natureza humana”, os costumes, a família, a educação, a mídia, etc., na tentativa de explicar porquê o presente desandou.

Todos esses discursos falham em entender que a origem da sensação de estranhamento com o mundo está na relação alienada com o trabalho, fundamento da vida social. O trabalho alienado existe para produzir e reproduzir prioritariamente o capital, secundarizando os valores de uso que atenderiam necessidades humanas. A secundarização do humano na sua reprodução material resulta em desumanização de cada esfera de atividade.

Por isso cada campo da ação humana parece carente de sentido: arte, esporte, sexo, religião, ciência, todos são meros disfarces para relações mercantis, para alguma forma de compra e venda. No fundo todos sentem essa decepção com aquilo que fazem, porque se trata de simples fachada e pretexto para a reprodução do capital, e se frustram com a ausência de experiências humanas autênticas. E é tão tentador quanto enganoso imaginar que esse tipo de experiência existia no passado.

A revolução não será curtida

Para não cair nesses discursos simplistas de idealização do passado e rejeição do presente, que muitas vezes servem apenas para atrapalhar a luta contra o capitalismo (lamentar um estado de coisas lastimável, mesmo que com rompantes que parecem “críticos” e “profundos”, pode ser muitas vezes apenas uma forma de se conformar com a permanência e suposta inevitabilidade desse estado de coisas), é preciso entender o que há de específico na atual quadra histórica. É preciso se perguntar o quê parece ter cancelado a aspiração de um futuro qualitativamente diferente do presente e instalado uma crença quase universal na perenidade e inevitabilidade das atuais relações sociais subsumidas ao capital (dinheiro, Estado, família, patriarcado, religião, individualismo, etc.). E o que há de mais específico na época atual é exatamente a ausência de um desafio aberto, direto e concreto ao capital.

A perspectiva da emancipação humana foi derrotada nas trágicas lutas do século XX, a revolução socialista praticamente desapareceu do horizonte e o vago mal estar das novas gerações com o presente eternizado é o gosto amargo que sobra na ressaca dessas derrotas. O futuro existia como projeto de um mundo para além do capital, mas como esse projeto quase não se enxerga mais em nenhum horizonte, as novas gerações têm apenas um vago pressentimento de que há algo de muito errado com o mundo.

Como não sabem dizer exatamente o que está errado, se refugiam numa atitude blasé, descompromissada, desinteressada, indiferente e auto depreciativa. Paixão, engajamento, compromisso, responsabilidade, adesão a um projeto de vida e concepção ética ou estética, tudo isso está fora de moda. Mas ao mesmo tempo, é exatamente disso que se sente falta sem saber, de algum tipo de referência ou conjunto de princípios, como trataremos mais adiante.

Carregamos nas tintas desse quadro, e é preciso carregar ainda mais, assinalando que a revolução socialista ainda existe como possibilidade objetiva, mas não tal como é imaginada nos delírios dos que são os únicos que ainda falam sobre ela, os integrantes de micro seitas militantes desprovidas de qualquer influência social real e qualquer capacidade de interferir nos rumos da sociedade. O fato de não terem influência social não é um necessariamente uma falha, mas no caso em questão isso se relaciona também com uma recusa das organizações militantes a qualquer reflexão teórica que exija reorientação política e estratégica. A sua “teoria” é um mero adorno para um modus operandi já cristalizado e impossível de ser modificado.

Confrontadas com sua insignificância, essas seitas cuja razão de ser é um culto senil do bolchevismo (com suas infinitas ramificações e respectivas querelas bizantinas) sobrevivem mediante a reafirmação de discursos e práticas auto referenciados, auto centrados, fechados em si mesmos, incapazes de se expandir e dialogar fora de suas fronteiras organizativas e ideológicas, destinados apenas a reconfortar as consciências dos seus membros com a certeza de que suas almas estão salvas.

Enquanto as organizações militantes que ainda falam em revolução encenam para si mesmas melancolicamente a sua devoção ao bolchevismo, todo o restante do campo mais amplo daquilo que se chama “esquerda” ou “progressismo” também não projeta mais nenhum futuro, e se limita a prometer uma administração mais benigna do capitalismo (e não é à toa que está sendo também globalmente rejeitada, mas isso é tema de outro debate).

Apertem os cintos, o futuro sumiu

Não é apenas o campo que se identifica genericamente como esquerda, mais amplo do que o universo das seitas bolcheviques, que deixou de imaginar um futuro distinto (e se limita a buscar uma gestão melhor do sistema). O próprio capitalismo já não se dá mais ao trabalho de oferecer um futuro, porque não há mais um concorrente contra o qual disputar. 50 anos atrás os capitalistas estavam engajados na corrida espacial, tentando ganhar corações e mentes com a fantasia da colonização do espaço, em competição com o bloco soviético. A epopeia da conquista da Lua foi a base para os anos dourados da ficção científica, em suas várias ramificações nos quadrinhos, na literatura e no cinema.

