Navegar é preciso

A Barca do Medusa, de Theodore Géricault

Este texto é resultado de uma experiência iniciada em fins de abril, em plena quarentena, que consiste em uma luta quixotesca contra as limitações do Facebook. A experiência ainda está em andamento e o texto está em aperfeiçoamento, de modo que sua versão final deve ser lançada quando o projeto completar um ano. Esta publicação inicial tem o objetivo de tornar público o debate e provocar outras contribuições de pessoas interessadas, sendo assim parte do próprio projeto de desenvolver uma crítica mais consistente ao Facebook e às redes sociais.

Relato de uma guerrilha contra o Facebook

O algoritmo do Facebook esconde as publicações do tipo informativo, crítico ou reflexivo e não as distribui para os amigos, portanto elas não aparecem no feed das pessoas, o que significa que não têm engajamento, não tem reação, quase ninguém curte, comenta ou compartilha. Ao contrário, o algoritmo distribui no feed das pessoas, preferencialmente, coisas como imagens da vida pessoal, gifs com animais fofinhos, publicações com teor de comédia, etc. Já faz muito tempo que eu estou revoltado com a inutilidade do Facebook para a divulgação de qualquer tipo de conteúdo reflexivo, ao mesmo tempo em que ele mantém cada vez mais a atenção e o tempo das pessoas sob seu controle.

Por isso, resolvi fazer uma experiência na minha página pessoal, que é privada, publicando a cada dia um pacote de links para os textos e publicações do tipo crítico/reflexivo/informativo que eu compartilhei na minha linha do tempo de forma avulsa no dia anterior, mas acompanhados de uma selfie. Como era de se esperar, os textos publicados em separado seguem sem ter quase nenhuma reação, mas quando publicados no dia seguinte, numa lista de links acompanhada de uma selfie, essa publicação sempre tem alguma repercussão, algumas curtidas e às vezes alguns comentários. Quem quiser acompanhar a experiência, terá que dar um jeito de descobrir o meu perfil pessoal, já que eu assino com pseudônimo, mantenho o perfil privado e só adiciono pessoas sob determinados critérios.

O desenvolvimento dessa brincadeira, de abril até agora, originou algumas reflexões, que foram se acumulando na forma de um texto, que está sendo agora publicado. Como exposto acima, a ideia é que essa guerrilha prossiga por mais um ano, ao longo do qual mais reflexões vão ser acumuladas e o texto vai ser aperfeiçoado. Desde o início dessa experiência, os comentários de amigos já me sugeriram outros textos sobre esse tema, além de dicas de navegação, aplicativos e outros tipos de contribuições para um uso menos limitado da internet, cujos links estão listados também, depois do texto, na forma de um anexo. Até o momento, o texto se compõe de 15 observações críticas sobre o funcionamento Facebook, que eu estou aberto a ir desdobrando e completando conforme surgirem comentários e críticas de quem se interessar.

Não acho que seja possível a essa altura derrotar o Facebook ou mudar o comportamento dos usuários. Ou seja, estamos cientes de que a guerrilha não vai sair de Sierra Maestra. Ainda assim, não vão nos tirar daqui, e seguiremos resistindo nessa aldeia de Asterix. Até o momento, a guerrilha tem alcançado três objetivos bem mais modestos: primeiro, servir como registro dia a dia do que eu estive estudando, para poder ser eventualmente pesquisado, no futuro, por data; segundo, servir como experiência para ir testando todos os dias os limites e funcionamento do Facebook e refletir sobre eles; e terceiro, servir como forma de debater com pessoas que por acaso se interessarem pelo tema e quiserem acrescentar suas percepções a esse estudo. Aliás, o próprio título do projeto foi tirado de um comentário de um amigo, que eu incorporei por entender que sintetiza muito bem o espírito do que seria uma proposta de saída, na medida em que alguma saída seja possível.

