O significado do nosso amor pelas mulheres é o que temos que constantemente expandir

RICH, Adrienne. “The Meaning of Our Love for Women is What We Have Constantly do Expand”. In: On Lies, Secrets, and Silence: Selected Prose 1966-1978. Brooklyn, NY: Out & Out Books, 1977. Tradução de Daniela Bado.


O verão de 1977 foi um verão de Marchas do “Orgulho Gay” militantes, escrutinadas pela mídia, respondendo à campanha anti-homossexual cujo símbolo de mídia era uma mulher, Anita Bryant. O movimento gay masculino elegeu Bryant como alvo de sua raiva com uma rapidez sugestiva da ginofobia subjacente, e não reconhecida, do movimento. “Anita” foi equiparada a Hitler com sátiras virulentas sobre sua anatomia feminina; enquanto o marido e o pastor em seus ombros, os interesses corporativos financiando “sua” cruzada, os textos das Igrejas e da Legião Americana que incutiram isso nela, foram apagados enquanto a imagem de uma mulher se tornou o foco simplista do movimento gay.

Muitas lésbicas/feministas andaram nessas marchas se sentindo distorcidas e alienadas; entendemos que era necessária uma forte presença de mulheres para conscientizar o público de que as mulheres são um grupo significativo que tiveram seus direitos civis negados pelas leis anti-homossexuais; no entanto, o tom de ódio às mulheres de grandes seções das marchas nos reafirmou que não conseguiríamos encontrar uma verdadeira solidariedade “fraterna” no movimento gay. Nossa compreensão sobre o significado de Anita Bryant e o significado da identificação da mulher era necessariamente mais complexa. Este discurso, lido para um pequeno grupo de mulheres que optaram por se separar da parada do Orgulho Gay no Central Park’s Sheep Meadow e manter nossa própria manifestação, foi mais tarde impresso como o primeiro de uma série de panfletos sobre lesbianismo/feminismo por Out & Out Books, Brooklyn, Nova York.


Quero falar sobre algumas conexões que eu acredito ser urgente fazermos neste momento — conexões que exigem de nós, não só orgulho, raiva e coragem, mas a vontade de pensar e enfrentar nossa própria complexidade.

Um ataque orquestrado está sendo lançado contra a homossexualidade, pela igreja, pela mídia, por todas as forças neste país que precisam de um bode expiatório para desviar a atenção do racismo, da pobreza, do desemprego e, sobretudo, da corrupção obscena na vida pública [1]. Não é nem um pouco surpreendente que este ataque tenha criado uma nova imagem popular e infame do mal feminino: Anita Bryant. Deve ser óbvio para todos nós que nenhuma mulher na sociedade dominada pelos homens pode exercer a influência pública atribuída a Anita Bryant, a menos que os homens digam que ela deve fazê-lo, e a menos que as redes de poder do sexo masculino a forneçam, como eles forneceram a Phyllis Schlafly da campanha anti-ERA, acesso à mídia, publicidade gratuita e apoio financeiro.

No fim de semana passado em Los Angeles, essas forças juntaram-se para tentar assumir o controle da International Women’s Year Conference no estado da Califórnia. Apenas uma participação em massa das feministas impediu a aprovação de resoluções essenciais para a retirada de cada avanço obtido pelo movimento feminista nos últimos oito anos. Deve ficar claro que Anita Bryant e Phyllis Schlafly são as máscaras por trás das quais o sistema de dominação masculina está atacando, não apenas lésbicas, ou homens “gays”, mas mulheres, e o movimento feminista, mesmo na sua forma mais moderada; e que o ataque está sendo alimentado e promovido pelas únicas pessoas na América com recursos para fazê-lo: homens.

Também sabemos que na retórica de Anita Bryant, assim como na retórica do movimento “gay” masculino, a “homossexualidade” é vista através de uma lente masculina, como uma experiência masculina. Eu parei de acreditar que isso é porque as lésbicas são percebidas como “não ameaçadoras”. Tanto quanto o homofóbico masculino odeia o homossexual masculino, há um medo muito mais profundo — e extremamente fundamentado — no patriarcado da mera existência de lésbicas. Juntamente com a perseguição, somos confrontadas, sobretudo, com silenciamento sufocante e negação: a tentativa de nos tirar da história e da cultura por completo. Este silêncio é parte da totalidade do silêncio sobre a vida das mulheres. Também foi uma maneira eficaz de obstruir o intenso e poderoso aumento da comunidade feminina e o compromisso da mulher à mulher, o que ameaça muito mais o patriarcado do que o vínculo de homossexuais masculinos, ou o pedido de direitos iguais. E, finalmente, há uma ameaça ainda mais profunda agora apresentada por lésbicas/feministas, que é uma força totalmente nova na história.

