A negação do real por hiper realismo

escultura de Ron Mueck

1. Discussão prévia sobre fascismo

Os massacres de Auschwitz ainda possuem algum lirismo quando comparados às mãos geladas do condicionamento generalizado que a organização tecnocrática dos cibernéticos prepara para a sociedade, futura e tão próxima

Raoul Vaneigem

A Arte de Viver para as Novas Gerações

Não ajuda muito na defesa de uma determinada tese começar por premissas que não sejam amplamente aceitas, ou pior, que certamente vão ser fortemente contestadas. Entretanto, para a discussão em questão sobre a natureza do bolsonarismo e os rumos da luta de classes, não temos como começar por outro caminho. Para limpar o terreno da argumentação que vamos desenvolver nas partes 2 e 3 do texto, precisamos começar aqui na parte 1 explicando porquê consideramos errado classificar o bolsonarismo como fascista. Essa caracterização é um erro por motivos conceituais, ideológicos, políticos, históricos e sociais.

a) Do ponto de vista conceitual, o fascismo é uma força política típica do capitalismo em crise e em momento de agudização da luta de classes. Ele existiu em determinadas circunstâncias históricas, que remetiam à disjuntiva entre revolução socialista e contra-revolução burguesa. Era essa a polarização da situação mundial na primeira metade do século XX, e dentro dela o fascismo veio a constituir a forma mais acabada e radical da contra-revolução. O fascismo foi derrotado militarmente na II Guerra Mundial, mas as causas profundas da sua existência, o próprio capitalismo, não deixaram de existir. E enquanto o capitalismo existir, ele vai engendrar outras formas de contra-revolução.

As forças contra-revolucionárias do pós-guerra seguiram sendo chamadas de fascistas, quer reivindiquem explicitamente uma filiação fascista ou não, por um abuso conceitual que se consolidou. Mas essa acomodação do discurso anti-fascista acaba poupando o próprio capitalismo e alistando as forças anti-fascistas ao lado de outras forças políticas capitalistas. Combater o fascismo em si, de certa forma, é enxugar gelo, pois o foco tem que estar sempre na destruição do capital como relação social originária, com todas as suas formas políticas possíveis. Aliás, a revolução social é o único meio de derrotar o fascismo, mobilizando as forças dos trabalhadores para o ataque direto ao Estado capitalista e à propriedade privada. O exemplo histórico da guerra civil espanhola é eloquente a esse respeito: o fascismo venceu porque as burocracias dirigentes das organizações dos trabalhadores se submeteram ao governo republicano e paralisaram a revolução social que estava em curso, desarmaram as milícias operárias, detiveram as coletivizações de terras, etc. Diante da contra-revolução, o único antídoto definitivo é fazer avançar a revolução (uma análise mais extensa sobre isso pode ser encontrada aqui, e uma bem mais curta aqui).

b) Do ponto de vista ideológico, o uso do rótulo de fascismo para falar das formas contemporâneas da contra-revolução termina por desarmar a reflexão e empurrar para a armadilha de reproduzir a narrativa liberal sobre a história do século XX como uma grande luta contra o autoritarismo. Ao invés da polarização entre revolução socialista e contra-revolução burguesa, o que surge em seu lugar é a oposição entre “democracia” e totalitarismo. É essa narrativa que predomina na visão sobre o século XX, como uma luta entre as “democracias ocidentais” e o totalitarismo fascista. Por uma questão tática, as “democracias” se aliaram a um outro totalitarismo, o “comunista”, representado pela URSS, contra o qual, logo em seguida, estiveram engajadas em confronto por mais algumas décadas, no que foi chamado de Guerra Fria. Até que, por fim, o autoritarismo comunista foi finalmente suplantado pela superioridade das “democracias” capitalistas.

Essa narrativa é falsa do começo ao fim, pois quem sustentou o maior esforço na derrota do fascismo foi a URSS, e seus aliados “democráticos” tiveram um papel coadjuvante. Foi a URSS que suportou a maior destruição e as maiores perdas de vidas humanas, na casa de dezenas de milhões, e foi o Exército Vermelho quem ocupou Berlim e toda a Europa Oriental. Também é falso que as “democracias” ocidentais sejam menos terroristas que o totalitarismo fascista. A II Guerra Mundial, além do confronto entre o fascismo e a URSS, tinha uma outra dimensão paralela, que era a continuidade das disputas interimperialistas pela supremacia mundial, que já vinha desde a I Guerra, na qual atrocidades imensas foram cometidas por todas as partes beligerantes, antes mesmo que se falasse em fascismo.

O fascismo é ao mesmo tempo a consequência de uma guerra e a causa de uma outra, sendo que subjacente a tudo isso havia a disputa interimperialista. Os participantes dessa disputa, as grandes e pequenas potências, antes, durante e depois do fascismo, eram todos Estados terroristas. O terrorismo interno dos governos fascistas contra suas populações e contra os seus oponentes na guerra foi uma continuidade do tipo de terrorismo de Estado que as demais potências já aplicavam sobre o restante do mundo. Assim, é preciso lembrar que Inglaterra, França, Estados Unidos, Japão, potências imperialistas modernas, e outras menores, como Espanha, Portugal, Holanda, potências coloniais antigas, são responsáveis por atos de terror tão hediondos quanto o holocausto perpetrado pelos nazistas. Até a pequena Bélgica foi responsável por um holocausto particular no Congo.

Como denunciaram os movimentos anti-coloniais, a Ásia, a África e a América Latina foram devastados por genocídios, massacres, brutalidades e pilhagens em série por esses países “democráticos”, durante vários séculos. As vítimas dessas potências “democráticas” se contam na casa das centenas de milhões, seja assassinados ou abatidos por fome, doenças, etc, bem como torturados, encarcerados, escravizados, vítimas de estupros, etc. Colocar o fascismo como inimigo supremo da humanidade, embora seja em alguma medida justificável (um debate que ainda hoje produz vários ecos), não pode servir para limpar a barra dos crimes precedentes e até mais abundantes do colonialismo e do imperialismo que o antecederam e que com eles se misturam.

Ao mesmo tempo, também é falso que a URSS fosse comunista, pois se tratava de uma forma de transição interrompida, nascida de uma revolução socialista abortada. A permanência de conquistas sociais da revolução por algumas décadas depois de 1917 foi o que permitiu ao povo soviético ser capaz de reagir à invasão alemã e derrotar o fascismo. A URSS venceu apesar do stalinismo, e não graças a ele. Mas na ausência de um controle operário da economia e da política, essa forma de transição interrompida se tornou inviável. E mesmo tendo sido vitoriosa na guerra, e em seguida exportada para outros países, sob formas parcialmente alteradas conforme certas particularidades nacionais, terminou naufragando décadas depois. Sem uma explicação adequada da decomposição dessa forma de transição interrompida e de seu papel na II Guerra e em todo o século XX; cai-se prisioneiro da narrativa da disputa entre “totalitarismo x democracia”, uma armadilha que somente serve para tirar da pauta a revolução socialista.

c) Do ponto de vista político, quando se coloca a oposição ao fascismo como centro da atividade, cria-se inevitavelmente um alinhamento com as demais forças anti-fascistas, entre as quais, estão, evidentemente, outras forças políticas pró-capitalistas. A luta anti-fascista se transforma em luta por “democracia” em abstrato, e com isso se perde a diferenciação entre os projetos de sociedade próprios a cada classe. A disjuntiva histórica entre revolução socialista x capitalismo é substituída pela oposição superficial entre totalitarismo x “democracia”. Com essa substituição, só quem tem a ganhar é o capitalismo. É sempre um erro renunciar à independência política e ao projeto da revolução socialista, qualquer que seja a circunstância histórica.