Teses críticas sobre o Facebook

1. O Facebook é uma empresa, ele existe para dar lucro. O lucro do Facebook vem da venda de anúncios segmentados: ele seleciona “pacotes” de milhares ou milhões de usuários que expressam determinadas preferências, para anunciantes que poderão ter seus anúncios distribuídos no feed dessas pessoas, devidamente segmentadas conforme tais preferências. O Facebook existe para garimpar essas preferências, mapeando o que os usuários de sua imensa base de bilhões de contas publicam e como interagem.

2. Para ser capaz de fazer isso, o Facebook ajusta seu algoritmo para privilegiar publicações que permitam a expressão das preferências mercantilizáveis, e boicotar os demais tipos de publicações. O algoritmo privilegia fotos, imagens, selfies e cenas da vida pessoal, passeios, viagens, jantares, encontros familiares, etc., e boicota textos, notícias, reflexões, etc. Embora esse tipo de publicação também sirva para indicar que tipos de anúncios direcionados podem interessar a essa parcela dos usuários que os compartilha, eles não são distribuídos, ou são numa escala muito menor. Links para textos críticos, reflexões, reportagens, etc. quase não aparecem no feed das pessoas; quando são compartilhados, são distribuídos para muito poucos amigos, não recebem interação, etc.

Nesse sentido, não se trata apenas de que a maior parte dos usuários não compartilha publicações de conteúdo reflexivo, mas de que mesmo as publicações que chegam a ser compartilhadas são distribuídas numa escala proporcionalmente menor. Não se trata apenas do fato de que o Facebook tem uma preferência ideológica por imagens de uma vida feliz (como se as pessoas fossem realmente felizes), mas da questão mais prosaica de que a plataforma precisa que os usuários permaneçam conectados a ela pelo maior tempo possível. Por isso, links que levam para outras áreas da Internet são boicotados. O algoritmo propositalmente reduz a sua circulação.

O interesse do Facebook é que os usuários permaneçam a maior parte do tempo conectados na sua plataforma, sujeitos pelo maior tempo possível aos conteúdos mais irrelevantes e ao mesmo tempo os mais sensacionalistas possíveis. O usuário deve ser seduzido para continuar numa busca permanente por risos fáceis e sensações esquecíveis, que não deixem nenhuma lembrança, preocupação ou reflexão, mas deixam apenas a vontade permanente de tentar rolar o feed interminavelmente em busca de doses cada vez maiores do mesmo.

3. Além desse interesse puramente comercial em evitar que os usuários naveguem por outras áreas da internet (que poderiam assim “roubar” a sua publicidade), o aplicativo precisa apresentar perante os órgãos governamentais que regulam as comunicações a ideia de que a plataforma é neutra e não seleciona os conteúdos em favor de determinadas posições políticas e ideológicas. É claro que a rede precisa exercer algum tipo de controle, por conta de potenciais usos criminosos, mas isso é objeto de outro ponto. Aqui a questão é que o Facebook precisa evitar ser classificado como um emissor de conteúdo, como se fosse alguma espécie de jornal ou portal, e para isso precisa aparentar que seu conteúdo é neutro e aleatório, selecionado pelos próprios usuários.

A importância disso tem a ver com as regulamentações fiscais e legais de cada país para empresas como emissoras de TV, portais jornalísticos, etc. Por isso, devido a pressões políticas e legais nos Estados Unidos, houve um ajuste no algoritmo em 2016 para privilegiar publicações da vida pessoal e minimizar compartilhamento de conteúdos originados em veículos de imprensa; e o resultado disso foi a eleição de Trump: as versões estadunidenses do tiozão do pavê inundaram o Facebook de notícias falsas, teorias conspiratórias, insultos, etc., na mesma medida em que as publicações originadas dos veículos de imprensa profissional desapareciam.

