“A religião é o ópio do povo”

Um dos temas do debate político nacional na última semana foi a aprovação pelo Congresso do PL 1581/2020 (ainda vai a sanção presidencial), que tem como consequência o perdão de aproximadamente R$ 1 bilhão em dívidas tributárias das igrejas. O debate foi mais intenso no campo da “esquerda” parlamentar pelo fato de que deputados do PT e PCdoB votaram a favor da proposta, que fortalece econômica, política e ideologicamente as mercoigrejas neopentecostais. Justamente os baluartes do reacionarismo que grassa no país e subjuga amplas frações das camadas mais pobres e vulneráveis da população. Como costuma acontecer nesse caso, a justificativa desses parlamentares para agirem dessa forma é uma suposta necessidade de “dialogar” com as bases evangélicas e dessa forma talvez buscar algum apoio.

Mas quando se investiga mais a fundo o comportamento dessa “esquerda” parlamentar, atualmente já em plena corrida pelas eleições municipais, encontramos indícios de uma capitulação ainda mais profunda. Nos deparamos com um movimento para estimular candidaturas de pastores e lideranças evangélicas para disputar prefeituras e câmaras municipais por partidos desse campo. A esse movimento se soma um outro, de tentar recrutar também policiais e militares para se candidatar pela “esquerda”. O que esse duplo movimento revela, para além do oportunismo, é uma comprovação da natureza real desses partidos e de seu papel político e ideológico. Partidos legalizados para disputar eleições em nome dos “trabalhadores” ou do “socialismo”, como PT, PCdoB, PSOL, etc., têm como função colaborar com a gestão capitalista da sociedade e impedir lutas dos trabalhadores.

Para isso, esses partidos tradicionalmente lançaram como figuras públicas os burocratas que controlam organizações como sindicatos, movimentos sociais, ONGs, universidades, etc., as quais já perderam qualquer propósito de organização dos trabalhadores para a luta (se é que algum dia os tiveram). Isso funcionou durante algumas décadas, mas agora a luta de classes mudou de forma e os principais instrumentos de controle sobre os trabalhadores são aparelhos diretamente repressivos, como forças armadas e polícias, que diariamente matam, torturam, agridem, prendem, perseguem, assediam, etc., ou igrejas evangélicas que destroem os vínculos solidariedade por meio de discursos individualistas, meritocráticos e empreendedorísticos. Se são esses os novos instrumentos privilegiados para controlar os trabalhadores, nada mais natural que o uso de figuras públicas produzidas nesses instrumentos pelos partidos da “esquerda” parlamentar. Afinal, esses partidos também precisam competir no mercado de cargos no aparato do Estado, que é o que lhes interessa.

Portanto, a tal votação do perdão da dívida das igrejas não é nenhuma tentativa real de “dialogar” com bases sociais religiosas, é só mais uma acomodação oportunista aos novos mecanismo da luta de classes. Um diálogo real com a população trabalhadora, que é em mais de 90% adepta de alguma religião (dados do censo de 2010, o último que foi realizado), com vistas a ganhar algum tipo de apoio político, para um processo de organização em direção a um projeto de emancipação, não vai vir de uma capitulação abjeta e oportunista como essa. Nem também vai partir da arrogância dos apóstolos militantes da ciência e do “materialismo” que formam uma tribo aguerrida nas redes sociais sempre pronta a insultar os fiéis de qualquer denominação com sua superioridade.

O diálogo deve ter como ponto de partida uma compreensão real do fenômeno religioso e de sua relação com os outros níveis de alienação e com a luta pela emancipação. Para contribuir com esse debate elaboramos o texto abaixo, que tinha sido inicialmente projetado para iniciar um debate nas redes sociais, antes que o cenário proporcionado pela votação no Congresso e as eleições pudesse ser imaginado. Como o texto já estava praticamente pronto, nada mais apropriado do que aproveitá-lo para ilustrar esse debate sobre a falência da “esquerda” parlamentar.