Quando se fala em “democracia” em abstrato, sem explicitar que se trata da democracia burguesa, o tema da superação do capitalismo desaparece do horizonte. A democracia burguesa encobre a ditadura patronal nos locais de trabalho, e existe para perpetuar a ilusão de que o Estado pode ser usado contra o capital, o que é impossível. Enquanto as forças dos trabalhadores são desviadas para a infrutífera disputa do Estado, o poder do capital nos locais de trabalho é deixado intocado. Esse desvio se intensifica nos momentos de crise, quando a contra-revolução levanta suas armas e mostra seus aspectos mais terroristas. Os militantes anti-capitalistas são então alistados pelas forças burguesas no combate ao fascismo, renunciando à sua própria pauta histórica. O combate exaure as forças de ambos os pólos radicais, e com isso o centro “democrático” ressurge como alternativa sensata. E com isso, a lógica do capital segue se reproduzindo, até mergulhar em alguma nova crise no futuro, quando se levantam de novo as possibilidades da revolução e as forças da contra-revolução, e o ciclo se repete.

d) Até agora, os motivos que levantamos acima servem como argumentação para defender que não é estrategicamente conveniente chamar o movimento bolsonarista de fascista, mas não dizem ainda, cabalmente, porque ele não é fascista. Para isso temos que recorrer ao ponto de vista histórico, que desenvolveremos aqui, e ao social, que será objeto da alínea seguinte. Do ponto de vista histórico, o fascismo foi uma força política contra-revolucionária característica de novas potências retardatárias na corrida imperialista ou de ex-potências coloniais. A Alemanha nazista e a Itália de Mussolini estão no primeiro caso; a Espanha de Franco, o Portugal de Salazar estão no segundo, bem como a Hungria do almirante Horty (sócia da Áustria no Império Austro-Húngaro de 1867 a 1918).

Esses países vivenciavam, em diferentes medidas conforme cada caso particular, uma dupla pressão: a presença interna do movimento operário que ameaçava com a revolução socialista; e a concorrência externa dos imperialismos “democráticos” na disputa por colônias, que demandava um esforço político e militar para conquistar territórios coloniais ou mantê-los contra os rivais e contra tentativas de autodeterminação dos povos subjugados. O fascismo é uma resposta política a essa dupla pressão, que pretende resolvê-la forjando a unidade nacional para a guerra, recorrendo a mitos irracionais para mobilizar a população contra inimigos internos e externos, reais (competidores geopolíticos) ou fictícios. Trata-se de uma forma de contra-revolução que só pode se concluir por meio da guerra.

Em outros países imperialistas, como Inglaterra, França, Estados Unidos, etc., também houve movimentos de inspiração fascista na mesma época em que o fascismo chegou ao poder naqueles países típicos, mas tais movimentos permaneceram minoritários, não sobreviveram nas disputas políticas internas, porque não se mostraram alternativas convenientes à manutenção da supremacia do capital. O Japão, aliado dos fascistas na II Guerra, apresenta uma via intermediária entre esses dois casos, pois era uma sociedade marcada por séculos de ditadura militar dos senhores feudais, com a correspondente ideologia e mitologia reacionária muito bem enraizada. Depois da Revolução Meiji (1868), o setor alinhado com o desenvolvimento capitalista dentro dessa aristocracia militar, devidamente repaginada, converteu o país em potência imperialista moderna, sem precisar assumir feições abertamente fascistas.

e) Do ponto de vista social, o Brasil é incapaz de um movimento propriamente fascista. Não temos nenhum império colonial a conquistar ou defender, e não temos uma burguesia nacional interessada ou capaz de travar qualquer guerra com esses objetivos. O Brasil é um país de via colonial para o capitalismo, como o definiu José Chasin. É um país que nunca poderá completar o seu desenvolvimento capitalista: quando chegamos ao nível da 2ª Revolução Industrial, na época do “milagre brasileiro” da ditadura militar, os países imperialistas já estavam iniciando a 3ª Revolução. Nunca tivemos nem teremos aquilo que Marx chama de departamento II da economia capitalista, o setor de produção de bens de produção. Esse atraso é impossível de ser superado dentro do capitalismo, e a burguesia brasileira nunca se propôs a superá-lo, mas se colocou tão somente a tarefa de administrar uma sociedade permanentemente fraturada entre o moderno e o arcaico. O atraso brasileiro não é alguma espécie de “estágio” em direção a um suposto avanço, é uma condição permanente e estrutural.

Aqui a burguesia local nunca se colocou como concorrente das burguesias metropolitanas, mas sempre como capataz das massas de negros, índios, mestiços e brancos pobres. Ao invés de um possível conquistador de colônias, o Brasil é ele próprio uma ex-colônia, e é nos traços da sua formação social que se deve buscar a explicação para as nossas formas próprias de contra-revolução. O Brasil foi construído sobre o extermínio dos povos originários, a escravização dos negros, a exclusão sistemática de mestiços e brancos pobres de quase todas as vias de ascensão social, processos que só puderam se efetivar por meio de um exercício permanente de violência. A elite colonial aqui instalada sempre tratou o país como território de pilhagem e predação de onde se extrai riquezas rápidas por meio da violência e da fraude, e a burguesia hoje aqui existente é sua herdeira direta. Esse modo de tratar o país está entranhado no seu inconsciente e segue se reproduzindo plenamente.

O Estado brasileiro nasceu de uma estrutura formada para aplicar a violência sobre a população trabalhadora. Todas as revoltas populares, de Palmares a Canudos, foram afogadas em sangue, façanha que está no DNA das nossas forças armadas. No século XX, as forças policiais se estruturaram para atuar preventivamente e impedir novas revoltas de massa como aquelas. Para isso, sua prática é assassinar, torturar, prender, espancar, estuprar, assediar diariamente as populações pobres e periféricas. Na atividade cotidiana do Estado, das polícias, do direito, da imprensa, há uma divisão nitidamente identificável entre as parcelas da população que são tratadas como “matáveis” e as que devem ser respeitadas como seres humanos, com um evidente recorte social e racializado.

Sendo essa a particularidade da formação social brasileira, o que temos aqui não é exatamente fascismo, mas uma forma especificamente brasileira de terrorismo de Estado contra a população pobre e trabalhadora. Esse terrorismo de Estado à brasileira precede o fascismo em muitos séculos e assume sob formas próprias a tarefa da contra-revolução quando necessário, como aconteceu em 1964, que dificilmente se cogitaria classificar como fascista. Ainda que possa tomar emprestados elementos da dramaturgia fascista, de sua dinâmica de mobilização social, sua psicologia de massa, as personificações da contra-revolução brasileira estão impedidas de se expressar em meios propriamente fascistas pela localização subalterna e caudatária do país na divisão internacional do trabalho capitalista. O Brasil não tem como travar nenhuma guerra externa; logo, o único destino possível da contra-revolução bolsonarista é a guerra civil contra a própria população.

