O povo brasileiro nas representações da esquerda: quem somos nós e por que(m) lutamos?

Em 2002, a esperança venceu o medo. Em 2013 a esperança traída virou revolta. Essa revolta mal digerida, ao longo dos anos, se transmutou em ódio. E, em 2017, o ódio venceu a esperança.

Texto de Kátia Cajá

Muito já foi dito sobre a famosa polarização política que tomou conta do Brasil nos últimos anos. Mesmo grandes intelectuais se mostram inteiramente perplexos diante desse fenômeno e buscam entender origens, causas, consequências presentes e futuras. Intuem uma ligação disso com um fenômeno mais global de acirramento dos ânimos das massas, que vai da crise econômica de 2008 até a eleição, e talvez futura reeleição, do Trump, e sabe-se lá onde termina – sem no entanto explicar muito bem o nexo entre todas essas coisas.

Sem a pretensão de explicar as mudanças estruturais do capitalismo e como isso se reflete na superestrutura política, proponho começarmos a reflexão pelo caso brasileiro, nos mantendo nas margens da nossa própria história, antes de vôos mais altos. O objetivo deste texto é destacar uma verdade simples sobre quem somos a fim de que ela, colocada bem diante dos nossos olhos, traga mais racionalidade a um debate tão complexificado, e tão anuviado por emoções, que ninguém parece saber mais de que pressupostos está partindo. 

Proponho que há pressupostos ocultos nas falas hegemônicas na esquerda que precisamos, em bom português, desenfurnar

O pecado original: vira-latismo 

O público-alvo deste texto não precisa que eu retome as origens do termo complexo de vira-lata, cunhado por Nelson Rodrigues para explicar a nossa falta de auto-estima enquanto nação. Eu só gostaria de chamar a atenção para o fato de que o vira-lata é, por definição, um cão sem raça por ser resultado de mestiçagem. O vira-latismo brasileiro é, antes de mais nada, um racismo. 

A esquerda brasileira tem muitas maneiras de representar o povo. Seu erro fundamental é se colocar à parte dele, como quem descreve um Outro, e também acima dele, numa postura arrogante – daí derivam todos os demais problemas. 

Se a esquerda brasileira se reconhecesse como o próprio povo em luta por direitos, em vez de uma vanguarda que luta pelo povo por um ato de altruísmo, conseguiria transmitir à parte despolitizada da população que ela também pode se somar e fazer o mesmo, pois a causa é de todos nós. Ao insistir no papel de político, não de povo, e portanto ser reconhecido como uma figura de alteridade, não de identidade, a esquerda brasileira se impõe a posição de minoria, com a qual, a um só tempo, não perde seu status diferenciado nem tampouco transforma a realidade do país para melhor, por falta de braços, recursos, adesão etc. 

Sendo o político, disparado, a figura mais desprestigiada da nação, se colocar enquanto político e não enquanto povo em luta, é não só ter uma arrogância sem fundamento como também se colocar ativamente em posição de descrédito. 

E a esquerda brasileira, não se vendo como povo brasileiro, nem muito menos como um setor dele, representa esse mesmo povo de diferentes maneiras de acordo com a própria conveniência – ou, mais realisticamente, de acordo com como as circunstâncias lhe direcionam o ego. 

Quem é o brasileiro afinal?

No combate à ditadura militar, a esquerda brasileira enxergou no povo um potencial revolucionário que não estava dado pela conjuntura, cometendo um erro de avaliação que matou uma quantidade expressiva de militantes valorosos. Com a redemocratização, o discurso reinante passou a ser que o povo elege os liberais e, se o faz, é um coitado manipulado pela mídia de massas, pela falta de acesso à educação ou, em síntese, pela Rede Globo.

 

Por outro lado, se elege o que vou chamar neste texto de social-democratas, ou o mais próximo disso que já se apresentou a um governo deste país, então o povo é carente de figura paterna e está em busca da redenção em uma pessoa, quando deveria buscar isso em um projeto de sociedade socialista. Mas, verdade seja dita, este foi o momento em que a esquerda chegou mais perto em toda a nossa História de nos representar como um cão de raça: agora sim estaríamos em “um país de todos”, com “mais médicos”, em plena “aceleração do crescimento”, com cotas e bolsas para cuidar dos mais vulneráveis, e capaz de olhar com altivez do seu lugar do mundo junto com outros de posição semelhante – fossem os BRICS, o Mercosul ou os países de língua portuguesa.

