A Ilusão Queer

A solidez teórica do movimento queer não se diferencia da do terraplanismo

Um espectro ronda o Ocidente. Dawn Butler, secretária de Mulheres e Igualdade do Partido Trabalhista britânico, declara que “os bebês nascem sem sexo biológico”. Galícia e País Basco já contam com protocolos de ação em seus centros educativos — aprovados por governos conservadores — que pedem ao professorado para que observem aqueles alunos que mostrem “comportamentos de gênero não coincidente com os que socialmente se espera conforme o sexo […] que lhe foi assinalado ao nascer com base em seus genitais”. A deputada do Adelante Andalucía, Luzmarina Dorado, interveio no partido andaluz vestindo uma camiseta onde se lê “FCK TRF”, um complexo acrônimo em inglês que poderíamos traduzir como “que se fodam as feministas que não acreditam que homens que se sentem mulheres sejam mulheres”.

Esses são exemplos da relevância que o transativismo generista está conseguindo, e que se encontra agora em nosso país, dado o enfrentamento — real, fingido? Quem sabe? — entre PSOE e Podemos sobre esse oximoro metafísico chamado “livre autodeterminação de gênero”.

Compre seu eu

Assim, comecemos pelo fator de verdade do movimento queer: existem pessoas que não se sentem bem com seu sexo, desde um leve desconforto até uma profunda aversão com o que enxergam no espelho. Isso é um fato. A partir daqui, considerar que essa disforia é fruto de um desajuste entre a identidade da pessoa e o corpo que por acaso ela tem é um salto gratuito, retórica individualista que carrega consigo sem aviso prévio uma pesada mochila ideológica. Isso já não é um fato. Tratar esse desajuste como uma opressão política que condena a pessoa do sujeito ao desaparecimento, a não ser que a legislação intervenha reconhecendo o direito de ser administrativamente reconhecido o que emocionalmente se deseja ser, é mais do que um salto triplo mortal: é converter os unicórnios de purpurina no sujeito político do neoliberalismo. Algo com que, certamente, os neoliberais estão encantados.

Porque é no neoliberalismo onde está a raiz da mistureba queer. Em algumas ocasiões a candidez se apresentou como uma característica específica da nossa sociedade, uma forma de estar no mundo que se põe como original, onde a opulência se desvincula dos seus determinantes reais e materiais, como se o sexo, a família, a alimentação, o eu… fossem meros atos de capricho e vontade, jogos verbais arbitrários feitos em escala sentimental e performativa frente aos seguidores. A experiência íntima e imediata do eu — vivida como pura, espontânea, natural, por mais que seja um produto mais artificioso que um iPhone —, se converte no único critério de verdade. Ainda que essa identidade de que nos falam tenha viajado do exterior ao interior, o crente queer sente-a como se fosse gerada por si, brotando de dentro para fora. E nada vai convencê-lo de que não é assim porque é assim que ele sente. No campo da ignorância ingênua, a ideia metafísica da autodeterminação prolifera de forma descontrolada.

E tudo isso é resultado de um mercado neoliberal que bombardeia-nos 24 horas por dia com exortações ao individualismo, ao irracionalismo, ao infantilismo. Estão em jogo grandes margens de lucro, já que o consumo racional baseado nas necessidades é ínfimo comparado com o consumo baseado na vaidade e no narcisismo. É fundamental que se mantenha o cliente ensimesmado e fascinado diante do curso de seus próprios desejos, convencendo-o de que deve ver em si o maior espetáculo de seu próprio mundo. Você é especial. Compre. Não deixe que ninguém diga quem você é. Compre. Você é o centro de sua vida. Compre. Você é único. Compre. Você é diferente e meu produto te fará ser ainda mais. Compre-o. A adulação permanente da publicidade se transporta para a política, para as universidades, para as religiões, e todas as relações institucionais, sociais, educativas, têm lugar dentro de um imenso supermercado onde o cliente sempre tem razão, esquecendo-se de que ninguém — nem mesmo as pessoas trans — possuem um ponto de vista privilegiado sobre si mesmos que tenha que ser aceito apenas por ser expressado. Entre os direitos humanos não está o direito a que te dêem razão.