***

Assinalamos, ao encerrar esta parte, que assumir a posição de que o fascismo propriamente dito ficou para trás na história não significa negar que outras forças contra-revolucionárias extremamente destrutivas possam ser geradas, mas afirmar que elas adotarão formas novas, características do nosso tempo histórico. Elas necessariamente o farão, uma vez que o esforço permanente para prevenir ou reprimir a transformação revolucionária é uma necessidade intrínseca do capitalismo. Além de movimentos reacionários diversos, inspirados diretamente no fascismo histórico ou não, que permanecem normalmente nas margens da disputa, existem componentes originados no fascismo sendo reproduzidos no próprio coração do sistema.

Por isso mesmo, uma ressurreição do fascismo clássico é de certo modo supérflua: ele se transfigurou em instrumentos de gestão da luta de classes empregados rotineiramente pelas democracias capitalistas. O nacionalismo, a tecnocracia estatal altamente desenvolvida, o poder do complexo industrial-militar (imperturbável ao longo da guerra fria e depois durante a guerra às drogas, guerra ao terror, guerra ao vírus, etc.), a indústria cultural (com seu domínio incontestável sobre o imaginário social), as redes sociais (com seu condicionamento pavloviano e manipulação das respostas possíveis), o irracionalismo, o fundamentalismo religioso, o identitarismo, etc., são componentes de uma maquinaria de dominação e destruição mundialmente mais enraizada, abrangente e eficiente do que o fascismo chegou a ser.

2. Zapcoronelismo, alt right, duplipensar

escultura de Giovani Caramello

O Brazil não conhece o Brasil, o Brasil nunca foi ao Brazil (…) O Brazil não merece o Brasil, o Brazil tá matando o Brasil

Aldir Blanc e Marcelo Tapajós

Querelas do Brasil

Colocadas essas objeções ao uso da classificação de fascismo, a alternativa que buscaremos para explicar o bolsonarismo é a combinação de elementos da particularidade social brasileira com a atualidade histórica do capitalismo. Optamos por uma abordagem que privilegia a dialética da continuidade na descontinuidade e da continuidade na descontinuidade, na qual algo muda enquanto permanece o mesmo e permanece o mesmo enquanto muda. Nessa abordagem, o bolsonarismo representa ao mesmo tempo uma continuidade e uma ruptura com a tradição política brasileira. É o que procuraremos demonstrar ao longo desta seção. Mas antes de entrar nesse tema, é preciso tratar de uma outra objeção.

Mesmo diante de argumentos como os que são colocados acima, em conjunto ou separados, existe ainda uma resistência muito grande a retirar do bolsonarismo o rótulo de fascista, uma resistência que tem também um caráter psicológico, para além do desacordo teórico. Para essa resistência psicológica, dizer que não se trata de fascismo equivale a dizer que não é o que existe de mais maligno, logo, se pode “relaxar”, porque a situação não é assim tão grave. Retirar a denominação de fascista é psicologicamente interpretado como se fosse um estímulo a “baixar a guarda”. Ao contrário, o que estamos sustentando é que a classificação do bolsonarismo fora do fascismo não implica em dizer que ele não é extremamente nefasto e destrutivo, mas em buscar situá-lo dentro da tradição das formas políticas de gestão do conflito de classe típicas do Brasil. A sua localização nessa tradição é ao mesmo tempo típica e excepcional, por isso há uma grande dificuldade em conceituá-lo.

Diante dessa dificuldade, o nome de fascismo surge como uma espécie de muleta conceitual que parece conveniente, porque dispensa a reflexão sobre as questões teóricas citadas acima e aciona uma espécie de piloto automático do anti-fascismo (banalizado ao ponto de virar meme), que termina por se materializar no clichê do “não passarão”. Mas cabe sempre lembrar, no caso da revolução espanhola que citamos acima, de onde aliás surgiu o bordão do “não passarão”, no final das contas, que lá a contra-revolução passou. Essa muleta é prejudicial, porque o uso do conceito de fascismo, ainda que precedido de qualificações que o dissociem do fascismo histórico (protofascismo, pseudofascismo, neofascismo, fascistóide, fascistizante, fascismo à brasileira, etc.), além de incorrer nos inconvenientes estratégicos discutidos na primeira parte, perde de vista a discussão da especificidade da formação social brasileira e do momento histórico.

Quando falamos de especificidades da nossa formação social, não se trata também de reproduzir certo bordão de que “o povo brasileiro é assim mesmo”, “o povo é conformado”, “o povo não luta”, etc., como se houvesse aqui alguma espécie de essência em que uma elite autoritária e violenta sobrepuja uma massa conformada, mas de assinalar a prevalência de determinadas formas históricas da luta de classes. Bordões desse tipo, por sinal, refletem uma concepção reacionária, elitista, e a-histórica, que imagina algum tipo de “caráter nacional imutável”, e não é esse o caso. A questão é que o povo brasileiro, como todo povo, é dividido em classes, e suas classes trabalhadoras sempre lutaram e seguem lutando, mas seu Estado sempre atuou contra essas lutas sob determinadas formas particulares, que tendem a se repetir e se perpetuar, sob formas alteradas e adequadas a cada momento histórico. É dessas formas em repetição (e transmutação) ao longo da história que falamos aqui.

O Brasil é por excelência o território das conciliações políticas pelo alto e da exclusão violenta dos de baixo, em que todas as transições históricas importantes foram administradas pelas classes dominantes de forma a impedir a participação independente das classes trabalhadoras: independência, república, “revolução” de 1930, redemocratização; todas foram pactuadas entre as frações da classe dominante e seus representantes políticos, com as forças da classe trabalhadora atuando como apêndice de algum dos dois lados, sem expressão independente. Os movimentos da classe trabalhadora sempre foram marginalizados e tratados em separado como “caso de polícia”, na célebre frase de Washington Luís, último presidente da era do café com leite.

Uma consequência dessa trajetória de conciliações pelo alto é que as transições nunca se resolveram por meio do confronto armado. Ao contrário do restante da América, o Brasil não teve uma guerra de independência. Ao contrário de outro gigante latino-americano, o México, que teve a sua revolução em 1910, com ecos durante todo o século XX e até hoje no zapatismo, o Brasil nunca teve uma guerra civil atravessando o país de cima a baixo. O golpe de 1964 triunfou sem que houvesse qualquer resistência armada do governo derrubado ou de seus apoiadores. Mesmo na época em que havia movimentos armados em várias regiões contra o poder central do Estado, como no período regencial do Império (1831-1840), eles poucas vezes combatiam os fundamentos da ordem social escravista e do latifúndio, sempre permaneceram atomizados localmente, e não almejavam uma transformação social total, mas apenas graus maiores de autonomia provincial. As exceções dentro daquele período foram as revoltas dos malês na Bahia em 1835, dos balaios no Maranhão em 1838-1841 e dos cabanos no Pará em 1835-1840, todas também massacradas.

No contexto dessa história de conciliações pelo alto e massacres dos de baixo, o bolsonarismo aparece como a primeira força que parece disposta a ir até as últimas consequências, e, se for o caso, resolver o conflito por meio do confronto aberto, da guerra civil de fato, ou da revolução brasileira, como advoga o seu astrólogo de estimação. Disso emerge a dificuldade e a preguiça dos operadores políticos tradicionais em lidar com ele. O judiciário, o legislativo, os partidos tradicionais, a imprensa patronal tradicional, todos recuam estrategicamente diante das provocações sistemáticas emitidas pelo ocupante da presidência, buscando as fissuras ou contradições internas do bolsonarismo (elas existem, e discutiremos mais adiante), por meio das quais a conciliação possa se processar novamente (uma saída com Mourão deve estar sendo exaustivamente negociada nos bastidores, sem sucesso por enquanto). É a única coisa que sabem fazer. Para a oposição de esquerda (sic), deveria ser extremamente embaraçoso que o bolsonarismo seja a única força política da história do país que busca o confronto até as últimas consequências, mas trata-se de um setor que já perdeu qualquer pudor há muito tempo.