Mas o povo que pode ser tudo isso pode também, do dia para a noite, passar a ser encarado de uma maneira totalmente diferente, bastando para isso se mobilizar por fora dos aparatos tradicionais da esquerda institucional. Nesse caso o povo pode ser, na melhor das hipóteses, direcionável pela vanguarda em seu potencial revolucionário. Mas, na pior, deve ser resumido a uma classe média com horror a pobres e negros

E, entre esta caracterização do povo e a próxima, há uma lacuna. De um salto, o país inteiramente composto por uma classe média racista (e iludida sobre a sua posição na pirâmide social) passa a ser um país inteiramente composto pelo seu interior rural, atrasado, desescolarizado, católico e, mais do que tudo, autoritário. Não bastassem todos os preconceitos da herança escravagista somada à herança católica, sabidamente machista e homofóbica, seríamos um povo violento, agressivo, punitivista etc. 

Diante dessa descoberta chocante sobre qual seria a nossa verdadeira natureza, há quem tenha saudades dos tempos em que as coisas eram perfeitamente previsíveis, e o povo era mansamente domado pela Globo. Ah, como era doce acreditar que o brasileiro era um ingênuo manipulado! Mal sabíamos nós que é na verdade um monstro vil, e bom seria ter morrido antes de descobrí-lo…! 

Neste momento, eu gostaria de te lembrar qual nacionalidade consta nos seus documentos e te levar a se perguntar o que te autoriza a não se sentir atingido quando fazem essas generalizações sobre ao povo ao qual você pertence. 

Se quiser saber quem é o brasileiro, pergunte-se quem é você

Meu caro interlocutor e militante de esquerda: você é um manipulado manso? Um carente de figuras messiânicas? Um ativo útil, porém descartável, na construção do socialismo? Um paneleiro de camisa da CBF? Um miliciano, ou partidário de milicianos? Ou pior: um santo mártir pelo Justo e o Bom que está acima de tudo isso? 

A resposta é nenhuma das anteriores (não, nenhuma das anteriores, sinto muito) e ela vale para a totalidade do país. Não porque não tenhamos paneleiros nem milicianos, mas porque nenhum brasileiro, por caricato que pareça, pode ser resumido a isso: todo brasileiro é síntese das diversas forças se tensionando na conjuntura daquele momento. Se bem que, embora tenhamos paneleiros e milicianos, definitivamente não temos revolucionários heróicos flutuando, como gosto de dizer, à parte e acima da população. Temos burgueses e temos os demais 99%: você pode fazer parte dos 99% e estar lutando na esquerda em causa própria, em vez de pelos pobres inferiores que te cercam, porque transformar a realidade deste país faz sentido pra você, que vive nela e não gosta dela. Ou você pode estar no 1% e, nesse caso, deve bater em retirada.

A obviedade prometida na introdução a este texto

Longe de querer chegar numa verdadeira essência do povo brasileiro, proponho entendermos a polarização na política nacional contemporânea a partir de um dado que, me parece, deveria ser óbvio. Qual seja: a sociedade brasileira é composta por diversos setores, incluindo liberais, conservadores, social-democratas, socialistas etc, que têm se alternado no poder numa velocidade estonteante. 

Esses setores, e outros que não estou mencionando, sempre nos compuseram e sempre conviveram, sendo o Brasil uma síntese de tudo isso. Como sintetizar as rachadinhas e o Bolsa Família, o confisco da poupança e o MST, o Plano Real e os assassinos de aluguel é uma tarefa hercúlea, o resultado dessa síntese é extremamente complexo, multifacetado e, bom, pouco coerente. Mas a coerência se forja no tempo e na luta, não na proposição de um modelo imaginado e na imposição dele como verdade.

Neste país criança, de menos de 200 anos de independência, o povo tentou diversos dos caminhos que se apresentaram a ele. Tentou o neoliberalismo respeitável, que fala francês, não parece uma besta-fera, mas esmaga a parte mais pobre da população ao privá-la de qualquer assistência estatal. Por muito tempo, e então, cansou. Depois, tentou a social-democracia, e foi cruelmente traído pelos seus representantes quando exigiu que ela cortasse os laços com a burguesia e desse mais ao povo, que entregasse tudo que prometeu – e que de fato tinha condições de dar. 