Recortada na medida da experiência subjetiva, a classe social passa a ser somente mais uma identidade pessoal, no mesmo nível que a comida que a gente gosta, a conduta sexual que a gente gosta e nosso gosto por gatos. Esse é o maior êxito do capitalismo: conseguir que os nossos gostos deixem de ser algo que se tem e passem a ser algo que se é. A identidade é o novo ópio do povo. E se você é diferentão (é isso que “queer” significa) te oferecemos uma identidade que milagrosamente une o incompatível: seu caráter absolutamente subversivo para a ordem social, e seu caráter absolutamente inofensivo para o poder econômico. Nunca foi tão fácil, inócuo e barato ser especial. Holly Johnson cantava: na terra da liberdade você pode ser o que quiser. E que campo mais à mão para se ser o que quiser do que o gênero, digo, o sexo, digo, o gênero. A Amazon apoia a diversidade. Mais de cem identidades de gênero. Compre uma. Compre várias. Compre seu eu.

Manifestação em Barcelona

Coletivize seu ânus

Como se imagina, o quiproquó conceitual que nós enfrentamos é simplesmente colossal. Defendem “despatologizar” as pessoas trans os que defendem a intervenção farmacológica e cirúrgica sobre eles. Depois de propor a distinção sexo/gênero como um grande avanço teórico — que não é mais do que a distinção entre sexo e os estereótipos sexuais de sempre —, não há um texto onde não se utilizem esses termos de forma confusa, culminando no uso inexplicável do sintagma “pessoas trans” para se referir tanto a pessoas transgênero como aos transexuais. Sua intenção de compatibilizar, de um lado, um determinismo biológico cerebral de gênero — “cérebros rosas e azuis” — que dê solidez científica às suas pretensões melífluas e, por outro, a livre autodeterminação do gênero conforme corresponde à sua alma pós-moderna, é um espetáculo acadêmico que dá riso e pena ao mesmo tempo.

Amarrados em um novelo de clichês que pretendem passar por pensamento, e que oscila entre a tautologia — “as mulheres trans são mulheres” — e a logorreia — “sou o que sou porque sinto que sou o que sei que sinto que sei que sou” —, a atividade teórica se limita a mera retórica, que entra para formar parte do corpo de conhecimentos somente à medida em que faça contribuições à novilíngua ou bata algum recorde de extravagância banal. Não é de estranhar que periodicamente as revistas acadêmicas afins a este campo sofram “escândalos Sokal”: artigos falsos que passam por todos os filtros das ditas revistas pós-modernas e são publicados sem que ninguém detecte o engano destinado a ridicularizá-las. A teoria queer é indistinguível de suas paródias.

Um exemplo disso é a obra de Paul B. Preciado, autoridade reconhecida dentro do mundo queer e leitura recomendada frequentemente pelo vice-presidente Iglesias, que exemplifica com perfeição a ingenuidade ao desequilibrar relações sexuais desvinculando-as por completo de sua função biológica material. Usamos os pulmões para respirar, os ouvidos para ouvir e os genitais… não sei… para colocar uns piercings? Em seu Manifesto Contrassexual, Preciado defende que o ânus é o órgão sexual principal dada sua presença igualitária em homens e mulheres, e propõe toda uma série de performances anais praticadas com dildos que contribuiriam para democratizar as relações sexuais e limpá-las de conexões de poder, dominação, abuso, assimetria… “Só me resta desejar-lhe o melhor: coletivize seu ânus”. A própria Beatriz Gimeno, diretora do Instituto da Mulher e nº 2 do ministério dirigido por Irene Montero, já defendeu uma redistribuição das práticas sexuais onde a penetração anal de mulheres e homens compense a penetração vaginal dos homens em mulheres. É teoria, é paródia dela? Irrelevante, somos seres (anais) de luz.