Ao mesmo tempo que o bolsonarismo representa uma novidade em termos da sua disposição para aprofundar o confronto, o seu projeto é uma atualização tecnicizada e midiatizada de formas arcaicas de autoritarismo que marcaram a formação social brasileira. Os métodos de gestão da força de trabalho por meio da violência, desde o escravismo direto da época colonial e imperial até a violência policial sistemática contra as populações periféricas que a sucedeu, estão sendo atualizados com uma nova roupagem ideológica, composta de diversos ingredientes. Vários desses ingredientes estão sendo estudados e debatidos com bastante frequência, tais como o militarismo (ver aqui, aqui, aqui e aqui) e o neopentecostalismo; outros são um pouco menos óbvios.

Se o Brasil nunca teve pretensões imperiais próprias (liderou uma guerra contra o Paraguai como exército terceirizado do imperialismo inglês), a função das suas forças armadas é o confronto com a sua própria população. Na falta de um inimigo externo, o inimigo interno “subversivo” se consagrou como o adversário por excelência a ser alvejado pela doutrina de segurança nacional. Além das forças armadas, as polícias estaduais foram adicionalmente estruturadas como forças também militares, para massacrar preventivamente os trabalhadores pobres (conforme já citado acima) e impedir a revolta contra a miséria, por meio do terror sistemático. As forças armadas têm no momento uma pretensão de reescrever a história da ditadura militar, mostrando que foram injustiçadas pela redemocratização. Agora que chegaram ao governo pelo voto, não querem perder a oportunidade de lá permanecer, mas ao mesmo tempo não são totalmente homogêneos com o bolsonarismo. Estão com um pé na canoa do governo, e outro fora, tentando de alguma maneira se dissociar da metralhadora giratória bolsonarista.

Os neopentecostais enquanto organização surfam na deserção dos sindicatos e movimentos populares que abdicaram da combatividade e da construção de laços de solidariedade entre a população trabalhadora mais pobre. Com isso, podem se construir facilmente explorando o conservadorismo popular tradicional para se constituir como poder econômico, midiático e político institucional. Esse conservadorismo revestido em linguagem cristã é uma espécie de nostalgia da época do regime militar, que se alimenta não apenas da suposição (obviamente falsa), de que naquela época não havia crime nem corrupção, mas da lembrança de que se tratava de uma sociedade em que cada um sabia o seu lugar: a mulher obedecia o marido, as crianças obedeciam os pais, os jovens obedeciam os mais velhos, as autoridades eram acatadas, a censura proibia “imoralidades”, não existia essa “pouca vergonha” de homossexualidade, etc. (este vídeo toca de passagem no tema). A massa da população conservadora evangélica não necessariamente concorda com a solução reacionária de impor sua moralidade por meio da força, como propõe o bolsonarismo (ou mesmo setores do próprio crime organizado se antecipando a ele), mas em vista do perigo satânico do petismo, do comunismo, etc., preferiu seguir a orientação dos seus guias espirituais.

Além desse conservadorismo popular evangélico das camadas mais pobres da população, existe também o conservadorismo ressentido das camadas médias, organizado em torno do lava-jatismo e turbinado durante anos pela imprensa tradicional. Esse setor rompeu recentemente com o governo, o que sinaliza a instabilidade na composição da sua base de apoio. Essa ruptura e outras dissonâncias internas sugerem que o bolsonarismo não tem a homogeneidade, a unidade, a verticalidade, a coesão discursiva típicas de um movimento fascista, algo que se poderia acrescentar aos argumentos da primeira parte para afastar essa denominação. Essa amarração instável de elementos reacionários diversos não tem também uma mitologia nacional ou racial minimamente críveis para usar como discurso unificador (o que não significa que não estejam tentando pateticamente forjar uma). O Brasil não tem um passado nacional glorioso a resgatar, uma vez que a única “glória” das nossas forças armadas é uma série de massacres contra os trabalhadores pobres em revolta.

Essa junção instável de ingredientes reacionários representa um desafio para o nosso entendimento, pois é difícil deduzir a tendência de desenvolvimento que resultará da somatória das suas forças internas. No início dessa seção indicamos a nossa opção de não se pautar pelas analogias formais que levam a imensa maioria dos participantes desse debate sobre o bolsonarismo a usar a classificação de fascismo, buscando ao invés disso uma elucidação do fenômeno nas particularidades da formação social brasileira. Dentro dessa perspectiva, apresentamos o bolsonarismo como uma continuidade e ao mesmo tempo uma ruptura da tradição política brasileira. A continuidade estaria na sua combinação de arcaico e moderno, de autoritarismo atávico e tecnologias de comunicação avançadas; a ruptura estaria na disposição para levar os conflitos às últimas consequências, à guerra civil, se for o caso.

Para explicar a emergência dessa forma específica de gestão do conflito de classe que é diferente (ainda que em boa medida herdeira) das anteriores que vigoraram no país, seria preciso então discutir de maneira mais precisa a situação da formação social brasileira enquanto uma particularidade em face da totalidade do sistema capitalista mundial. A emergência de forças políticas reacionárias em posições de disputar e vencer eleições nacionais não é uma exclusividade brasileira no atual momento histórico. Esse fenômeno tem relação com a insatisfação de imensas porções da população em diversos países com as medidas de austeridade adotadas pelos governos para pagar a conta dos déficits públicos, que por sua vez foram drasticamente ampliados para salvar a lucratividade do capital abalada pela crise econômica mundial de 2008-2009. Houve uma gigantesca operação de transferência de renda para o andar de cima da pirâmide social, gerenciada pelo Estado, qualquer que fosse a coloração política dos partidos governantes.

Tivemos ocasião de desenvolver essa relação entre a luta de classes e as crises do capital em outro texto, voltado para a situação mundial, do qual o presente escrito é a continuação, ou versão brasileira, por isso não nos estenderemos sobre o tema. Basta aqui registrar que essas medidas de austeridade eram adotadas por todas as forças políticas tradicionais em condições de chegar ao governo (no caso do Brasil, pelo PT, PSDB e PMDB), o que fez com que as populações insatisfeitas se voltassem para alternativas não convencionais. A excepcionalidade do bolsonarismo é ter se apresentado não como uma força eleitoral como as outras, que iria dar continuidade a esse tipo de gestão, mas como portador de um projeto de transformação totalizante, “contra tudo isso que está aí” (ver post-scriptum ao final), com uma sedutora mística política e ideológica de mobilização total, abrangendo todas as esferas da vida. O fato de não ser capaz de entregar essa transformação total e ao mesmo tempo administrar o Estado é exatamente o que lhe dá um combustível de mobilização permanente, para manter seu público fiel, mesmo que isolado em determinados embates (ver aqui e aqui). Consequentemente, a prioridade para a mobilização inviabiliza qualquer tipo de gestão minimamente razoável, como veremos na parte 3 do texto.