***

A frase do título foi dita por Karl Marx (1818-1883) e se tornou uma espécie de ditado ou clichê, mas o seu significado real é bem diferente daquele pelo qual a frase é citada. Geralmente se usa essa frase para dizer que a religião é uma forma de enganação, ilusão ou “alienação”, outra palavra que também é usada de maneira incorreta ou no mínimo bastante imprecisa (também se diz que o futebol, ou as telenovelas, a música pop, etc., são formas de “alienação”). Mas tanto os opositores de Marx como os que se declaram seus seguidores, de modo geral, não leem de fato o autor. Dessa forma, não entendem o que ele realmente quis dizer com essa frase e nem entendem o conceito de alienação. Basta citar o trecho completo do texto do qual essa frase foi retirada para que fique evidente o quanto o seu sentido atualmente usado é diferente ou até, de certa forma, oposto ao que o filósofo e revolucionário realmente pensava.

O trecho de onde vem essa frase é longo, para os padrões de quem está acostumado a discussões superficiais de rede social, mas é preciso citá-lo por completo, por dois motivos: primeiro, porque é autoexplicativo, e expõe a real compreensão de Marx do que é a religião e sua crítica, desfazendo assim os equívocos da sua interpretação superficial. E segundo, para exemplificar um modo de pensar que enxerga o mundo como uma totalidade, em processo de movimento permanente, onde tudo está impregnado do seu contrário e ao mesmo tempo tudo está interligado ao todo. Esse modo de pensar dialético, bastante diferente do que predomina hoje em dia em praticamente todos os campos, faz muita falta na discussão deste tema em particular.

Os debates que hoje prevalecem, especialmente em discussões de redes sociais, são notoriamente superficiais e mobilizam as pessoas em “torcidas” opostas e mutuamente hostis. Argumentos são substituídas por insultos e xingamentos. Quem joga mais “pedras” no lado oposto “ganha” a discussão. Uma publicação como esta que se segue vai certamente desagradar a diversas “torcidas”, tanto a dos defensores da religião como a de defensores do ateísmo, ambas hostis a Marx. Sendo assim, obviamente, não vamos dar atenção a “comentários” que não passam de impropérios e clichês, que provavelmente vão ser despejados em uma avalanche ao final do texto, e apenas responderemos às manifestações que se mostrarem dispostas a construir algum tipo de síntese, ensinando e aprendendo alguma coisa.

E dificilmente vamos poder contar com o apoio de uma torcida “marxista”, já que a maioria destes, como dissemos, fica presa em palavras de ordem superficiais, não lê realmente Marx e não entende seu pensamento. Já na sua época, quando apresentado a alguns desses “seguidores”, o próprio Marx disse “eu é que não sou marxista” (e eu mesmo, para ser rigoroso, estou mais próximo do anarquismo). De qualquer forma, não vai ser possível explorar aqui a diferença entre Marx e seus seguidores, nem os atuais nem os do século XX inteiro, em suas infinitas subdivisões.

O que tentaremos fazer é apresentar o trecho de Marx de onde aquela frase é retirada, e em seguida, desenvolver alguns comentários sobre a crítica marxiana da religião e da alienação. Como se trata aqui de um pensador dialético, a parte só faz sentido dentro de um todo, e a crítica da religião só faz sentido dentro de uma crítica geral da sociedade, que procuraremos resumir. Esperamos poder debater com quem tiver a disposição para ler até o final, e não se limitar aos xingamentos e insultos usuais. Segue pois o trecho de Marx de onde saiu a famosa frase sobre a religião:

“É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a se perder. Mas o Homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido.

A religião é a teoria geral deste mundo, o seu resumo enciclopédico, a sua lógica em forma popular, o seu point d’honneur espiritualista, o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento solene, a sua base geral de consolação e de justificação. É a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião.

A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões.

A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola. A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem os suporte sem fantasias ou consolo, mas para que lance fora os grilhões e a flor viva brote. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, atue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão, a fim de que ele gire em torno de si mesmo e, assim, em volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não circula em tomo de si mesmo.

Conseqüentemente, a tarefa da história, depois que o outro mundo da verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade deste mundo. A tarefa imediata da filosofia, que está a serviço da história, é desmascarar a auto-alienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do céu transforma-se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, e a crítica da teologia em crítica da política.”