Manifestação em Madrid

Maria gosta de jogar futebol

Essa quimera ideológica só está sendo contestada pelo feminismo radical de tipo materialista, a única barreira de contenção que entendeu que o generismo é um Cavalo de Troia que pode acabar com o trabalho de gerações de luta contra os estereótipos sexuais e a discriminação contra mulheres. Se ambos os movimentos simpatizaram inicialmente dado seu ar de família antipatriarcal e subversivo, o feminismo rapidamente entendeu que nem sempre os inimigos dos meus inimigos são meus amigos, e que, atrás de sua defesa do gênero como identidade e seu apagamento do sexo, o movimento queer estava de fato sacralizando os clichês sexuais mais retrógrados, por mais que se maquie com disfarce pop, moderno e transgressor.

Porque debaixo de toneladas de retórica e vivências pessoais — cujo questionamento racional se pretende tipificar como crime de ódio —, a íntima experiência identitária de ser mulher só se materializa falando de salto alto, vestidos de marca e enfermagem. Em vez de luta contra os estereótipos sexistas se passou a aclamá-los como uma medida básica do que somos, reconvertidos novamente ao conceito essencialista de gênero. É o que acontece quando se usa o orgulho e não o materialismo como guia do pensamento. Mas a discriminação contra as mulheres, a violência que sofrem, seu menor acesso à educação e tantas coisas mais, essas coisas não se aplicam ao perguntar à pessoa sobre sua experiência identitária, só depois de olhar entre suas pernas para saber que papel desempenha na reprodução — dizer que seu papel na reprodução é “atribuído” no nascimento é simplesmente uma zombaria.

Protocolos educativos como os comentados no início, onde o professorado anota quantas vezes Maria jogou futebol com os meninos ou se Pedro fez selfies com as meninas — para verificar se Maria vai ser na verdade um menino e Pedro, uma menina — são, me perdoem a veemência, a coisa mais conservadora, prejudicial, ignorante e reacionária que temos visto nas últimas décadas. Como é possível que o conjunto da sociedade, e não apenas o feminismo radical, não esteja reagindo frente à promoção da intervenção hormonal e cirúrgica em menores — “a puberdade é opcional!” —, e à possibilidade legal de que se permita transicionar medicamente ao outro sexo em uma idade em que não se permite fazer uma tatuagem, apelando a sei lá que tipo de ilusão sagrada identitária?

Até o século XVIII a ideologia da classe dominante se apresentava como vontade de Deus. A partir do século XIX, se apresentava como vontade da natureza. Foi tentado nesse texto desvelar essa ideologia e denunciar a apresentação das dezenas de identidades de gênero como fenômenos naturais dos quais o Estado necessariamente deve dar conta em sua legislação. Não se nega a existência de experiências que descrevem as pessoas que não se sentem bem com seu sexo, mas sim a leitura dessas experiências a partir de suas coordenadas neoliberais, metafísicas e individualistas, como se essa fosse a única leitura possível da situação e ainda assim não se desviasse dos fatos objetivos. Embora a solidez teórica do movimento queer não se diferencie da do terraplanismo, os terríveis efeitos da sua aplicação o aproximam mais de outros problemas sociais correntes — antivacinas, negacionistas das mudanças climáticas ou do coronavírus —, enquanto que sua raiz no capitalismo triunfante semeie dúvidas a respeito da possibilidade de sua derrota. Os anos decisivos para essa questão estão se aproximando. Logo saberemos se o Estado adotará como religião oficial essa ilusão.


José Errasti é professor de Psicologia Clínica da Universidade de Oviedo. Traduzido do espanhol, publicado originalmente no Huffpost Espanha.