O Bolsonarismo foi a materialização brasileira desse movimento, implodindo a forma de gestão política da luta de classes construída pela redemocratização em torno daqueles três partidos. Quando a insatisfação da população com a intensificação da exploração e da austeridade e com a falta de espaços reais de participação literalmente explodiu em 2013, a burguesia brasileira percebeu que precisaria de um novo arranjo. A explosão demonstrou que o PT não seria mais capaz de conter as lutas populares com a sua receita combinada de repressão e cooptação de segmentos identitários específicos. O descarte do PT deu o combustível para o discurso ideológico de hostilidade a todos os setores que o PT buscava cooptar, agrupados sob a alcunha de “comunistas”. Para esse discurso ideológico oportunista, não faz diferença que o PT tenha feito uma mera maquiagem por meio da inclusão de algumas parcelas da burocracia dos movimentos identitários aos mecanismos de gestão do Estado; a desforra seria descarregada sobre a vasta massa da população que esses movimentos nunca representaram ou organizaram (também discutimos este ponto de maneira mais pormenorizada em outra série de textos, por isso não vamos nos repetir).

Essa forma especificamente brasileira de reacionarismo sincronizada com as necessidades do capitalismo mundial manifesta ainda outras facetas de combinação entre arcaico e moderno, entre as quais está a sua forma de comunicação. Na década de 1990 era comum falar em “telecoronelismo”, para se referir ao controle dos meios de comunicação mais avançados existentes na época pelas forças políticas e econômicas mais atrasadas. As famílias oligárquicas mais poderosas em cada estado, que em geral eram herdeiras do velho latifúndio (Magalhães na Bahia, Collor de Melo em Alagoas, Sarney no Maranhão, Neves em Minas, Maia no Rio Grande do Norte, Barbalho no Pará, Jereissati no Ceará, etc.), perpetuavam o seu controle sobre as instituições por meio da posse de emissoras de TV, em geral repetidoras da Rede Globo, além de rádios, jornais, revistas, editoras, etc.

Com esses instrumentos, o antigo voto de cabresto dos tempos do coronelismo reaparecia reciclado por meio dos mecanismos de fabricação de consenso da comunicação de massas. O coronelismo clássico, por sua vez, vem da venda da patente de Coronel da Guarda Nacional pelo governo central aos latifundiários do século XIX, como forma do Estado se financiar e organizar milícias repressoras contra os trabalhadores, e ao mesmo tempo, em troca, conferir prestígio senhorial aos proprietários rurais, principalmente no Nordeste. Essa forma de promiscuidade entre o poder público e o privado nunca foi inteiramente afastada no Brasil por reformas burocráticas, tecnocráticas e gerenciais.

No século XXI esse mecanismo reaparece nos grupos de Whatsapp de apoiadores do bolsonarismo, com as ideias mais arcaicas, irracionais e disparatadas sendo redistribuídas pelos meios de comunicação mais modernos. Uma rede industrial e altamente profissional de distribuição de mensagens bombardeia diariamente milhares de grupos de zap com mentiras, falsificações, distorções, teorias da conspiração, exortações que mantém uma militância bolsonarista permanentemente ativa no trabalho de mobilizar os segmentos sociais próximos e ganhá-los para as linhas políticas emanadas do centro. Essa tecnologia é importada da chamada “alt right”, a “direita alternativa” estadunidense, que fez campanha para Donald Trump e atua como seu braço político particular, por fora do próprio partido que o elegeu (cabe lembrar que no Brasil o bolsonarismo também não precisa de um partido político próprio e atua distribuído em diversas legendas, enquanto a Aliança pelo Brasil permanece inviabilizada).

A profundidade com que essa rede de comunicação implantou a obediência mais cega aos seus seguidores pode ser medida no episódio da saída do ministro Sérgio Moro, que era até então um dos mais prestigiados componentes do Frankenstein bolsonarista. Até a véspera da demissão, as informações sobre a saída de Moro eram descartadas nos grupos de zap bolsonaristas como notícias falsas da imprensa. Quando se confirmou a saída do ministro, depois de um rápido instante de pane e incerteza, as redes foram rapidamente centralizadas pelo discurso da traição: Moro foi prontamente reclassificado como mais um comunista. A habilidade de acreditar em uma coisa e imediatamente depois no seu exato oposto, como os bolsonaristas fizeram em relação a Moro, é o que Orwell chamou de duplipensar.

Podemos considerar que a estrutura inteira do governo Biroliro é orwelliana: o ministério do meio ambiente se encarrega de proteger o desmatamento e as queimadas, a ministra da agricultura se encarrega de envenenar a população com centenas de agrotóxicos, o ministro da educação desmonta as universidades públicas e a pesquisa científica, a secretaria da cultura festeja a imbecilização, a ministra dos direitos humanos defende o patriarcado e a LGBTfobia, a Fundação Palmares homenageia racistas notórios, o ministro da saúde na maior parte do mandato trabalhava para os planos de saúde privados, e no momento é um militar especializado em matar, o ministro das relações exteriores propaga alucinações conspiratórias, etc.

A apoteose orwelliana da reunião ministerial do dia 22/04 expôs a todos as entranhas desse governo de psicopatas e paranóicos dedicados à auto-destruição do Estado. Aqui teríamos mais uma evidência de uma filiação ideológica diferente do fascismo: não existe fascismo que desmonta o Estado nacional, esvazia o aparato de governo, ou fascismo privatista, a favor da entrega de patrimônios públicos e riquezas nacionais (“passar uma boiada de desregulamentações”); não existe fascismo anti-nacionalista, entreguista, pró-subordinação da nacionalidade a uma outra potência. O bolsonarismo é caninamente fiel aos Estados Unidos, sem qualquer contrapartida, talvez como forma de retribuir à Cambridge Analytica pelos serviços prestados nas eleições de 2018.

Sendo o nacionalismo deslocado para o plano do mero revisionismo histórico, o que existe em lugar de fascismo é uma espécie de defesa do anarco-capitalismo armado, típico das milícias reacionárias estadunidenses e importado ao Brasil pelos filhos playboys do presidente, como só os novos-ricos mais colonizados, boçais e deslumbrados costumam fazer, possivelmente para dar algum charme anglófilo e uma grife ideológica da última moda (don’t tread on me) à pistolagem que os jagunços do agronegócio já praticam há séculos e as milícias do crime organizado há algumas décadas, desde que surgiram.

Para concluir essa parte da discussão, precisamos acrescentar que há uma outra espécie de fixação obsessiva no nome do fascismo, inversa daquela que mencionamos no início, para a qual o uso desse “carimbo” traz embutido um pretexto subliminar, uma espécie de justificativa para dar de ombros e dizer: “é o fascismo, não há mais nada que se possa fazer”. O pessimismo, que convida à prostração e impotência, aparece disfarçado de radicalidade conceitual. Aquele que com maior antecedência detecta os indícios de fascismo ou os denuncia com mais insistência parece se sentir como o teórico mais atento, na mesma medida em que não indica nenhuma alternativa prática para construir os meios de enfrentamento a esse adversário tão terrível.

Defendemos que a radicalidade conceitual tem que estar aliada a uma análise histórica fria: em termos mundiais, o fascismo propriamente dito só foi derrotado militarmente, mas o foi por um país que havia passado por uma revolução social, ainda que incompleta. A falta de disposição e clareza estratégicas para fazer avançar a revolução social na Espanha foi o que levou à vitória do fascismo naquele país. A confiança nas forças democráticas como se pudessem nos “salvar” do fascismo é o que fez com que ele avançasse. Para enfrentar a contra-revolução em andamento no Brasil (que aqui assume feições de contra-revolução preventiva permanente, parodiando Trotsky e Florestan Fernandes), a orientação estratégica tem que ser sempre a busca das vias que possam fazer avançar a revolução, por mais desesperador ou surreal (ver post scriptum) que isso possa parecer no imediato.