Antes que qualquer tipo de movimento feminista existisse, ou pudesse existir, as lésbicas existiam: mulheres que amam mulheres, que se recusam a acatar o comportamento imposto às mulheres, que se recusam a serem definidas em relação aos homens. Aquelas mulheres, nossas antepassadas, milhões das quais os nomes nós não sabemos, foram torturadas e queimadas como bruxas, difamadas em tratados religiosos e posteriormente “científicos”, retratadas na arte e na literatura como mulheres bizarras, amorais, destrutivas e decadentes. Por muito tempo as lésbicas foram a personificação do mal feminino. Ao mesmo tempo, enquanto a cultura homossexual masculina se desenvolvia, as vidas dos homens, como sempre, eram vistas como sendo a cultura “real”. Lésbicas nunca tiveram poder econômico e cultural de um homem homossexual; e aquelas partes das nossas vidas com as quais homens homossexuais não poderiam se identificar — nossos relacionamentos fiéis e duradouros, nossos trabalhos como ativistas sociais em nome de mulheres e crianças, nossa ternura e força feminina, nossos sonhos e visões femininas — só começaram a ser retratados, na literatura e na academia, por lésbicas.

Lésbicas tem sido forçadas a viver entre duas culturas, ambas dominadas por homens, cada uma delas negando e ameaçando nossa existência. De um lado, está a cultura patriarcal heterossexista, conduzindo as mulheres ao casamento e a maternidade usando todas as pressões possíveis — econômicas, religiosas, médica e legal — literalmente colonizando os corpos das mulheres. A cultura patriarcal heterossexual levou as lésbicas a culpa e às sombras, frequentemente ao ódio à si mesma e ao suicídio.

Do outro lado, está a cultura patriarcal homossexual, uma cultura criada pelo homem homossexual, refletindo todos os estereótipos masculinos de dominância e submissão que moldam os relacionamentos, e a separação do sexo de um envolvimento emocional — cultura contaminada por profundo ódio pelas mulheres. Ao perambularem pelo mundo violento, sadomasoquista e auto destrutivo dos bares “gays”, a cultura gay masculina oferece às lésbicas os papéis estereotipados de “butch” e “femme”, “ativa” e “passiva”. Nem a cultura heterossexual nem a cultura “gay” tem oferecido às lésbicas um espaço no qual possam descobrir o que significa ser uma pessoa autodefinida, com amor próprio, identificada com as mulheres, e não uma imitação de homem tampouco seu oposto objetificado. Apesar disso, as lésbicas tem sobrevivido através da história, estão trabalhando, estão se apoiando mutuamente e estão se amando apaixonadamente.

Acanhadamente, feministas políticas existem desde cerca de duzentos anos [2]; o movimento homófilo tem cerca de um século; e muitas das mais heroicas e irredutíveis ativistas em todos os movimentos sociais tem sido as lésbicas. Pela primeira vez estamos a ponto de fundir lesbianismo e feminismo e isto é exatamente o que o patriarcado mais teme, e fará tudo em seu poder para nos impedir de alcançar.

Creio que um movimento lésbico/feminista militante e pluralista é potencialmente a maior força no mundo hoje para uma completa transformação da sociedade e da nossa relação com toda vida. Isso vai além de qualquer luta por liberdade civil ou igualdade de direitos — por mais necessárias que essas lutas continuem sendo. Em sua forma mais profunda, mais inclusiva é um processo inevitável pelo qual as mulheres irão reivindicar nossa visão central e primária de como queremos moldar o futuro.

Nós podemos, entretanto, ser colocadas de lado pela mesma estratégia que nos manteve impotentes por séculos. A estratégia assume muitas formas, mas seu propósito é sempre o mesmo: nos dividir umas das outras, nos dizendo que não podemos trabalhar e amar juntas. Patriarcado sempre nos separou em mulheres virtuosas e prostitutas, mães e sapatonas, madonas e medusas. A esquerda masculina atual tem constantemente se recusado a trabalhar nas questões das mulheres, a tratar a opressão sexual senão em termos rasos e hipócritas, a confrontar seu próprio medo e ódio às mulheres. Ao invés disso, continua a tentar dividir mulheres lésbicas e mulheres heterossexuais, mulheres negras e mulheres brancas, para representar o lesbianismo como decadência burguesa e feminismo como trivialidade contrarrevolucionária de classe média, da mesma forma que homens do movimento negro tentam definir o lesbianismo como “problema de mulher branca”. (A esse respeito, amo lembrar das trabalhadoras de seda independentes da China que Agnes Smedley descreveu na década de 1930, que se recusavam a casar, viviam em comunidades femininas, comemoravam o nascimento de filhas com alegria, formavam sindicatos secretos de mulheres das fábricas e foram abertamente atacadas como sendo lésbicas.) [3] A andro-definida revolução sexual da pornografia, uma industria multibilionária que declara estupros como prazerosos, humilhação como erotismo, é também uma mensagem para as mulheres que se relacionam sexualmente com homens, de que elas podem ser “normais” apesar de quaisquer degradações que se submetam em nome da heterossexualidade. Melhor colaborar com as fantasias masculinas de violência sexual do que ser lésbica; melhor espancada que ser desviada.

