Os ricos vão viver mais que todos nós

As tentativas dos bilionários da tecnologia de driblar a morte não vão democratizar a longevidade


Imagem de Adrien King


Você já deve ter lido a respeito de todos os bilionários da tecnologia que estão apoiando pesquisas ambiciosas em longevidade. Entre eles estão Larry Ellison, que investiu centenas de milhões de dólares em pesquisas ao combate do envelhecimento; Larry Page da Alphabet, que colocou um bilhão de dólares na Calico, uma companhia misteriosa de extensão de vida. E ainda tem o fundador do PayPal e chefão das trevas genérico, Peter Thiel, que está sugando o sangue dos pescoços de… Não, péra, não está muito claro o que Peter Thiel está fazendo. Mas ele já expressou interesse em parabiose, que envolve fazer transfusões de sangue de pessoas jovens.

O interesse da indústria da tecnologia na imortalidade não é de se surpreender: conquistar a morte seria o último Santo Graal em termos de disrupção — e uma nova e fabulosa oportunidade de mercado. Só que, neste caso, o interesse provavelmente não seria apenas intelectual e capitalista. Acessar a eternidade (ou algo próximo disso) seria o mais extremo ato de auto exaltação: a prova última da genialidade e superioridade de alguém.

É por isso que a maior parte da pena gasta na busca pela vida eterna tem compreensivelmente sido focada na ciência e nas personalidades por trás dela — e no super financiamento que tem vindo de pessoas que construíram suas fortunas fazendo software e que acreditam que envelhecer é um código que pode ser quebrado.

Mas muito pouco tem sido escrito a respeito das consequências que podem surgir se esses bilionários — vamos chamá-los de Centennials — realmente conseguirem aumentar o número de seus dias, e os de seus amigos ricos, aqueles do clube dos três dígitos.

Para contextualizar, as estimativas atuais colocam a expectativa de vida média para alguém nascido em 2050 entre o fim dos oitenta ou início dos noventa — uma boa melhora devido ao progresso incremental na pesquisa com foco em doenças específicas. Mas aqueles que focam projetos ambiciosos em busca de aumento da expectativa de vida dizem que podemos ir muito além, com alguns cientistas argumentando que há um limite total absoluto para o corpo humano e outros dizendo que não há razão para não conseguirmos chegar nos mil anos. (Eventualmente poderíamos apenas chamar os Centennial de Milenn… Não, péra, apaga isso.)

Já existe uma variação de 20 anos de diferença entre grupos socioeconômicos variados nos Estados Unidos, com uma idade média de 66 anos em algumas das comunidades mais pobres da América, comparado com a média de 87 anos em áreas mais ricas. É possível imaginar que até o fim do século o aumento da diferença na expectativa de vida possa ampliar conforme os caros avanços em biotecnologia, nanotecnologia, robótica e outros campos estejam disponíveis somente para os verdadeiramente ricos.

Sabemos há muito tempo que a expectativa de vida não está apenas na interseção de bons genes e vida saudável, mas que a riqueza e o ambiente também são fatores importantes. A diferença é que no futuro, até mais do que é no presente, uma longa expectativa de vida pode ser algo que alguém pode adquirir através da compra. E o que pode ser adquirido por uma pessoa em geral é cobiçado por muitos; e o que é cobiçado por muitos geralmente é uma grande oportunidade de mercado.

Uma oportunidade de mercado, na indústria da tecnologia, em geral é marcada como “democratizadora”. Da mesma forma que o Vale do Silício democratizou a publicação, a comunicação, a informação, e as formas de pagamento, agora esses Centennials da tecnologia estão se armando para ajudar a “democratizar a longevidade”.

Independente de como é chamado — longevidade, extensão da vida, “melhor idade” — é bem provável que o campo siga os passos blockchain, da realidade virtual e da inteligência artificial, cheio de avanços que inspiram admiração bem como reivindicações enganosas ocasionais. Mais do que hoje em dia, provavelmente veremos substâncias bioativas e suplementos “melhoradores da vida” em nossas comidas e bebidas, bem como aparatos e aplicativos que encorajam, lembram, ou até exigem certas modificações no estilo de vida para manter usuário em um caminho saudável. Em nome da derrota da morte, nossos corpos poderão ser medidos e monitorados e gamificados a cada momento a um limite muito mais desconcertante do que o primitivo Fitbit nos dizendo quantos passos demos durante o dia.