No fracasso da social-democracia, mas ainda com a lembrança vívida do horror neoliberal, tentou agora o autoritarismo – esse, um horror cuja lembrança está menos vívida e que, de qualquer forma, não se apresenta como uma repetição, mas como uma reedição eleita, com data para acabar (4 ou 8 anos) e, em último caso, possível de depor. É terrível que tateemos ao longo da História na base da tentativa e erro, e da eliminação. O preço por este erro está sendo terrível, e infelizmente muitas vidas estão se perdendo por conta disso. Mas onde foi diferente? 

Não basta dizer “eu avisei” quando nenhuma alternativa plausível foi colocada à mesa. Como disse, o povo tentou diversos dos caminhos que se apresentaram a ele, só não pode tentar os caminhos que não se apresentaram. E, ao se encastelar em organizações desenraizadas da base, a esquerda não se apresenta como alternativa, ou pelo menos não como alternativa factível. 

Um futuro bonito possível

Sendo assim, é na construção humilde e cotidiana de uma alternativa socialista que mora o nosso futuro. Os social-democratas se enraizaram na base e, com isso, chegaram ao poder. Como não corresponderam às expectativas, estão sendo duramente punidos. Agora cabe a nós, um setor da sociedade que ainda não soube chegar ao poder, ladrilhar o caminho até ele. 

A alternativa autoritária está, mais uma vez, se mostrando inviável, e não há nenhum motivo para acreditar que ela se estabilize no poder por ser A Legítima Expressão da Verdadeira Natureza do Povo Brasileiro (“pelo qual eu nem devia me dar ao trabalho de lutar, pra início de conversa”, muita gente está pensando por aí). O que virá depois? A resposta depende, em boa parte, da nossa capacidade de nos amarmos, lutarmos por nós mesmos e reconhecermos uns nos outros a nossa miséria comum, os nossos potenciais tolhidos e a nossa força para colocá-los em ação.

A única saída possível é olharmos para a nossa realidade, o que queremos transformar nela, nos associarmos com nossos pares e somar forças. O que é radicalmente diferente de pensar no que funciona para atrair mais gente: panfletagem, sarau, roda de conversa ou redes sociais? Enquanto o debate for por aí a gente está perdido.

Em 2002, a esperança venceu o medo. Em 2013 a esperança traída virou revolta. Essa revolta mal digerida, ao longo dos anos, se transmutou em ódio. E, em 2017, o ódio venceu a esperança – em dois sentidos. 

Não só no sentido óbvio de que saímos de uma tentativa de “um país de todos” para uma tentativa de recomeçar exterminando a parte mais pobre da população de forma sumária, sem direito a defesa, julgamento, pena justa e proporcional ao crime. Basta ser “suspeito”. 

O ódio também venceu a esperança num segundo sentido: ao se sentir traída pelo povo ao qual pretensamente não pertence, a esquerda passou a demonstrar seu verdadeiro ódio por ele, expresso em “eu avisei”, “bem feito”, “quero mais que morra tudo de coronavírus”, “faz arminha com a mão que passa”. 

Nós, que já sabemos que o Brasil não se resolve matando os negros e pobres, e sim os donos de helicópteros com meia tonelada de cocaína, deveríamos saber também que o ódio e a arrogância jamais levarão a uma sociedade melhor. 

Não há saída de curto prazo, não tomaremos o poder de assalto após um impeachment, ou nas próximas eleições. Esse fato só desanima uma esquerda eleitoreira: sedenta por poder e para a qual ele só serve se for obtido de forma imediata. O que deve nos animar, camaradas, é o que podemos fazer uns pelos outros hoje, os laços de solidariedade de classe que podemos construir, as alternativas que podemos elaborar juntos, e o crescimento paulatino desses projetos. É daí e só daí que pode nascer uma sociedade melhor, neste e em qualquer país. 

Na inexistência de raças humanas, apenas do racismo, este é um país tão bom quanto qualquer outro no qual olhar nos olhos das pessoas, reconhecer as próprias dores neles, dar as mãos e construir alternativas de poder juntos, paralelamente ao Estado e, talvez, disputá-lo após uma maturação disso. E este é um povo tão digno de viver quanto qualquer outro, que não merece a morte, o colapso do SUS, as execuções sumárias cometidas pela PM e assim por diante. 

Respondendo à pergunta do título, se somos de esquerda, somos o povo e lutamos por nós mesmos. E venceremos!

Não sabemos de quem é a autoria dessa imagem. Ficaremos felizes em dar o crédito se alguém informar