Hoje, as lésbicas estão sendo chamadas pelo movimento “gay” masculino a se unir com homens contra um inimigo em comum, simbolizado por uma mulher heterossexual; para esquecer que somos mulheres e nos definirmos novamente como “gays”. É importante que as vozes lésbicas sejam ouvidas lá, insistindo em nossa realidade lésbica; não podemos nos dar ao luxo de rejeitar ou dispensar nossas irmãs que estão indo à passeata “gay” hoje, embora possamos esperar que elas insistam que o movimento “gay” confronte o próprio sexismo, se esperam apoio ainda que ocasional das lésbicas. Pois, sem uma consciência feminista penetrante e insistente o movimento “gay” é tão pouca fonte de mudanças quanto o Partido dos Trabalhadores Socialistas. Há outro apelo, que não vem dos homens, mas da dor, da fúria e frustração mais intensas que experimentamos — um apelo a um separatismo sapatão simplista: a crença que se afastar da imensa diversidade burguesa do movimento feminino global de alguma forma, fornecerá uma espécie de pureza e energia que avançará nossa liberdade. Todas as lésbicas conhecem a raiva, o sofrimento, o desapontamento, sofremos, politicamente e pessoalmente, de homofobia vinda de mulheres que esperávamos que estivessem muito conscientes, muito inteligentes, muito feministas, para falar, escrever ou agir, ou permanecer caladas em consequência de medo e cegueira heterossexual. A ginofobia dos homens não nos abala tão profundamente quanto a ginofobia das mulheres. Muitas vezes toquei o limite dessa dor e raiva e compreendi o impulso do separatismo sapatão. Mas eu acredito que isso é uma tentação de adentrar uma “corretude” estéril, desprovida de poder, uma escapatória da complexidade radical. Quando o aborto — um direito que a Suprema Corte negou, negando mais efetivamente à mulher pobre — quando o aborto é rotulado como um problema “hétero”, nós simplesmente não estamos lidando com o fato de que milhares de mulheres ainda são forçadas, por estupro ou necessidade econômica, a terem relações sexuais com homens; que entre essas mulheres há um número não quantificável de lésbicas; seja qual for sua orientação sexual, a liberdade de reprodução é um problema que afeta urgentemente a vida de mulheres pobres e não brancas, e que virar as costas para milhões de nossas irmãs por amarmos mulheres é enganar-se gravemente. Racismo não é um problema “hétero”, maternidade e assistência a infância não são um problema “hétero”, enquanto houver uma lésbica negra no terceiro mundo, ou uma mãe lésbica no mundo.

Violência contra mulher não faz distinção entre classe, cor, idade ou preferência sexual, lésbicas e mulheres identificadas como hétero são vítimas de esterilização forçada, histerectomias e mastectomias indiscriminadas, o uso de drogas e terapia de eletrochoque para domar e punir nossa raiva. Não existe maneira de nos retirarmos dessas questões chamando-as de “problemas ligados ao homem”. De forma alguma podemos arcar com a redução do alcance de nossa visão.

Neste país, como no mundo de hoje, há um movimento de mulheres em andamento como nenhum outro na história. Não tenhamos dúvida: está sendo alimentado e capacitado pelo trabalho das lésbicas. As lésbicas estão nas redações, iniciando revistas e sistemas de distribuição, criando centros de crises e casas de acolhimento para vítimas de estupro e espancamentos; criando diálogos políticos; alterando o uso da linguagem; disponibilizando uma história verdadeiramente lésbica e feminista para nós pela primeira vez; criando organizações de base e fazendo arte visionária.

Quero listar algumas instituições que só existem nessa cidade graças à lésbicas/feministas: o jornal 13th Moon; Out & Out Books, uma editora; Casa de Virginia Woolf; um coletivo que está arrecadando fundos para abrir um centro para lésbicas em estresse pós trauma, que também fornecerá ajuda para mulheres héteros; Lesbian Herstory Archives, a primeira biblioteca dedicada inteiramente a documentar nossas vidas passada e presente; a revista Conditions, escrita e publicada por mulheres “com ênfase nos escritos lésbicos”. Essas mulheres, muitas delas, tentam revelar e expressar e apoiar nossa complexidade feminina, agindo em vez de apenas reagir; nos movendo para frente. Esses projetos não são “reformistas”. Estamos empenhadas hoje em tentar mudar não um ou dois, mas todos os aspectos das vidas das mulheres.