Parecia que, apesar de todos os problemas e defasagens herdados do passado, a humanidade conseguiria um futuro melhor graças aos saltos na ciência e na tecnologia. Os graves problemas sociais seriam finalmente corrigidos, preferencialmente de maneira indolor (sem as guerras e revoluções de outras épocas), conforme o progresso do conhecimento se generalizasse e o bom senso prevalecesse sobre os preconceitos e a ignorância. Foi com base nessa promessa esperançosa que se formaram várias gerações no último terço do século XX.

Hoje existem alguns bilhões de smartphones no planeta, e cada um deles, como aquele em que alguém está eventualmente lendo este texto, tem uma capacidade de cálculo idêntica a dos computadores que a Nasa usou nas missões Apollo. Um celular poderia calcular sua viagem para a Lua, mas ao invés disso ele está compartilhando memes e selfies.

Essa comparação absolutamente deprimente entre o que o mundo poderia ser e o que ele efetivamente é deveria dar uma noção do quanto a vigência das relações capitalistas atrapalha o desenvolvimento das forças produtivas da humanidade. A redução das expectativas se expressa justamente na morte da ficção científica, que desapareceu como gênero capaz de expressar as esperanças e angústias em relação ao futuro. Não há mais grandes obras desse gênero embalando a nossa imaginação rumo a futuros possíveis, e o futuro imaginado nas obras clássicas do passado já chegou, pelo menos de acordo com o calendário, mas a vida concreta é bem diferente do glamour da conquista do espaço.

A cruzada contra a razão

Não é apenas tédio, non sense e niilismo que o capitalismo produz, ele tem principalmente uma série de consequências concretas bem nefastas, como as guerras, a criminalidade, a violência em múltiplas formas, a miséria, fome, doenças, degradação ambiental, etc, nas quais rastejam a grande maioria dos seres humanos. Se o futuro não promete mais nenhuma melhoria, apenas mais catástrofes (a mudança climática anuncia um cataclismo que já está batendo na nossa porta), nada mais natural do que buscar socorro no passado. Não é fácil viver em um mundo sem futuro, por isso algum futuro tem que ser inventado, nem que seja uma tentativa de repetir outras épocas. Afinal, como adiantamos acima, as novas gerações sentem falta de princípios firmes, mas não encontram nenhum ao qual aderir, a menos que se joguem de vez no abismo das seitas, opção adotada por uma parcela que parece crescente.

O fundamentalismo religioso, cristão, muçulmano ou hindu, conforme o país ou continente, é a resposta que os oportunistas do fim do mundo vendem para lucrar e conseguir poder em uma sociedade em decomposição. Se o futuro mostra apenas incertezas, pessimismo, tragédias, o fundamentalismo oferece certezas confortáveis e profetas infalíveis. A primeira coisa a fazer para conseguir essas certezas fáceis é substituir a razão pela fé.

Não é por acaso que o terraplanismo se tornou um dos símbolos dessa rejeição reacionária da razão. A crença na terra plana rejeita não apenas uma série de afirmações particulares da astronomia, mas todo o edifício da ciência, erguido nos últimos 500 anos. É o método científico em si que está sob ataque, a procura do conhecimento baseado na busca da objetividade, na experiência, na verificação sistemática de hipóteses, na interlocução entre os pares, no avanço acumulativo das explicações, nos procedimentos metodológicos que permitem estabelecer um grau sempre maior de previsibilidade sobre o comportamento da natureza. É isso tudo que está sendo rejeitado quando se diz que a terra é plana.

Desfeito o alicerce metodológico da ciência, se pode afirmar qualquer coisa e negar qualquer coisa: a teoria atômica, a tabela periódica, a evolução das espécies, a genética, a relatividade, a mecânica quântica, etc. Se não é mais possível debater racionalmente e verificar experimentalmente a verdade das coisas, a única fonte segura de verdade é a palavra dos sábios, profetas, gurus, pastores, aiatolás e toda uma gama de impostores.

A santa aliança entre políticos reacionários e religiosos fanáticos busca reduzir o alcance que o iluminismo e o humanismo tinham atingido, para assegurar o controle sobre seus fiéis por meio de uma visão de mundo teocêntrica, hierárquica e acima de tudo maniqueísta. A guerra santa é o seu modo de operação: nós contra eles, os bons contra os maus, os virtuosos contra os pecadores. Separar as pessoas em torcidas de futebol fanáticas, que acreditam que são donas de todas as virtudes e depositam todos os males no inimigo, esse é o procedimento básico do operativo da guerra santa. Ao invés da luta de classes contra a minúscula elite dos gestores privados e estatais do capital, seu sistema alienante e seus servidores e aduladores, temos a guerra de todos contra todos, separados em nações, raças e credos religiosos, ou unificados num mesmo individualismo feroz.