Seja como for, a discussão mais importante não é mesmo pelo uso ou não do nome de fascismo, mas pelo entendimento do significado social do fenômeno, sua combinação de raízes arcaicas e fenômenos modernos, particularidades nacionais e exigências da totalidade mundial do sistema do capital. O bolsonarismo, como versão mais recente da forma especificamente brasileira de terrorismo de Estado contra os trabalhadores, representa uma continuidade com a tradição política do país, na combinação do autoritarismo mais arcaico com os meios de difusão mais modernos; e ao mesmo tempo uma ruptura, que está na rejeição da trajetória de conciliações por uma corrente política que pela primeira vez se mostra disposta a se impor pela força contra tudo e contra todos.

3. Entropia social centrípeta

escultura de Luke Jerram

Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele.”(1ª Lei da Inércia)

Isaac Newton

Princípios Matemáticos de Filosofia Natural

Descendo a uma descrição mais concreta do funcionamento do bolsonarismo, temos uma milícia virtual nas redes sociais que é a frente de massas dirigida por um grupo político, a família Boçalnaro, que por sua vez é a representação eleitoral das milícias do crime organizado do Rio. Enquanto tenta esconder desastradamente seus vínculos com o submundo do crime, esse grupo político acalenta o projeto de uma contra-revolução autoritária e apocalíptica, do qual a conquista da presidência por eleições foi apenas uma etapa. A esse projeto se associaram oportunisticamente os militares (altos oficiais da reserva e parte da cúpula das forças armadas), os evangélicos e os lava-jatistas (que permaneceram a bordo até 24 de abril de 2020), cada setor com a intenção de manobrá-lo de alguma forma em favor de suas próprias agendas. O grande capital deu aval a esse projeto devido à presença do Posto Ipiranga, o ultra-liberal Paulo Guedes (gângster do mercado financeiro), como fiador de uma agenda de reformas econômicas.

O histórico de tragédias impulsionadas pelo governo começou a se avolumar tão logo ele tomou posse. Ruptura da barragem de Brumadinho, incêndios na Amazônia, vazamento de petróleo no Nordeste, liberação massiva de agrotóxicos, mortes de indígenas, desmonte das instituições de pesquisa e das universidades, sucateamento dos órgãos de fiscalização ambiental, sanitária, trabalhista, penitenciária, de patrimônio histórico, desmonte do SUS, Incra, Ibama, Funai, Iphan, etc., esvaziamento das instâncias de participação da sociedade civil, extinção dos conselhos consultivos; formaram um legado de destruição que arruinou em curtíssimo espaço de tempo conquistas pontuais, incipientes e muito insuficientes em termos de políticas públicas, mas que mesmo assim tinham sido o resultado de muitas décadas de luta e mobilização de trabalhadores e segmentos diversos da população.

Incompetência, falhas de gestão, trapalhadas embaraçosas, declarações constrangedoras, arroubos de arrogância e crimes de responsabilidade, jorraram em cascata do esgoto bolsonarista instalado no controle do Estado. A principal das reformas preconizadas pelo mercado, a destruição da previdência pública, foi realizada não por conta da capacidade de articulação do governo, que foi nula, mas apesar das confusões do governo. Ainda assim, com reformas e tudo, ao contrário do prometido, a economia não decolou, a recuperação não veio, a crise permaneceu, as dúvidas se multiplicaram e a paciência se esgotou até mesmo no mercado (ver aqui, aqui e aqui). Em poucos meses já se falava abertamente na abreviação do mandato presidencial, e não demorou para que se empilhassem os pedidos de impeachment na mesa do presidente da Câmara.

Ao longo de um ano de mandato, o show de horrores governamental protagonizou atritos em série com os demais poderes do Estado, a imprensa, os demais partidos, instituições internacionais e outros países. A crise econômica se aprofundava e as milícias virtuais bolsonaristas começavam a se fundir com milícias presenciais em manifestações contra o Congresso e o STF, na tentativa de encobrir o fracasso estrepitoso do governo que elegeram. Enquanto o núcleo presidencial elevava o tom do confronto, as forças políticas opositoras adotavam a linha de deixar o governo fritar e se desgastar lentamente, até que pudesse ser removido sem muita reação (é o que continuam sonhando).

Enquanto uma parte da opinião pública progressista apontava para uma montanha de razões suficientes para um impeachment, expressando a sua impotência na forma de panelaços, os titulares dos demais poderes, incluídos aí os partidos da oposição parlamentar e de “esquerda” (sic) tentavam reciclar a estratégia secular de evitar o confronto e buscar as vias de transição pelo alto. As soluções nos bastidores seguiam e seguem sendo buscadas, sendo a mais óbvia a escalação do reserva Mourão. Conforme o ano de 2019 se desenrolava em meio a essa sequência inimaginável de desastres, numa quantidade, profundidade e velocidade nunca antes vistas, ninguém acreditaria se fosse informado de que algo ainda pior ainda estava por vir.

A pandemia de Covid-19 chegou ao país, e ao invés de uma ação coordenada do Estado no enfrentamento da ameaça à saúde pública, o que tivemos foi um conflito entre a União, os estados e municípios sobre as medidas a serem tomadas. O presidente apostou todas as fichas no discurso negacionista de que a pandemia é uma gripezinha e vão morrer só algumas pessoas mais frágeis. Demitiu o ministro dos planos de saúde, que tinha esboçado concordar com as medidas de contenção social dos estados, e passou a estimular as carreatas da morte, protestos de pequenos empresários pela reabertura do comércio e dos serviços. Ficou evidente desde o início que a aposta do presidente era desgastar os governadores por conta das medidas de quarentena, respaldadas também pelo judiciário, legislativo e imprensa, jogando sobre eles a responsabilidade pela paralisação da economia. A população iria se revoltar antes com a perda de emprego e de renda do que com o número de mortos pela pandemia.

Para que a aposta bolsonarista dê certo, ele conta com dois trunfos importantes. O primeiro é o controle das chaves do cofre do Tesouro Nacional e do Banco Central. Com aproximadamente metade da população em quarentena e a economia semi-paralisada, caberia ao Estado fazê-la respirar por aparelhos, injetando dinheiro nas empresas para não fecharem, subsidiando os salários dos trabalhadores empregados, suspendendo dívidas, aluguéis e prestações, distribuindo uma renda de sobrevivência para a população desempregada e que trabalha por conta própria, financiando o sistema de saúde para construir leitos, respiradores, EPIs, testes na escala necessária para enfrentar a doença, etc. É o que os governos do mundo inteiro têm feito (no que foi chamado indevidamente de renascimento do keynesianismo), que obviamente resultaria num aumento gigantesco do endividamento público, a ser administrado no futuro, de alguma maneira (não que estejamos preocupados em encontrar alternativas para o Estado, que no entanto existem, mas apenas em ressaltar que, mais uma vez, se trata de um comportamento grotescamente atípico do Bonoro em relação ao dos demais líderes mundiais).