Precisamos muito, muito mais: precisamos de centros de mulheres e bares de lésbicas em todos os cinco bairros, e não apenas um ou dois espaços onde mulheres possam buscar a comunidade longe dos bares; precisamos de lugares de cura para as mulheres, abrigos para mulheres idosas que percorrem as ruas, abrigos para mulheres maltratadas, donas de casa ou prostitutas; abrigos para mulheres que saíram da prisão, clínicas de saúde, centros de acolhimento para crianças, aconselhamento e terapia genuinamente feminista e lésbica, treinadas e experientes e sem enganação. Precisamos do cérebro, das mãos, da espinha dorsal de todas as lésbicas, em todo o seu amor, habilidade, coragem e raiva.

Nós viemos de muitos passados: fora da Esquerda, do gueto, do holocausto, das igrejas, do casamento, do movimento G, do armário, do armário mais escuro e duradouro sufocamento do amor entre mulheres. Por uma reivindicação feminista histórica de humanidade igualitária, por um mundo livre da dominação através da violência, as lésbicas/feministas se uniram ao conceito mais radical da visão centrada na mulher, uma visão da sociedade cujo o objetivo não é a igualdade, mas a transformação total. Nos últimos anos, as lésbicas/feministas assumiram liderança e responsabilidades em questões que afetam todas as mulheres. Quando estamos totalmente comprometidas com o trabalho, atuando e comunicando com mulheres, a noção de “retirar energia dos homens” torna-se irrelevante; já estamos “ciclando” a energia entre nós [4]. Devemos lembrar que fomos penalizadas, vilipendiadas, e zombadas, não por odiar homens, mas por amar mulheres. O significado do nosso amor pelas mulheres é o que constantemente expandimos.

Pensar sobre hoje e o seu significado me forçou colocar a mim e meus sentimentos absolutamente alinhados. Esta manifestação e algumas mulheres que eu amo, criaram as condições para que pudesse tentar encontrar meu caminho através das complexidades de estar viva, ser lésbica e feminista na América hoje em dia. Desejo a cada uma de vocês o tipo de desafio, argumento e apoio crítico que eu tive, e para todas nós, o tipo de amor que todas nós merecemos.


Notas

[1] E, claro, da destruição psíquica e física de milhares de mulheres por heterossexualidade institucionalizada, no casamento e na busca da sexualidade “normal”.

[2] Uma estimativa cautelosa. A queima das bruxas dos séculos XIV e XVII na Europa foi, sem dúvida, uma forma de backlash antifeminista; e ao desenterrarmos a história feminina nos séculos anteriores, encontramos cada vez mais mulheres identificadas com mulheres e politicamente conscientes.

[3] Ver Agnes Smedley, Portraits of Chinese Women in Revolution (Old Westbury, N.Y .: Press feminista, 1976).

[4] O risco de algumas formas irônicas de “falsa transcendência” deve ser observado aqui. O verdadeiro separatismo ainda não foi definido adequadamente. Algumas “separatistas” gastam uma grande parte da energia em fantasias de violência contra os homens, enquanto esculacham as mulheres que trabalham em instituições dominadas pelos homens, publicam na mídia controlada pelos homens, ou mesmo realizam reuniões e eventos culturais em espaços abertos para homens. O “separatismo” expresso em perseguição psíquica e física de mulheres que não cortaram todos os laços com os homens (incluindo seus filhos do sexo masculino) pode ser um desvio do problema mais grave e difícil, o processo de toda a vida de separar-nos dos elementos patriarcais em nosso pensamento próprio, como o uso de linguagem fálica e o medo de qualquer diferença em relação às nossas posições “corretas”. A mulher cuja psique ainda está fortemente envolvida com um pai, um irmão, um professor ou outras figuras masculinas de seu passado, e que nega o poder que essas figuras ainda exercem nela, pode se recusar a dormir, comer ou falar com homens, ainda assim ser psiquicamente fascinada pela masculinidade. Afastar-se da identificação masculina, da dependência da ideologia masculina, demanda uma verdadeira luta psíquica. Portanto, é continuamente reduzido e tratado como uma posição política rígida, um programa, um ato de vontade. AR, 1978: um separatismo que não é simplista nem rígido começa a ser definido, por exemplo, por Mary Daly em Gyn/Ecology: The Metaethics of Radical Feminism, e por escritores como Marilyn Frye em “Some Thoughts on Separatism and Power” “Em Sinister Wisdom, no. 6, verão de 1978.