Todo poder aos memes

Combater essa unidade espúria entre religião, política e irracionalismo, em plena tormenta do capitalismo senil, requer uma disposição imensa, porque não são mais possíveis as respostas parciais. De onde quer que se parta, as lutas contra cada um dos problemas particulares, quer seja a degradação ambiental, a opressão sobre as mulheres, a violência, a miséria, etc.; precisam estar conectadas com a busca de uma solução geral, que não pode ser outra senão a abolição do capital, e nada menos que isso.

O que não quer dizer que os diversos movimentos de luta têm que estar organizativamente subordinados a uma instância superior que seria a mítica encarnação da consciência totalizante, o partido revolucionário, na linguagem das seitas bolcheviques. Quer dizer apenas que precisam estar armados de uma compreensão da conexão dos problemas que combatem com a deriva geral do capitalismo, e encontrar formas de lutar em conjunto, em alguma instância não hierárquica de colaboração e elaboração.

Como dizíamos, construir essa compreensão é uma tarefa gigantesca, hercúlea. E para não ter que se desincumbir de uma tarefa tão penosa, é mais fácil buscar atalhos. Nesse momento surge como uma muleta conveniente o resgate do stalinismo. Afinal de contas, no confronto armado mais importante do século XX, a II Guerra Mundial, foi o Exército Vermelho que derrotou os nazistas. Logo, na falta de um instrumento de luta para se opor ao reacionarismo contemporâneo, sempre se pode opor um instrumento fictício, um espantalho conjurado do passado, o guia genial dos povos, ninguém menos que o camarada Stálin.

Pouco importa que a URSS tenha vencido a II Guerra Mundial apesar da desastrosa liderança stalinista, e não graças a ela, pois a verdade histórica é mero detalhe. É fartamente reconhecido e documentado que Stalin mandou prender e executar milhares de oficiais militares, deixando as forças armadas soviéticas completamente despreparadas para a arrasadora invasão alemã e para uma guerra que custou ao país mais de 20 milhões de vidas. E para além da guerra em si, é de resto estarrecedor o modo como os stalinistas relativizam as perdas de vidas humanas contadas na casa de muitos milhões, seja em guerras, fome, doenças, privações, campos de trabalho forçado ou de extermínio e perseguição política pura e simples (muito bem discutido neste texto).

Se os reacionários radicalizam e apelam para o terraplanismo, os seus opositores apressados no presente respondem na mesma moeda e elaboram assim o seu próprio terraplanismo comunista, a reabilitação do stalinismo. Não há tempo para se perder em discussões sérias sobre porque a URSS não existe mais, porque suas próprias contradições internas levaram à restauração capitalista, porque a centralização burocrática fracassou, etc. Isso tudo dá muito trabalho, e é preciso responder depressa aos memes reacionários ameaçando o time adversário com as figuras de de Lyudmila Pavlichenko ou do “General Inverno”. O seu time foi campeão de tal coisa, mas o meu ganhou essa outra, e assim as torcidas seguem se digladiando infinitamente.

A impotência do presente é compensada com a evocação de um colosso do passado, sem atentar para o fato de que ele tinha pés de barro, tanto assim que desmoronou e já não existe mais. Os adeptos da reabilitação do stalinismo não tem mesmo muito tempo para refletir e não estão preocupados com coisas comezinhas como o colapso da URSS e a inviabilidade do sistema que lá existia, porque têm urgência em ganhar a discussão (ou “lacrar”, como faz uma outra tribo sobre a qual não poderemos nos estender aqui).

Enriquecer é bom

A inexistência da URSS não faz qualquer falta, mesmo porque aí está Vladimir Putin, devidamente egresso da odiosa KGB e transformado em autocrata da nova Rússia (agora totalmente capitalista e não mais pela metade, mas que diferença isso faz?), para suprir a carência de uma figura paterna forte e autoritária da qual necessitam os nostálgicos da Guerra Fria. Ou também podem torcer para um outro colosso do presente, o “socialismo com características chinesas” (ou norte-coreanas, cubanas, etc.).

Pouco importa que esse “socialismo com características chinesas” seja na verdade a mais cruel exploração capitalista, por meio da parceria de uma ditadura feroz dos burocratas do Partido Comunista Chinês com as sanguinárias transnacionais capitalistas e seus cínicos porta vozes na imprensa e no Estado, recorrendo aos métodos mais bárbaros de controle sobre os trabalhadores, desde a proibição de greves e organizações independentes, a perseguição aos ativistas, repressão policial brutal contra qualquer tipo de ação de massas, censura das comunicações e da produção artística e cultural e vigilância eletrônica até campos de concentração de minorias étnicas e religiosas para confinamento, trabalho escravo e extermínio. Para os terraplanistas, reacionários ou comunistas, a realidade e a ciência não significam nada, desde que consigam os likes, os seguidores, os compartilhamentos, os tuítes, a repercussão, o prestígio e a celebridade.