Esse trecho aparece na Introdução da “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, obra escrita por Marx ainda na sua juventude, em 1843 (texto de domínio público e facilmente encontrável em qualquer busca na internet). A linha de raciocínio presente no textos iniciais de Marx o acompanhou no restante de sua obra, e pode ser resumida da seguinte forma: a crítica da religião não pode ser feita como uma mera crítica das ideias religiosas, ou como tentativa de “esclarecer” as pessoas que acreditam em religião, como se essa crença fosse um problema cognitivo (a famosa ideia de que o crente é burro); a crítica da religião tem que ser parte de uma crítica que busca auxiliar o movimento pela transformação da realidade material em que as pessoas sentem necessidade da religião. Num mundo em que as pessoas fossem donas de suas vidas, em que pudessem viver com liberdade, realizar os seus potenciais e não serem oprimidas por necessidades materiais, a religião se tornaria desnecessária e desapareceria.

A religião é uma tentativa falha de transcender a realidade individual, tanto quanto o ópio (ou outras drogas), e a única diferença entre um e outro, para Marx, é a classe social que os consome. Dizer que “a religião é o ópio do povo” não significa, para ele, reprovar as pessoas que consomem religião, nem as que consomem ópio. Não está implícita aqui nenhuma crítica moralista às pessoas que consomem ópio, que na época de Marx eram pessoas mais ricas. O uso de narcóticos, seja ópio ou qualquer outra substância que altera o estado de consciência, não era reprovado por ele como se fosse um problema moral, mas era explicado como uma tentativa também falha de escapar de um mundo que às vezes é existencialmente intolerável.

Diante da falta de sentido do mundo, onde o dinheiro é a medida de todas as coisas e as qualidades humanas não têm valor nenhum, o indivíduo busca escapar deste mundo e se conectar a alguma realidade maior, seja uma comunidade religiosa ou alguma realidade alterada existente em sua própria mente e acessível por meio de drogas. Em qualquer caso, o indivíduo busca algo maior do que si mesmo, com o qual possa se conectar em profundidade, de uma forma que as relações sociais no mundo capitalista não proporcionam. Essa busca, para Marx, é uma tentativa falha de atender a uma necessidade humana real, uma necessidade de comunhão e participação em algo maior do que o próprio indivíduo. Essa tentativa é falha porque foge dos problemas reais em busca de uma satisfação imaginária e alucinatória. Ao invés de escapar do mundo, seja consumindo narcóticos ou dogmas religiosos, Marx propõe se apropriar do mundo, transformar o mundo

Para Marx, o problema não é que as pessoas se envolvam com formas de prazer (como o ópio na época dele ou outras drogas hoje) ou em formas de auto-ilusão como a religião (ele falava da religião institucionalizada, das igrejas, mas o raciocínio é o mesmo para as diversas formas de misticismos em que as pessoas acreditam hoje, como horóscopos, alienígenas, feitiços, pensamento positivo, auto-ajuda, etc.); o problema é uma realidade material, um modo de vida que faz com que as pessoas não encontrem formas reais de escapar do sofrimento e busquem formas fictícias. O fim das soluções escapistas e da fuga da realidade não vai ser obtido por meio de pregação moralista ou da simples divulgação científica, nem por nenhum tipo de convencimento das pessoas contra a crença na religião, mas por meio de uma transformação da própria realidade. E a realidade é transformável, segundo Marx, porque é o próprio homem que produz essa realidade.

Conforme desenvolveu sua obra, Marx foi aprofundando sua compreensão e desenvolvendo uma teoria mais complexa e abrangente sobre diversos aspectos da vida social. Ao mesmo tempo em que ele mantinha uma linha de raciocínio central de buscar a explicação e a chave para a transformação da realidade humana na própria ação dos seres humanos, ele ia desenvolvendo uma visão mais concreta e detalhada dessa ação. Aquilo que ele chama nesse texto de “essência humana” é o conjunto de relações sociais, de culturas e de riquezas, reais e potenciais, que a humanidade desenvolveu ao longo da história, e da qual a maior parte dos seres humanos não têm como se apropriar. O motivo disso são as relações de produção, a forma como as sociedades se organizam para reproduzir sua vida, que tende a criar separações entre os que pensam e os que executam, dirigentes e dirigidos, proprietários da riqueza e trabalhadores. A origem da incapacidade das pessoas serem donas da sua própria vida (e se apropriarem da “essência humana”) é o fato de que não são donas da atividade por meio da qual reproduzem sua própria vida, ou seja, seu trabalho.