4. Como toda mídia que se baseia em publicidade, o Facebook depende de audiência, ele precisa que os usuários permaneçam conectados, para que sejam expostos aos anúncios patrocinados. Para que fiquem conectados, ele precisa que algo chame a atenção, precisa de alguma dose de sensacionalismo. Do sensacionalismo para o extremismo, o passo é muito curto: páginas e grupos que divulgam ideias radicais, tanto reacionárias quanto revolucionárias, são também aceitos na rede. Mas às vezes, algumas dessas páginas ultrapassam certos limites, infringem os chamados “padrões da comunidade”, e precisam ser excluídas. Assim, o Facebook precisa de alguma dose de sensacionalismo, mas precisa constantemente fazer uma faxina em algumas páginas, para fazer de conta que mantém a ordem.

A fiscalização ativa do próprio Facebook é muito deficiente, ele não tem como observar os conteúdos compartilhados por seus bilhões de usuários, atuando em milhões de páginas diferentes, por isso ele depende de denúncias dos próprios usuários contra conteúdos ofensivos, ultrajantes e criminosos veiculados por outros perfis e páginas. Conforme a luta de classes se agudiza no planeta e se aprofunda a polarização política, as redes sociais se convertem em um campo em disputa entre forças militantes dedicadas a denunciar as páginas e perfis rivais, tirá-los do ar, derrubá-los de maneira temporária ou definitiva, e ao mesmo tempo, tentar alavancar as próprias posições radicais de forma disfarçada.

5. Operações industriais de difusão de notícias falsas, teorias conspiratórias, insultos, etc., por meio de perfis automáticos (bots) e semi automáticos, já foram sistematicamente expostas em muitos países, atuando no Facebook e outras redes, como o Whatsap (da mesma empresa), Youtube, Twitter, etc. O debate sobre as chamadas “fake news” acabou de certa forma legitimando o próprio Facebook como o árbitro definitivo sobre as questões do que é aceitável no debate ou não, na medida em que os próprios usuários demandam soluções. Cada um dos dois times comemora quando o outro lado tem páginas e perfis derrubados pela empresa proprietária da rede.

Com isso, não se percebe que o próprio Facebook se legitima como árbitro definitivo nessas questões. Não é mais o Estado que legisla, mas a própria empresa privada que se auto-regula sobre o que é censurável e o que é publicável. Um certo bom-mocismo liberal sobre o que é politicamente correto acaba se impondo, e ao mesmo tempo, uma espécie de monopólio do Facebook sobre a esfera pública do debate político. Quem não está no Facebook e nas redes de modo geral, não existe politicamente. E inversamente, para existir politicamente, é preciso seguir as regras do jogo do Facebook, atuar conforme a sua lógica de busca de audiência por meio de mais engajamento, mais mobilização, e portanto, mais sensacionalismo e menos debate de conteúdo.

6. Dessa forma, o debate de ideias foi substituído por ofensa pura e simples, intimidações, repetição para cansar o adversário, falácias ad hominen, etc. Sintomaticamente, esses métodos são empregados não apenas pelos reacionários, mas também pelos ditos progressistas. A cultura da “lacração” e do “cancelamento” transformou a militância numa fiscalização histérica da moral alheia. Cada declaração, cada imagem, cada detalhe do perfil adversário deve ser vasculhado em busca dos mais mínimos indícios e nuances de desvio, de deslize, que possam dar ensejo a uma campanha sistemática de escracho e vilipêndio. Não existe mais meio termo, matizes, ressalvas, ponderações; as ideias e as pessoas devem ser aceitas ou rejeitadas em bloco: ou estão do meu lado ou estão contra mim, ou recebem um “amei” ou um “grrrrr”. Não existem o “mas”, “porém”, “contudo”, “entretanto”, “apesar”.