O governo não fez nada disso, nem a administração federal e nem os opositores nos estados e municípios. Não há garantia de empregos (muito pelo contrário), nem crédito para as empresas, e mesmo a exígua ajuda de R$ 600 em três parcelas, para parte da população que precisa, foi paga com assustadora incompetência e atraso, além de deixar muitos de fora por omissão ou negação do auxílio. O resultado esperado com essa inação deliberada do Estado é que a massa da população entre em desespero e mesmo com medo da doença, exija a volta do funcionamento “normal” da economia (em parte, a abertura já está acontecendo, por mais que estejamos longe do momento adequado e sem o conhecimento necessário para isso). Com a pressão da população seria quebrada a resistência de governadores, prefeitos, legislativo, judiciário, imprensa, oposição, e o núcleo bolsonarista sairia como vencedor solitário da disputa política, por ter supostamente se preocupado com o ganha pão dos trabalhadores. Não sem antes, é claro, ir às compras no balcão de negócios do Congresso e obter o apoio dos partidos de aluguel do centrão mediante farta distribuição de cargos e verbas em troca dos votos necessários para impedir o impeachment.

Para o bolsonarismo, é uma questão de honra impedir que seja cruzada uma linha, a do uso dos fundos públicos controlados pelo Estado para manter o emprego e a renda da população. Esse limite é de tal forma intransponível que essa hipótese não pode nem sequer ser mencionada. Na disputa política pelo poder, o bolsonarismo aposta numa intensificação da lógica nua e crua do capitalismo, internalizada como uma segunda natureza. Em alguns países, a crise atual é o pretexto para legitimar formas autoritárias de controle sobre a população; em outros, como no Brasil, é a chance de reafirmar os traços mais brutais da compulsão econômica: forçar a população a uma disjuntiva entre morrer de fome ou de doença. A grande massa de desempregados, subempregados, informais e trabalhadores por conta própria deve seguir aceitando uma deterioração cada vez maior das suas condições de vida e de trabalho. Deve aceitar trabalhar cada vez mais, receber cada vez menos, se expor a todo tipo de risco sem qualquer garantia ou proteção, nem mesmo a expectativa de ter trabalho no dia seguinte. Os trabalhadores têm que vender sua força de trabalho para sobreviver, nem que seja nas condições as mais desvantajosas possíveis, pois não há outra alternativa, não há outro modo de organização da vida.

Não se trata apenas de que o governo é contra medidas para enfrentar a pandemia ou reativar a economia, mas de que trabalha ativamente a favor da morte de segmentos mais vulneráveis, como idosos, pessoas de saúde mais frágil, indígenas, presidiários (estes devem se conformar com a pena de morte sem ter como reagir), etc., em uma verdadeira operação de eugenia. Uma regressão social brutal está em preparação, rumo à condições de trabalho e de vida comparáveis à escravidão. No país dos sonhos do presidente, os hospitais são reduzidos a uma ante-sala dos cemitérios, onde cerca de mil pessoas por dia vão morrer de Covid-19 e outras milhares de infectadas vão manter as UTIs numa taxa de utilização permanente de 100% dos leitos, durante meses a fio. Com isso, não vai haver sistema de saúde para as pessoas que sofrerem um acidente de trânsito, um enfarte, um derrame, uma doença crônica, e vão todos também morrer desses motivos antes tratáveis, ou igualmente contaminados pelo coronavírus se forem aos hospitais. Teremos uma sociedade sem sistema de saúde, em que sair de casa para trabalhar será um risco tão grande quanto era na Idade Média, quando não existia medicina alguma.

O país pagaria um tributo em vidas para obter a chamada imunidade de rebanho e seguiria em frente com dezenas ou centenas de milhares de habitantes a menos, e vários milhões de pessoas em luto por esses entes queridos perdidos. As pessoas seguiriam em frente mendigando a oportunidade de algum trabalho, por mais rebaixado que seja, para ganhar o suficiente apenas para sobreviver, enquanto não vier a contaminação e a morte em pleno trabalho. Na porta das empresas as pessoas vão ter a sua temperatura medida e quem não estiver com febre vai poder entrar para trabalhar e ganhar o dia, para se submeter à mesma loteria no dia seguinte. Quem estiver com febre volta para casa sem ganhar nada, tendo que passar fome e temendo contaminar a família.

Com o desemprego nas alturas e a abundância de força de trabalho disponível, os patrões poderiam impor as condições que quisessem, salários menores e jornadas maiores. A disputa pelas poucas vagas de trabalho iria minar as possibilidades de solidariedade e de ação coletiva. O cinismo e o ressentimento seriam as novas ideologias predominantes. Seria removida da mente das pessoas a perspectiva de mudança, de melhora, de alternativa, por meio do trauma dessa regressão, e com o castigo da violência armada do Estado contra quem ousar se rebelar (ver aqui, aqui, aqui e aqui ). Com a economia em frangalhos e internacionalmente isolado (ver aqui, aqui e aqui) o país viveria uma deriva histórica rumo ao passado. O bolsonarismo usa a pandemia para formatar o país e forjar uma fazenda escravista.

O segundo trunfo para que essa aposta dê certo será, obviamente, a capacidade de esconder o número de mortos pela pandemia. E é possível que isso seja obtido, não só porque uma parte da população, que é minoritária, mas estridente, vive em um mundo paralelo, mentalmente abduzida pelos grupos de zap bolsonaristas e incapaz de enxergar a realidade, mas porque o restante da população, que ainda não perdeu de todo o contato com a realidade, pode não ter os instrumentos para acessá-la. Sem exames em massa, não é possível saber o número real de mortes por Covid-19 no país. A única pista dessas mortes será o rastro de cadáveres nos cemitérios. Já estamos para além da subnotificação e entregues à pura evidência empírica.

Sem dados oficiais (aliás, pelo contrário, cada vez mais manipulados), sem estatísticas confiáveis, sem possibilidade de verificação dos fatos por fontes independentes, vai ser impossível saber o número verdadeiro de mortes. Vamos ficar dependentes da percepção individual, de relatos pessoais, do ouvi dizer que tal pessoa, de tal família, em tal bairro, morreu dessa doença, mas o tamanho real do estrago pode não ser jamais descoberto. Enquanto isso, a vida segue, é preciso ir trabalhar, buscar o pão de cada dia. A anestesia e a insensibilização são incentivados e cultivados, bem como a irresponsabilidade mais agressiva e cruel. E os bolsonaristas, nas suas carreatas da morte, zombam dos relatos pessoais de morte, tocando a música do meme do caixão em frente aos hospitais, onde os doentes e profissionais da saúde lutam pela vida. E também espalhando notícias falsas sobre pneus que explodem e caixões vazios.

Dissemos que os bolsonaristas mais fanáticos estão desconectados da realidade. Mas o que é afinal de contas o real? Pensando na realidade em que vivemos, o que é real de fato, o fundamento último da sociabilidade, é a economia capitalista, é a lei do valor, é a forma mercadoria, é o fetichismo do dinheiro. Para sobreviver, você tem que trocar sua força de trabalho por dinheiro. Existe outra forma de vida? Bozossauro diz que não, e quem vai contestá-lo? Ele pode assim ganhar a sua aposta. Em certo sentido, ele está negando o real, negando a letalidade da pandemia e a necessidade de dispendiosas medidas contra ela, mas ao mesmo tempo, está afirmando o real, está afirmando a economia capitalista como única realidade possível, e está indo até as últimas consequências nessa afirmação, não importa quantos sejam os mortos. Ele está convidando a sociedade a aceitar essa dura realidade, e pode ser que ele consiga. Nesse sentido, ele é mais do que realista, é hiper realista.