Pouco a pouco, viveremos mais — não exponencialmente, mas incrementalmente — beneficiários das bugigangas super propagandeadas frutos dos esforços dos Centennials. E pode apostar que a mesma indústria que quer nos ajudar a chegar à imortalidade terá uma porção de serviços suplementares para nos vender conforme vamos gentilmente nos aproximando da tumba. É o mais raso ato de futurismo imaginar a indústria da tecnologia nos trazendo remédios entregues por drones ou cadeiras de rodas aéreas/automatizadas, ou aparelhos ortodônticos que analisam mudanças na composição da saliva que nos alertam ou aos robôs dos nossos médicos de qualquer mudança preocupante em nosso bioma. Podemos esperar qualquer um desses serviços bem antes dos meados deste século.

É claro, com há muito tem sido reportado, que uma população envelhecendo colocará enormes tensões na infraestrutura da sociedade. Apenas pense nas implicações ao meio ambiente, transporte, cuidados médicos, e a quantidade de espaço reservado para as longas e lastimosas Cartas ao Editor no único jornal impresso restante. Mas muito menos atenção foi colocada na questão da desigualdade etária. Ainda que qualquer discussão a respeito do futuro acabe sendo especulativa, a desigualdade potencial quanto às datas da nossa morte merece mais atenção.

Primeiramente e acima de tudo, a desigualdade salarial tende a piorar. Isso porque a morte tem sido há muito tempo um grande distribuidor de renda. Com poucas mortes para dar início a gordos seguros de vida, os Centennials vão comprometer pilhas ainda maiores do dinheiro no mundo. Você acha que a distribuição de riqueza é desigual hoje? Pense no que vai acontecer quando os ricos morrerem mais devagar que o resto da população e não houver taxas de capital para impedi-los de acumular ainda mais.

O poder é um corolário da riqueza. Ele deriva da quantidade de capital que você controla e através dos relacionamentos que você constrói com outras pessoas ricas. Em um futuro de grande desigualdade salarial, é possível esperar que aconteça uma maior concentração de poder nas mesmas (velhas) mãos de sempre. Pode haver um boom de financiamento federal para construção de rampas de acesso para cadeirantes, mas um mar de líderes ricos de pele esquisita dificilmente serão representativos do todo da população ou dispostos a se alinhar aos seus interesses. O que pode acontecer quando um presidente americano de 130 anos determina o orçamento da educação de estudantes que não se aposentarão em no mínimo um século?

Isso pode soar como o prelúdio de uma revolta no estilo de Children of the Corn contra estes Centennials, mas o que é perverso a respeito da desigualdade etária — como na maior parte das desigualdades — é que nós as apoiamos da mesma forma que as criticamos, fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para melhorar nossa situação em nível pessoal da mesma forma que simultaneamente estamos tentando combater um princípio maior. Então é mais provável que nós iremos resmungar a respeito da desigualdade mas nada muito mais que isso será feito para resolvê-la, por que ainda iremos comprar todos os Kits de Colágeno da Kylie, e as pessoas que terão um poder para remediar a situação são justamente aquelas ameaçadas pela mudança.

De todos os milionários que nos governaram através do curso da história recente, são os bilionários da tecnologia em particular que professam nada mais do que boas intenções quando falam a respeito dos problemas que eles mesmos criaram. Alguém pode retratar os Centennials da tecnologia — há muito conhecidos por suas fortes missões e visões — fazendo grandes reivindicações a respeito do profundamente triste eles estão quanto a desigualdade etária. Eles podem prometer combatê-la e vão designar pesquisadores para explorarem as suas causas. Talvez eles até disponibilizem desodorantes de células-tronco ou a Neuralink de Elon Musk em cidades mais pobres.

De fato podemos muito bem ver que um período marcado por longa vida, saúde, e desigualdade de poder também será acompanhada de uma era de ouro na filantropia, permitindo que os Centennials da tecnologia posem como forças benevolentes do bem maior. Certamente muitas de suas benesses serão concentradas em aliviar as opressões que seu próprio negócio de aumento da vida e cuidados de saúde criaram. Asilos e centros de saúde mental podem se proliferar em número, com o nome do Centennial benfeitor gravado ao longo da entrada, servindo como um constante lembrete de sua generosidade.

Lembre-se de tudo isso em seus momentos finais, quando eles estiverem te levando na ambulância Airtube do Travis Kalanick e você viu sua cidade zunir ao fundo — agora conhecida como Zucker Berg —, e todas as faces enrugadas e brancas de homens te olhando benevolentemente. Lembre-se que foi você que comprou os suplementos e tratamentos; foi você quem devorou imagens das caras plastificadas e cheias de energia dos corpos de 120 anos dos Centennials, pulando em campos de golfe.

Foi você quem quis viver para sempre; os Centennials só estavam lá para tornar tudo possível. Qualquer coisa que aconteça além disso está fora da alçada deles, é um efeito colateral, digamos assim, da imortalidade.


Jessica Powell foi VP das comunicações do Google. Traduzido do original em inglês.