O que é militância?

Por Kátia Cajá e Rodrigo Silva

A gente chegou num ponto tão grande de despolitização na esquerda que votar no BBB e flooding no facebook de memes lacradores é considerado militância. O objetivo deste textinho é explicar o que é militância e dar exemplos do que não é: atividades inúteis, indiferentes ou até prejudiciais à ação política organizada.

Chamamos de ação política organizada a ação política feita dentro de uma “organização”, seja ela um partido, um sindicato, um movimento social, um coletivo etc. 

Em primeiro lugar, a sociedade em que a gente vive tem uma estrutura econômica e política, que se reproduz no nosso dia-a-dia, com a participação de todas as pessoas, inclusive das que são exploradas e dominadas. Por isso, qualquer atividade política para mudar essa estrutura tem que ser organizada, de longo prazo e deve procurar o apoio da grande maioria da população. Então, falar em militância organizada é uma redundância. Individualmente, não dá para fazer esse trabalho de convencimento na escala e com a duração necessária.

E qual é o objetivo de uma militância política de esquerda? Convencer a maioria da população de que uma outra sociedade, sem exploração, é possível. Essa população quase todo tempo é convencida ideologicamente de que a nossa forma de sociedade é a melhor ou única possível. A militância, então, é disputar a consciência do conjunto da população. 

É possível mudar a consciência das pessoas? É, ué. A consciência das pessoas muda de acordo com as mudanças na sociedade e pela influência de movimentos sociais. É óbvio, mas existe muito derrotismo hoje entre as pessoas de esquerda, quando não é um discurso vira-lata, com tons racistas, como se os brasileiros fossem o povo mais ignorante e filho da puta do mundo. 

Qualquer breve pesquisa pela expressão “o brasileiro”, em redes sociais como o Facebook e o Twitter, retornará instantaneamente milhares de resultados com brasileiros falando do próprio povo de forma depreciativa, e muitas vezes, se colocando acima e à parte desse mesmo povo. 

À parte brincadeiras de que precisamos ser estudados por conta da nossa criatividade, “o brasileiro” é caracterizado pelas esquerdas, todos os dias, como um povo conservador, despolitizado, que toma decisões burras e contrárias aos próprios interesses. A nossa classe média seria a única que se identifica com a burguesia, e os nossos pobres seriam os únicos pobres de direita do mundo. Justamente por isso, fica subentendido que é um povo que merece toda a desgraça que se abate sobre ele. 

Sendo isso verdade, a militância de esquerda não tem motivo para acontecer. Afinal, ela visa, necessariamente, melhorar a qualidade de vida da parte explorada da população. E, do ponto de vista marxista, o único protagonista possível da militância de esquerda é o próprio explorado. Ao fazer o duplo movimento de não se identificar como mais um dos explorados e responsabilizar os explorados pela própria exploração, o discursante sobre o povo brasileiro, que se pretende de esquerda, esgota de uma só vez toda a possibilidade de agir de forma militante. 

É importante que se diga que isso é uma herança trágica do racismo, mas não exploraremos esse aspecto mais profundamente neste texto para seguir na definição de militância.

Por causa da desproporção esmagadora entre as forças populares e as da classe dominante, a militância, ou seja, esse trabalho de convencimento da grande maioria da população de que uma vida sem exploração é possível, é um trabalho de longo prazo, na escala de décadas. A participação individual precisa se sustentar por anos até aparecerem os mínimos sinais de mudança (quando não tem um retrocesso). Por ser de longo prazo e coletivo, tem que ser organizado: em sindicatos, movimentos populares, partidos etc. 

O mais importante de tudo é que a militância é um trabalho que só tem uma possibilidade de provocar uma ação transformadora na sociedade se for impulsionado por uma organização. É pra apresentar uma nova visão de sociedade e propostas de luta às pessoas que ainda não conhecem e, ao mesmo tempo, tentar convencer elas a participarem das manifestações, campanhas, eleições, e a se integrarem aos movimentos e organizações. 

Nada desse trabalho garante a vitória no final. O próprio surgimento de novas gerações de militantes depende de fatores além do nosso alcance, como os rumos do capitalismo em escala mundial, as mudanças na cultura etc. Mas não existe possibilidade de mudar os rumos da sociedade sem luta organizada. É um custo que tem que ser pago, na medida da capacidade de cada um. 

Dito isso, vamos falar de algumas coisas que não são militância e o porquê não são.