Nesse tipo de prática “política”, desaparecem a luta de classes, a transformação sistêmica, as questões estruturais, a história em transformação, o capitalismo, a alienação, a dominação social como uma totalidade; tudo isso é substituído por uma disputa entre perfis, imagens, declarações, performances mais ou menos aceitáveis, mais ou menos curtidas. A construção de formas de organização coletiva para a ação é substituída pela construção de perfis em disputa por audiência, por projeção, por visibilidade, adquiridas às custas da destruição de reputações alheias.

7. Essas consequências mais danosas da interação no Facebook se reforçam conforme ele estende seu controle sobre os hábitos e comportamentos das pessoas no seu uso da internet. A possibilidade do Facebook privilegiar publicações da vida pessoal e anúncios patrocinados só existe por causa do hábito que ele mesmo cultiva de que as pessoas se contentem com aquilo que “cai” no seu feed e não se dêem ao trabalho de vasculhar o próprio Facebook em busca de coisas interessantes, perfis pessoais, páginas, grupos, eventos, etc. O feed de notícias estimula a preguiça mental. Ele acostuma as pessoas a receber passivamente as publicações que “surgem” em cascata e não buscarem ativamente outras publicações.

8. Dizer que as publicações “surgem” entre aspas é importante para ressaltar a falsa aleatoriedade dos conteúdos do feed. Essa falsa aleatoriedade existe para dar uma sensação de diversidade, que não é real, pois os conteúdos são propositadamente restritos pelo algoritmo. Para constatar isso basta contabilizar quantos amigos cada usuário tem no total e com quantos realmente se interage. No momento desta publicação, estou com 487 amigos no meu perfil pessoal, mas as minhas publicações aparecem sempre para as mesmas 20 e poucas pessoas, que são as únicas que interagem, e também são quase sempre as mesmas cujas publicações eu vejo no feed. Periodicamente, o algoritmo recicla essa lista restrita, retira algumas pessoas e inclui outras, mas não altera o seu número, não expande o alcance das interações. Da mesma forma, em relação às páginas curtidas, eu tenho uma lista com várias centenas de páginas, mas recebo somente publicações de um grupo também muito restrito, de duas ou três dezenas.

9. Outro elemento que esconde uma falsa aleatoriedade é o dos critérios de relevância. Quando se acessa o Facebook em dispositivo do tipo notebook ou CPU (se é que esses ainda existe), o feed de notícias é sempre e a cada acesso reorganizado para que apareçam as publicações “mais relevantes”. Para mudar isso, o usuário tem que selecionar as “mais recentes”, para conseguir uma outra seleção. Quando acessar novamente, porém, o feed estará outra vez automaticamente reconfigurado para as “mais relevantes, e o usuário terá que reconfigurar novamente, e assim por diante. Outro lugar em que aparece o critério de “mais relevante” é na seleção de comentários, nas publicações que têm muito comentários (seja via dispositivo móvel ou não). O usuário tem então que selecionar a opção “todos os comentários” para poder visualizar a discussão inteira. A questão que fica, nesse caso é: mais relevante segundo quem? Segundo o próprio facebook, claro. O usuário não tem o poder de decidir o que considera relevante, e é obrigado a selecionar manualmente a cada vez a opção que exibe resultados completos, se não quiser ficar dependente dos critérios nebulosos da plataforma.

10. A experiência de interação é extremamente frustrante, já que tende a ser repetitiva, mas a frustração é anestesiada por um outro artifício: a compulsão de seguir rolando o feed. A estrutura do feed estimula a compulsão em busca de novas publicações, algo que seja mais interessante, mais engraçado, mais impactante. Com isso também diminui o engajamento das pessoas com conteúdos críticos, pois os usuários não param para ler textos no meio da rolagem do feed; no máximo lêem as manchetes e seguem adiante, sempre à procura de algo mais, que nunca surge, nunca satisfaz.