Mas no seu hiper realismo, ele está ignorando um aspecto central da realidade, o fato de que ela muda. O real é síntese de determinações diversas, dizia Marx. O real é a contradição em movimento, e no movimento ele se transforma. Bozonero está negando a possibilidade de transformação, por isso ele está negando o real com seu hiper realismo. Sem o movimento vivo da negação, o real pode implodir para dentro de si mesmo, numa entropia de violência e barbárie. Se ele faz essa aposta hiper realista na brutalidade do capital, quem é que vai contrariá-lo? Onde está a mobilização para enfrentá-lo? Para negar o real, é preciso afirmar radicalmente o real como possibilidade de superação e transformação totais.

Isto não é um mero jogo de palavras. Bozonazi apresenta uma alternativa para a sociedade e a persegue com toda a coerência. Tal alternativa não pode ser enfrentada por meio de alguma variedade benigna de capitalismo, algo que está completamente descartado nas circunstâncias de uma crise com a gravidade da atual. O sistema tem a seu favor a inércia das relações estabelecidas, fetichizadas e encrustadas como uma segunda natureza, que dizem que “o mundo sempre foi assim” e portanto vai continuar sendo. Sem uma força social organizada que negue de maneira direta os pressupostos do sistema do capital, ele tende a se impor e se repor, não importa quão grave seja a crise. Ou trabalhamos para construir essa força social anticapitalista, ou o Bozoasno vai ter razão. Para negar o hiper realismo bolsonarista do capital e os aspectos anti-humanos do real, é preciso defender uma ideia surreal: a revolução.

4. Post Scriptum: (Mais) Um genocídio brasileiro

escultura de Salvador Dali

Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus, porque esse monstro está permitindo que os cegos enxerguem, que os cegos comecem a enxergar, que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises

Lula

entrevista à revista Carta Capital

A crise que ela [a pandemia] causou nunca foi, nem poderia ser, questão afeta exclusivamente a um ministério, a um Poder, a um nível de administração ou a uma classe profissional. É política na medida em que afeta toda a sociedade e esta, enquanto politicamente organizada, só pode enfrentá-la pela ação do Estado

Hamilton Mourão

artigo de opinião no Estadão

A reflexão que deu origem a este texto começou a partir da fatídica fala presidencial da gripezinha de 24/03, mas a redação propriamente dita só começou quase dois meses depois, em meados de maio, sendo depois interrompida em 24/05 e retomada em 04/06, quando foi feita uma revisão geral e foram adicionados os links das referências. Essa operação de finalização originou uma reflexão suplementar, que segue agora ao final. Mencionamos acima que o bolsonarismo fez uma aposta, de que os danos à economia, propositalmente deixada à míngua pelo governo que dirige, iriam fazer a população se revoltar contra a oposição antes que o aumento do número de mortos pela pandemia a faça se horrorizar com o próprio governo. O fato de que esses movimentos não estejam acontecendo na velocidade desejada pelo bolsonarismo, de modo que a possibilidade de que sobrevenha o oposto do que ele deseja vem se tornando mais concreta, pode explicar a aceleração dos acontecimentos que temos experimentado e que pode avançar ainda mais nos próximos dias, levando a algum tipo de desfecho.

Quando falamos em “oposição” ao governo, tratamos aqui não de uma entidade coesa, mas de um amplo espectro de forças que inclui os demais poderes do Estado (Legislativo e Judiciário), entes da federação (estados e municípios), grande imprensa e partidos políticos, num arco que vai do PSDB ao PT e seus satélites (movimentos sociais e partidos de “esquerda” inclusos). Esse amplo conjunto não tem, à primeira vista, nenhum traço unificador a não ser o fato de que o bolsonarismo denomina todos os seus componentes de comunistas. Mas um exame mais aprofundado detectará que essa “oposição” também tem outro denominador comum, o fato de que partilham uma aposta inversa à do bolsonarismo. A “oposição” aposta que o número de mortes pela pandemia vai chocar as pessoas e colocá-las contra o governo antes que o desastre da economia e a miserabilização acelerada a empurrem no sentido oposto.

Os dois lados esgrimem as suas armas para acelerar o avanço da curva que lhes interessa e assim ganhar a aposta. A vitória do bolsonarismo seria aquilo que já descrevemos como concretização da sua tendência inata, o impulso de levar o conflito até o final, o confronto armado da pequena burguesia e lumpesinato armados contra todas as demais instituições e opositores para passar a limpo o país. A vitória da oposição seria uma remoção do Bozotário, de preferência incruenta, com a anuência dos militares, possibilitando uma renegociação do controle do Estado, talvez em uma nova eleição ou algum tipo de arranjo que dê a cada um a sua ambicionada fatia (conforme aquela tradição de conciliação pelo alto na qual insistimos).

Note-se bem que os dois lados trabalham com uma lógica de quanto pior melhor. Quanto mais o povo sofrer, por mortes ou por miséria, melhor para eles. Quem chegou até aqui na leitura deverá se escandalizar com essa aposta estratégica. Mas é ela que está sendo posta em prática. Esse é um dos motivos pelos quais dissemos que a negação da realidade se tornou uma possibilidade surreal: o conjunto da oposição não quer avançar até as últimas consequências contra o bolsonarismo, pois quer na verdade retroceder a uma realidade anterior. Quer defender a volta da “democracia” que tinha antes. E é do caráter vazio desse denominador comum “democrático” da oposição que o bolsonarismo tira sua força. A defesa das instituições não é crível como instrumento para mobilizar as forças sociais que seriam necessárias para derrotar o bolsonarismo. As vastas maiorias de trabalhadores não vão sair às ruas, com a possibilidade de talvez se deparar com grupos armados, militares ou paramilitares, para defender a “democracia” que tínhamos antes, um grande acordão com Lula, com Dória, com Globo, com Supremo, com tudo. Enquanto essa for a oferta que a oposição tem para colocar na mesa, não vai conseguir as forças de que precisa.

Discordamos desde o início da classificação do bolsonarismo como fascista, mas essa classificação possui em seu favor pelo menos um argumento com alguma plausibilidade que precisamos registrar, que é justamente aquele que menos é acionado: a semelhança do reacionarismo atual com os movimentos fascistas propriamente ditos está na operação de capturar a revolta social difusa e utilizá-la em favor da defesa do sistema existente. Esse argumento é pouco utilizado porque ele teria que explicar de qual revolta social o bolsonarismo tirou a sua força. E uma explicação honesta para isso teria que concluir que existia uma revolta massiva contra múltiplos aspectos das condições de vida no país, manifestada em Junho de 2013. Como o partido governante da época, o PT, reprimiu as manifestações daquela revolta e sufocou qualquer expectativa de mudança em um escandaloso estelionato eleitoral no ano seguinte, a única via para expressão da revolta passou a ser o anti-petismo.

Enquanto não for corretamente processada a memória de 2013, para que se possa construir uma autêntica revolta contra o sistema, contra o capital, contra o Estado e todos os seus aparatos, não vai haver saída possível do pesadelo em que estamos. É por isso que a superação do real parece tão surreal: um novo Junho em pleno 2020? Em plena pandemia? Iniciado por setores das torcidas organizadas? Misturando a indignação com a crise que grassa paralelamente à pandemia com a revolta contra a violência policial? Ecoando a maior onda de protestos que os Estados Unidos presenciam em 50 anos? Retomando a onda mundial de lutas do final de 2019? E como temeu o general Mourão, voltando a incendiar as ruas?