Popularidade do governo do miliciano: entender para combater

Esse aumento da aprovação do Bozo não foi nada inacreditável, apesar de ser inesperado (pelo menos pra mim). Voltou mais ou menos ao patamar de depois da eleição. Pra mim, o fator principal foi que se dissipou a crise do coronavírus, ou seja, as pessoas se acomodaram à situação (o porquê dessa acomodação eu não sei explicar, mas acho que passa por um sentimento geral de irresponsabilidade e imediatismo disseminado entre o povo).

Na época, eu disse que entendia o raciocínio do Rodrigo Maia de querer esperar o fim da pandemia pra começar o processo do impeachment, mas que eles poderiam acabar perdendo a oportunidade ao fazer isso. Parece que foi o que aconteceu.

Além disso, a esquerda está atomizada em casa sem fazer atos de rua que possam mudar a opinião pública (aconteceram somente pequenos atos de vanguarda, como os dos entregadores e os protestos contra a violência policial). Isso é uma coisa que eu acho que é obrigatório corrigir a partir de setembro.

O outro fator importante foi o auxílio emergencial. Sobre isso, tem alguns pontos:

O principal: o auxílio é temporário. Depois que ele acabar (e quando as manifestações voltarem) é que a gente vai poder ver o real tamanho do problema.

Algumas pessoas estão chamando os pobres que recebem o auxílio e apoiam o Bozo de burros. Eu concordo. Tô falando isso porque tá rolando um raciocínio coitadista assim: “ah, a sobrevivência em primeiro lugar, você chama eles de burros porque tem o que comer”.

Você precisar do auxílio emergencial é porque você é pobre. Você admirar o político que tá no governo por causa disso é porque você é burro. A gente tem que parar de ser condescendente a ponto de achar que o pobre não tem capacidade de entender que um político tá tomando alguma medida pra se dar bem depois (nem é o caso aqui, o Bozo queria um auxílio de 200 reais, e realmente quem não acompanha as notícias não sabe, mas também não acho que alguém no Brasil seja tão ingênuo a ponto de achar que político é bonzinho).

Infelizmente, o que existe no Brasil é uma mentalidade clientelista sim, que é burrice e um pouco de mau caratismo. Hoje, por exemplo, quando eu tava no ônibus, eu vi um monte de gente fazendo um mutirão de limpeza em Belford Roxo junto com algum candidato, certamente pensando nas vantagens que vão tirar se ele for eleito.

Não adianta querer mudar a sociedade achando que as pessoas são simples reflexos da situação social em que vivem. É preciso que nós das classes populares repensemos as nossas próprias atitudes, sem isso não pode surgir uma ética para sustentar as mudanças. Uma dessas atitudes é chupar rola de político em troca de favores.

Um programa de renda mínima não é compra de votos. Mas muitas vezes uma parte da população que precisa dele age como se fosse. Por isso que, por exemplo, nunca acreditei na demagogia de quem dizia que o cara que recebia bolsa família e votava no Lula era por consciência.

Diante disso, eu acho que não é momento de pânico. 40% da população sempre vota na direita. O problema não é a direita ter base social. O problema eleitoral é que a centrodireita não consegue ter um candidato viável e que o PT e os satélites dele querem ganhar na base da nostalgia pelo Lula, que há muito tempo é minoritária, como eles deviam ter percebido em 2018 (mas não perceberam).

Quem não tem uma perspectiva eleitoral, como é o meu caso (não tenho vergonha de dizer que o único caminho pra mudar o Brasil é pela via revolucionária), não tem que ficar em pânico porque 40% da população vota na direita. Tem é que pensar como aumentar a capacidade de ação e organização e consciência dos 25% a 30% que votam na esquerda e/ou têm valores de esquerda, para que esses exerçam influência sobre a maioria da população.