11. Aliás, compartilhar notícias e textos pode dar uma falsa sensação de conteúdo: a pessoa compartilha um link, que vai acompanhado de uma imagem e uma manchete (muitas vezes também chamativa, mas desmentida pelo conteúdo da matéria), como se isso fosse o equivalente a compartilhar o conteúdo todo. Compartilhar uma manchete acompanhada de uma imagem pode ser como se fosse um argumento de autoridade ou carteirada virtual, pois não significa que o usuário realmente leu o que está compartilhando. Como se não fosse preciso ler o que está sendo compartilhado, comentar, destacar o que concorda ou o que discorda. É como se a manchete e a imagem já devessem dizer tudo, sem que fosse efetivamente necessário ler o texto. Os próprios veículos de comunicação estão tão acostumados a isso que muitas vezes dão a opção de “continuar lendo”, logo depois do início, como se o texto devesse entregar a mensagem essencial em um ou dois parágrafos e o restante do texto fosse supérfluo ou dispensável. Ou simplesmente fazem textos curtíssimos. Na verdade, texto longo, ou “textão” virou uma espécie de xingamento.

12. A expectativa de encontrar algo interessante se combina também com uma outra compulsão, que é a de receber notificações. O Facebook mantém uma contagem permanente de interações relacionadas com as publicações com as quais o usuário está ligado. A notificação estimula o usuário a permanecer conectado e buscar saber quem interagiu, buscar mais notificações, mais curtidas, etc. A contagem de curtidas, comentários, compartilhamentos, interações em geral, funciona como uma recompensa emocional, um reforço positivo. A recompensa emocional da contagem de notificações substitui a gratificação resultante do próprio conteúdo: nem é mais importante o valor da publicação em si, mas quantas curtidas ele teve. A interação quantitativa substitui a qualitativa, mas o mero acúmulo de números não traz nenhuma satisfação real, por isso é sempre preciso buscar mais interações, mais notificações, mais números. O Facebook se torna assim extremamente viciante.

13. Na ânsia de obter uma diversidade maior ou mais interações significativas, os usuários do Facebook criam as “correntes”, que são publicações que vêm com o pedido de que sejam compartilhadas com um certo número de amigos, que por sua vez deverão também fazer o mesmo, multiplicando assim o alcance. Algumas correntes, por sua vez, divulgam a promessa de que podem burlar ou resetar o algoritmo e devolver a diversidade ao feed, o que na verdade não acontece. Essas correntes, apesar de terem um efeito temporário de trazer mais diversidade ou interação, não passam exatamente disso, de um efeito temporário, que não é capaz de modificar de fato o funcionamento do algoritmo e obrigá-lo a reintroduzir um número maior de amigos e de páginas.

Além disso, a intenção por trás das correntes é em si mesmo limitada, porque pretende continuar presa ao comportamento passivo de esperar que algo diferente venha automaticamente no feed. O usuário se ilude na espera de que o feed possa ser melhorado, ao invés de encarar o desafio de navegar de maneira autônoma e ativa em busca de outros perfis, outras páginas, outras redes sociais, outros espaços da Internet. As correntes são portanto uma tentativa de escapar do algoritmo, mas que na prática reproduzem o comportamento passivo de espera, como se o Facebook pudesse ser reprogramado digitando-se alguma “palavra mágica”. Ele não pode, e não é tão simples se livrar das suas limitações.

14. No Facebook nada se cria e tudo se perde. A estrutura da linha do tempo é um poço sem fundo onde as publicações são empilhadas em sequência e vão desaparecendo sem possibilidade de utilização posterior. O registro de atividade vai indexando todas as publicações e interações do usuário, mas de maneira puramente cronológica, sem critérios de classificação, extremamente precária e difícil de ser acessada. Não há hierarquização ou categorização das publicações, tudo se mistura: imagens da vida pessoal, memes, conteúdos artísticos, publicações jornalísticas, reflexões, etc., tudo fica misturado numa sequência cronológica direta e sem classificação. Essa estrutura fragmentária reproduz a mesma fragmentação de um telejornal, em que os resultados do futebol são mostrados logo depois de imagens da fome na África ou de um terremoto no México. Não se tem uma articulação entre os conteúdos, uma hierarquização entre eles, nem muito menos uma imagem totalizante e que faça sentido.