1) Ativismo não é militância

É importante ir em manifestações, assembleias, se filiar em sindicatos etc. Mas essa ação política (ativismo) é pontual, não tem a constância necessária pra se sustentar a longo prazo. Para alguém aparecer esporadicamente em manifestações, é preciso que alguém as tenha organizado, divulgado, garantido a segurança dos envolvidos etc. Dizer isso não é desmerecer o ativismo, é apenas estabelecer uma diferenciação de termos que pode ser muito útil em várias análises. A militância organizada precisa de ativistas, que muitas vezes tem a consciência mais avançada que o conjunto da população e estão mais próximos que ela de se tornarem militantes. Dificilmente uma pessoa sairá do estado de despolitização diretamente para a militância e o ativismo pode ser, embora não necessariamente seja, uma etapa intermediária antes da militância. 

2) Ser burocrata não é militância

Uma pessoa, por exemplo, que tem um cargo num sindicato, mas que não usa esse cargo pra aumentar a participação da categoria, não está contribuindo pra mudar nada. Inclusive, pode se acomodar no cargo em nome de interesses pessoais e ter atitudes que vão até mesmo no sentido contrário do que é militar (os famosos sindicalistas pelegos). A burocratização das organizações de esquerda é um passo para sua degeneração e derrota.

3) Falar pra sua bolha não é militância

Grupos de estudo, interação no facebook (que é restringido pelo algoritmo e só alcança uma ou duas dúzias de amigos que provavelmente pensam igual), atividades públicas às quais só comparecem pessoas já engajadas em movimentos sociais, etc. A militância agrega pessoas. Os grupos de estudo agregam às pessoas que estão neles. Se eles não tiverem um intuito de melhor qualificar o militante para uma ação efetiva na realidade, e se comportam como fins em si mesmos, podem ser inclusive uma forma de “burocratização” da militância, ou seja: de esvaziar o sentido de fazer intervenção na realidade e servir apenas à curiosidade intelectual de cada um dos indivíduos que o compõe. 

4) “Chocar” a sociedade não é militância

Usar memes e intervenções pra “chocar” em vez de convencer não só é prejudicial a quem está se organizando com seriedade, como é um dos fatores que alimentaram a onda reacionária. O choque gera repulsa, nojo, rejeição, em uma palavra: afastamento. Ele tem um lugar e um papel na arte, mas definitivamente não é militância. 


Profissionalização

A estrutura de algumas organizações exige que contratem profissionais (jornalistas, assessores, educadores etc). Essas pessoas podem ser considerados militantes, se estiverem fazendo esse trabalho dentro de uma perspectiva política. Isso nem sempre é o caso, como também não é no caso de funções parecidas dentro de estruturas do Estado (defensorias, programas de educação, de economia social etc), porque não contribuem para a auto organização nem para a politização das pessoas envolvidas. 

Um funcionário público que faz um trabalho que efetivamente serve ao público só tem esse cargo porque militantes arrancaram da máquina estatal, e com luta, que o Estado colocasse seus recursos a serviço dos trabalhadores. O Estado pode retirar esse cargo, secretaria, ministério etc ou mudar a sua orientação e objetivos a qualquer momento se a militância organizada não mobilizar as pessoas para exigirem que o Estado avance ou, pelo menos, que não retroceda. 

No caso das ONGs, a profissionalização é mais problemática que em movimentos sociais. As ONGs não têm autonomia, são financiadas pelo Estado ou por empresas privadas, e por isso dependem deles, e não dos setores populares com que trabalham. Pode ser que elas sejam uma estrutura criada por movimentos (como as iniciativas de educação do MST) ou uma alternativa de profissionalização pra garantir o sustento de militantes (como acontece com muitas ONGs que atuam em favelas), mas as condições em que elas funcionam são uma fonte perigosa de burocratização e captura de militantes pelas empresas e governos

Nada disso foi dito para desmerecer o ativismo, os profissionais que demonstram solidariedade de classe no cotidiano, os grupos de estudo etc. Consideramos importante esclarecer os termos porque, embora as redes sociais tenham tido um papel importante de politização e articulação política da esquerda, elas têm prestado desserviço numa escala muito maior. Como toda ferramenta de comunicação, elas só fazem com que as vozes das pessoas ecoem mais. E  a maioria de quem as usa não é militante de esquerda consequente, com isso, visões deturpadas de conceitos como militância, entre outros, acabam sendo fortemente publicizados. 

Só a intervenção política na realidade concreta do mundo pode transformá-lo para melhor. Dada a imensidão da estrutura que visamos combater, o único caminho para essa intervenção ser efetiva é que ela seja coletiva e sustentada no tempo. Qualquer tentativa de dizer o contrário é um auto consolo fraco, que visa encobrir a sensação de impotência do sujeito perante a barbárie do mundo. E a prepotência jamais será motor para transformação social positiva: apenas a solidariedade dos que sofrem para com outros que também sofrem pode abrir caminhos para, juntos, mudarmos as nossas realidades e rumarmos para uma sociedade sem exploração.