O homem transforma o mundo por meio do trabalho e ao mesmo tempo transforma a si mesmo, criando novas relações sociais e modos de vida. Nesse sentido, não existe “natureza humana” imutável, não existe nenhuma característica da humanidade que não seja um produto da sociedade e da história, e que não se modifique com o tempo (aquilo que seria uma “essência humana”, termo que Marx depois descartou, é sempre algo diferente em cada momento da história). Quando se fala aqui de “trabalho”, não se trata simplesmente da atividade de uma pessoa, da sua profissão, mas é do intercâmbio da humanidade com a natureza para satisfazer suas necessidades. Se trata da sua atividade social, do modo como as sociedades se organizam para que cada indivíduo, de alguma forma, colabore com os demais para a sobrevivência de todos, e ao mesmo, dependa da atividade de outros (hoje em dia, de muitos milhares de pessoas), para a própria sobrevivência. É por meio do trabalho que se aprimoram as capacidades do pensamento, das percepções, dos sentimentos, e se criam a linguagem, a ciência, as artes, etc., e os homens, como espécie, adquirem gradualmente maior controle sobre a natureza.

Mas esse mesmo poder transformador do trabalho não pertence aos indivíduos humanos, já que vivemos em sociedades de classe, em que existe aquela separação entre os que comandam e são proprietários e os que obedecem e são trabalhadores. Em todas as formações sociais desde o fim da pré-história, alguma classe dominante detém, de uma forma ou de outra, o poder sobre o trabalho alheio (por mecanismos diversos como escravização, servidão ou assalariamento). A falta de poder do indivíduo sobre o seu trabalho, o fato de que cada um trabalha por obrigação, trabalha para viver e não vive para trabalhar, faz com que os indivíduos vejam o mundo como algo sobre o qual não tem nenhum controle. Isso é parcialmente verdadeiro, já que o controle está sempre nas mãos de alguma classe dominante (ou no caso do capitalismo, para ser exato, o controle está em relações sociais “automáticas”).

Esse fato da maioria das pessoas não ter nenhum controle sobre suas vidas faz com que para elas se torne crível que há alguma força externa no controle. Como as pessoas não conhecem e não entendem as relações sociais das quais fazem parte, acabam por tratar essas forças como se elas tivessem vida própria, como entidades transcendentais. É assim que se criam a religião, o Estado e o dinheiro. Marx chamava de “alienação” esse processo pelo qual os homens criam tais objetos externos e depositam nesses objetos as suas próprias forças e qualidades, e acabam submetidos a esses objetos. Os homens criaram deus, o Estado e o dinheiro, e hoje somos comandados por essas criações. Tratemos então, primeiro, da alienação religiosa, para depois chegar à forma como ela se conecta com as demais no pensamento de Marx.

O poder do trabalho humano, o poder de transformar a realidade, de literalmente criar o mundo, é visto pelos homens de forma invertida, de cabeça para baixo, como um poder que pertence a algo fora de si, que para simplificar é chamado de deus. A isso se chama antropomorfização: os homens dão uma forma humana e tratam como humano aquilo que não compreendem, tratam como uma entidade com atributos e intenções humanas, atribuem a esses objetos e forças uma personalidade humana; ou seja, passam a tratá-los como divindades. As primeiras formas de divindade compreendiam tanto as forças da natureza, o sol, a chuva, as montanhas, os animais, etc, quanto os conceitos que os homens criavam em suas relações com o mundo, como o tempo, a justiça, o amor, etc. Todos os povos criaram deuses a partir dos objetos do seu entorno, do seu intercâmbio com a natureza e com os outros povos, e as formas desses deuses mudam conforme mudam as relações sociais.