A única forma de recuperar alguma publicação passada é por meio de uma busca de palavras chave, que o usuário é obrigado a conseguir lembrar de antemão se quiser recuperar. Dessa forma, uma página de perfil pessoal do Facebook não serve como uma verdadeira página pessoal, um site pessoal. A sua função não é verdadeiramente servir como um documento ou arquivo pessoal do indivíduo, mas fazer esse indivíduo desaparecer em meio a um fluxo interminável de publicações. O Facebook não serve ao usuário senão para consumir seu tempo, e o usuário serve ao Facebook para produzir dados.

15. Aos poucos o Facebook vai estendendo seus tentáculos, buscando incorporar cada vez mais esferas de atividade à sua teia: vídeos, transmissões ao vivo, grupos de compra e venda, marcação de eventos, grupos de discussão, fã clubes, etc. Com isso, voltamos a um aspecto já mencionado, o do estímulo à preguiça mental por meio de uma falsa aleatoriedade que simula a diversidade e estimula a postura passiva do usuário. Isso funciona internamente ao Facebook (o usuário não é estimulado a navegar por muitos perfis, páginas, grupos, etc., mas ao contrário, se acostuma a receber tudo no feed) e ao mesmo tempo expressa a substituição do conjunto da Internet pelo Facebook. Ninguém navega mais na Internet, só recebe as informações no feed do Facebook. Não se usam mais portais, e-mails, blogs, etc., apenas se espera receber o conteúdo pronto e compartilhar.

A Internet, antes um campo de experimentação, colaboração, compartilhamento, se transformou num território colonizado por um oligopólio capitalista formado por Facebook (que também é dono do Instagram e Whatsapp), Google (que é dono do YouTube) e Amazon, que concentram em si praticamente todas as interações na rede, disputando ferozmente formas de monetizá-las. O que estamos vendo nessas características do Facebook, podemos concluir, é a morte da Internet. Ela continua existindo, apenas como uma espécie de plataforma de suporte, mas deixou de existir como um campo de possibilidades em aberto.

Anexos

Conforme a guerrilha se desenvolvia, alguns amigos comentavam pedindo ou sugerindo dicas de leituras, páginas, sites, aplicativos, etc., que pudessem proporcionar algum tipo de experiência de navegação menos frustrante e limitada. Essas sugestões foram compiladas neste anexo, de forma completamente improvisada, despretensiosa, amadora, conforme se acumulavam, já que eu não sou profissional de comunicação, apenas um usuário comum, mas atento. Assim como o próprio texto, ou até mais do que ele, a lista a seguir está sujeita a ser aperfeiçoada e complementada, ao infinito, na verdade, caso surjam mais sugestões.

1. Clínica de descontaminação digital: textos críticos sobre internet e redes sociais (em ordem cronológica de quando tive oportunidade de ler).

a) texto sobre a história da Internet e como ela foi controlada pelo capital (o melhor que eu já li até agora sobre o tema).

b) A perda da comunicação não verbal torna as videoconferências mais cansativas.

c) Chega ao Brasil um movimento que informa às empresas que seus anúncios estão aparecendo em sites e canais de notícias falsas. Nos Estados Unidos isso ajudou a drenar o financiamento dos sites neonazistas, supremacistas e conspiracionistas que trabalham para o Trump. Vamos ver o resultado aqui.

d) Documentário disponível na Netflix mostra como a Cambridge Analítica usou dados de usuários do Facebook para criar propaganda direcionada individualmente aos usuários e campanhas baseadas em notícias falsas, absurdos conspiratórios e ideias reacionárias, ajudando a eleger Trump em 2016. Mesmo método usado no Brasil desde 2018.