Somos assim brindados com pérolas como esta:

Aprendemos assim que controle operário é sinônimo de controle pelo partido. Se alguém se perguntar o que pensam sobre essa “auto-gestão” os milhões de operários que literalmente se matam de trabalhar nas masmorras da Foxconn e outras joint-ventures do capital transnacional e chinês, jamais saberá a resposta, afinal isso não tem a menor relevância. O que são alguns bilhões de trabalhadores? Que importância eles têm?

Deng Xiaoping, principal sucessor de Mao e artífice da nova China, diria que é muito cedo para saber, portanto daqui a uns 200 anos, talvez, se possa falar em socialismo como expropriação da burguesia, fim do Estado e controle operário da produção. Por enquanto é hora de permitir que a acumulação de capital prossiga desimpedida e os bilionários chineses acumulem suas fortunas. Os dirigentes do partido devem saber o que é melhor… (Caso se queira buscar mais informações sobre esse “socialismo com características chinesas”, uma síntese interessante pode ser encontrada aqui). Para um acompanhamento mais detalhado da exploração do trabalho no gigante asiático, a melhor fonte permanece sendo o China Labour Bulletin).

O estatismo, doença senil do comunismo

Para quem pensa segundo a lógica de que o que importa é a direção do Estado, não há o menor problema em confiar cegamente nos dirigentes. Pois há mais de 100 anos já tomamos conhecimento de que “todo poder aos soviets” na verdade significa todo poder ao partido. Ninguém se escandaliza com isso, é considerado absolutamente natural, um detalhe de somenos importância. Os terraplanistas do comunismo (e nisso os neostalinistas são acompanhados por aquela miríade de seitas bolcheviques em que se esfacelou o trotskismo) enxergam nesse detalhe uma simples amostra da genialidade de Lênin e Trotsky, com um sorriso malicioso de quem se congratula por uma malandragem bem aplicada. Os grandes dirigentes souberam usar os trabalhadores para tomar o poder e instalar uma ditadura sobre eles, em nome deles. Não é genial?

É monstruoso o modo como todos consideram normal que se passe do “todo poder aos soviets” para o “todo poder ao partido”, como se nada tivesse acontecido, como se isso não fosse um golpe, como se não fosse uma impostura grosseira, como se não fizesse toda a diferença, como se não fosse a raiz de todos os erros posteriores.

Escandalizar-se com monstruosidades como essa é um desvio herético de quem tem a preocupação de construir uma alternativa real ao capital. Quem se pensa apenas em obter um assento na gestão das empresas, na qualidade de representante do Estado e do partido, concretizando assim a “auto-gestão operária”; nunca deu a mínima para o problema da alienação, da exploração e da opressão. Quem trata o comunismo como uma simples palavra, pura ideologia, que você pode colar como uma etiqueta em qualquer tipo de sociedade, regime político ou partido, para que ele se torne assim automaticamente aceitável e desejável, de acordo com as exigências do debate geopolítico (conforme discutido aqui) não tem porque dar a menor atenção para as relações sociais concretas, materiais, que estão se desenvolvendo.

Freud não explica tudo, mas explica bastante coisa

A única preocupação dessa categoria de terraplanistas é encontrar um time para o qual torcer, uma crença à qual se declarar fiel, um pai a quem obedecer, para poder dormir com a consciência tranquila de que está “do lado certo da história”. O terraplanismo comunista é a muleta existencial de quem não consegue encarar as dificuldades e incertezas do capitalismo desprovido de futuro em que estamos metidos.

Muitos dirão que esse tipo de leitura está reduzindo a política à psicologia, mas na verdade o que estamos fazendo é apenas mostrar que a realidade social e política produz um determinado tipo de resposta psíquica e faz com que essas tendências psicológicas regressivas e infantilizantes se manifestem com mais intensidade e apareçam como alternativas fáceis, mas na verdade enganosas.

É preciso recusar a tentação dessas saídas fáceis e dos socialismos postiços que “derrotam o fascismo” e instalam a “auto-gestão operária”, em triunfantes posts de facebook, se queremos realmente ter algum tipo de futuro, alguma chance de construir formas de vida que de fato superem o capital, o Estado e a alienação em todas as suas formas.


A imagem inicial deste texto foi salva de uma busca aleatória na Internet. As demais foram copiadas das seguintes páginas do Facebook: The vault of retro sci-fi, The vault of atomic space age, The vault of vintage toys e The secret nerd base.