Os povos mais primitivos (no sentido cronológico) criavam deuses que refletiam a sua realidade mais simples e próxima de uma relação direta com a natureza. Conforme as sociedades se tornam mais complexas, essas relações mudam, se tornam também mais abstratas, e as religiões também mudam para tentar exprimir conceitos mais gerais, universais. É assim que se passa do politeísmo para o monoteísmo, dos deuses de uma tribo ou cidade para o deus que teria criado o universo inteiro. É o homem que cria o mundo à sua imagem e semelhança, por meio do trabalho, mas atribui esse poder a deus. O ato de transformar o mundo transforma os próprios homens e faz com que desenvolvam cada vez mais capacidades. A capacidade de amar, de praticar a bondade, a justiça, etc., todas as qualidades morais desejáveis e superiores, que estão presentes nos seres humanos como uma possibilidade, são tratadas como um atributo divino, ou de representantes da divindade como messias, profetas, santos e anjos.

A crítica da alienação religiosa foi a chave e o ponto de partida para a crítica de Marx à alienação política e econômica, que acabariam ocupando o restante da sua vida e estaria expressa nas numerosas obras pelas quais ele se tornou conhecido. Mas a lógica das suas demais críticas é a mesma da crítica da religião. Assim como criou deus, entregando-lhe seus poderes, o homem criou também o Estado. O homem perdeu os seus poderes de decisão e sua responsabilidade sobre as múltiplas questões da vida social para uma instância superior, o Estado, que se delas apropriou (pela força, em processos históricos complexos) e controla tudo e decide sobre tudo, na forma de instituições e representantes. A existência do Estado, de um governante ou governantes que possuem os poderes e supostamente a capacidade de decidir sobre tudo, é tratada pelas pessoas como se fosse um dado da natureza, como se fosse algo que sempre existiu e sempre vai existir. Sempre vão existir governantes e governados, dirigentes e dirigidos, raciocina o senso comum. Mas existiram sociedades sem Estado, sem nenhum tipo de governo, e podem voltar a existir. Para Marx, o Estado é também uma criação humana, uma forma de alienação, em que as pessoas criam também um poder terreno externo e que as controla.

Outra forma de alienação é o dinheiro. Ele existe por causa da separação entre produção e necessidade humana: tudo aquilo que é produzido hoje pelo trabalho, sejam objetos ou serviços, possui a forma de mercadoria. Uma mercadoria possui valor de uso, a capacidade de satisfazer a alguma necessidade, e valor de troca, a medida do tempo de trabalho socialmente necessário para a sua produção. As pessoas não trocam diretamente o produto de sua atividade pelos bens e serviços que necessitam para sobreviver (se fizessem isso, esses produtos, bens e serviços não seriam mercadorias, seriam puros valores de uso), mas trocam por dinheiro, que é a mercadoria universal que permite depois adquirir outros bens e serviços. Essa troca por dinheiro aparece também como se fosse algo natural, como se fosse a forma mais lógica, ou a única, de intercambiar as produções humanas, tão simples que qualquer criança entende. Mas é também algo historicamente produzido, existiram sociedades sem dinheiro, e podem também voltar a existir.

O que está oculto por trás do dinheiro é que a atividade humana, medida em tempo de trabalho socialmente necessário, gera sempre mais valor do que o necessário para a sua produção. O valor que se recebe como salário é sempre menor do que o valor gerado pelo trabalho. Essa diferença é a fonte do lucro. Não cabe aqui explicar como isso se processa (Marx escreveu vários volumes sobre isso), mas basta lembrar que cada um pode fazer esse exercício a partir do local em que trabalha: o que recebe pelo seu trabalho é sempre menor do que a empresa ganha com ele. O dinheiro parece assumir vida própria, ele existe para se transformar em mais dinheiro, e usa os seres humanos, suas necessidades e suas atividades, como um mero pretexto para se reproduzir e se expandir como mais dinheiro. É nesse sentido que dissemos que quem manda, no capitalismo, não é nem mesmo a classe proprietária e o Estado, mas as relações sociais automáticas por meio das quais o dinheiro se reproduz sempre como mais dinheiro.