e) Estudos comprovam que a leitura de material impresso exige maior esforço de concentração e por isso favorece o desenvolvimento da atenção e do raciocínio; enquanto a leitura em meio digital favorece a dispersão.

f) Sobre as artes que requerem a presença física, sua interrupção durante a pandemia e a perda histórica da sensibilidade que a acompanham.

g) Texto resgatado por uma amiga no Facebook, mostrando como os meios de comunicação formatam todas as respostas possíveis aos eventos como um “contra” e “a favor” puramente quantitativo e com isso anestesiam as consciências para as reflexões e respostas qualitativas necessárias diante de uma realidade que já desliza aceleradamente na barbárie.

h) Importante! Depois do vazamento de dados pessoais de militantes, ativistas e simpatizantes antifas por um deputado da base do Bozo, circulou esse guia com informações sobre prevenção e segurança de dados on-line e nas redes sociais.

i) Empregos festejados com uma aura de glamour, como os que misturam publicidade e tecnologia da comunicação, também escondem a super exploração de trabalhadores.

j) Nas redes sociais todo mundo é meio olavista: só quer saber de ganhar a discussão, não de estabelecer um diálogo real ou adquirir e difundir conhecimento.

k) Sobre a importância de tentar, na medida do possível, manter a privacidade na internet.

l) Vida sem contato físico, sem beijo, abraço, aperto de mão, sexo, encontro presencial, não é vida, e sociabilidade digital é uma excrescência, uma esmola miserável e uma forma de exploração.

m) Os mecanismos que os aplicativos usam para nos deixar viciados, alterando hábitos e comportamentos e nos deixando cada vez mais sob controle dos grandes monopólios da tecnologia.

n. Quando as pessoas substituem militância real para transformar a realidade por caça às bruxas moralista e linchamento virtual, amplificado em escala colossal pelas novas mídias, em busca de auto congratulação e popularidade, os estragos são imensos para quem estiver pelo caminho, e para as próprias causas que esses fanáticos dizem defender

https://www.bbc.com/portuguese/geral-53458452

2. Bibliotecas e videotecas

a) Biblioteca brasiliana USP.

b) Z Library – biblioteca de ebooks.

c) Apar TV – Filmes raros em francês.

d) Livros de autores latino-americanos.

e) Videoteca com filmes e documentários sobre luta de classes criada pelos anarquistas da FOB.

f) Compilação de publicações de ciências humanas sobre o tema da pandemia.

g) Biblioteca sobre teoria marxista da dependência.

h) Cineteca para raros – videoteca de filmes raros e de arte.

i) Mais uma biblioteca de inspiração anarquista.

j) Drive com textos sobre a ditadura militar organizados por temas.

k) Livros da coleção Revoluções do Século XX disponíveis para baixar.

3. Aplicativos e utilidades

a) Voice Aloud Reader – para leitura de textos, sejam arquivos em pdf ou links compartilhados diretamente da internet no aplicativo. As pessoas me perguntam como eu consigo ler tantos textos; na verdade eu uso fone de ouvido enquanto faço as tarefas domésticas e o aplicativo vai lendo pra mim.

b) Jitsi Meet – para reuniões em videoconferência, seja no computador ou celular, comportando mais de 20 participantes. É mais seguro do que outros aplicativos em matéria de segurança, não passa informações dos usuários para o Google, outras empresas ou governos

c) Yout e 10- – Para baixar vídeos ou áudios do YouTube. É preciso acessar pelo navegador, não pelo aplicativo do YouTube, e copiar a URL do vídeo. Depois é preciso alterar manualmente no teclado a URL, apagando as letras “ube” no caso do Yout ou adicionando 10- no caso do outro aplicativo, e deixar o restante da URL intacta

d) Outline – Site que abre matérias de publicações exclusivas para assinantes (pay wall), sem que você tenha que pagar.

e) ProxySite – Site que abre matérias de publicações exclusivas para assinantes (pay wall), sem que você tenha que pagar.