O capitalismo como sistema existe para produzir mais lucro, mais dinheiro, independente da vontade ou da ganância individual de algumas pessoas (que no entanto tende a ser maior nessa sociedade). É a lógica desse sistema que produz indivíduos gananciosos, egoístas, ao ponto da crueldade e da psicopatia, não é a simples ganância de alguns indivíduos que produz o sistema. Por isso a crítica do sistema não pode ser uma crítica “moral” contra indivíduos ambiciosos, tem que ser uma crítica que aponte para a transformação social geral, de modo que novas relações sociais produzam mais indivíduos solidários do que egoístas. Nesse ponto, portanto, é importante assinalar que a crítica de certas religiões ao capitalismo também é impotente, porque esse apelo à moral individual, sem a mudança da vida social como um todo, não produz resultados.

Prosseguindo, pois, na crítica, constatamos, com Marx, que no processo de transformar dinheiro em mais dinheiro, o capitalismo produz mercadorias com valor de uso, produz produtos e serviços úteis, mas eles são só um pretexto, um “efeito colateral” secundário da reprodução ampliada do próprio capital. Por isso o mundo gasta trilhões com coisas absolutamente inúteis como armas nucleares, produtos de luxo, objetos que ficam obsoletos ou são descartados apenas para que se compre um mais novo, etc., acumulando lixo e poluição, desperdiçando recursos e destruindo o planeta; ao mesmo tempo em que centenas de milhões de pessoas passam fome ou vivem na miséria. Essa contradição é insanável, o sistema não tem como produzir riqueza sem ao mesmo tempo produzir miséria. O mesmo impulso que faz com que as empresas busquem lucrar mais faz com que empreguem tecnologias que economizam a força de trabalho humana, deixando trabalhadores desempregados, que não vão poder consumir o que essas mesmas empresas produzem. Novos empregos surgem e novas necessidades são criadas, mas nunca na medida necessária para que todas as empresas tenham lucro, nem na medida necessária para que o conjunto da humanidade tenha uma vida minimamente digna, por isso vivemos de crise em crise econômica e boa parte da humanidade vive na miséria.

O dinheiro é a expressão da alienação econômica, que controla tanto o Estado como as igrejas, para fazer com que as pessoas continuem submetidas a um sistema cujo objetivo cego é sempre a produção de mais dinheiro, deixando as vidas humanas destruídas e mutiladas pelo caminho. A crítica do capitalismo por Marx leva à conclusão de que a única saída possível é a abolição completa desse sistema. Não basta conceder aumento de salários, não basta tentar distribuir melhor as riquezas e os bens, não basta querer fiscalizar as grandes empresas para que não destruam o meio ambiente ou não explorem as pessoas, não basta fazer acordos entre os governos para que não haja rivalidades e guerras, etc. Tudo isso já foi tentado, durante séculos e não funcionou. Todas essas medidas são paliativos que o sistema contorna, como tem feito há mais de duzentos anos conforme se espalhou pelo planeta.

A abolição completa do sistema significaria a criação de um modo de produção em que a atividade produtiva esteja a serviço de necessidades humanas coletivamente decididas. Todos receberiam os bens e serviços de que precisam para sobreviver, e ao mesmo tempo todos contribuiriam para a sociedade com as suas capacidades. Não haveria desemprego, todos trabalhariam muito menos, a tecnologia não seria monopólio de algumas grandes empresas mas um patrimônio de uso comum. Com as tecnologias hoje já existentes e outras em desenvolvimento (supercomputadores, inteligências artificiais, fontes renováveis de energia, engenharia genética, etc.), cada pessoa precisaria trabalhar poucas horas por dia ou talvez um ou dois dias por semana para produzir o necessário. Haveria assim muito mais tempo livre e cada um poderia dedicar esse tempo ao que desejasse, às mais variadas atividades possíveis, às artes, à ciência, ao esporte, ao ócio, ao sexo. Ou até à religião, se assim quiser.

A imagem que acompanha o texto veio do videoclipe da música “Jesus, he knows me”, da banda Genesis