Século XXI: “Nova Guerra Fria” ou alternativa (necessária) ao capital?

Tem se tornado comum falar que existe nas últimas décadas uma “nova Guerra Fria” entre os Estados Unidos e a China (ou a Rússia), em disputa pelo posto de principal potência mundial. Isso foi inclusive tema de uma capa recente da revista Veja. Pouco depois, o tema foi requentado pela entrevista de Caetano Veloso em que ele reconheceu que tinha mudado de posição, do liberalismo para o reconhecimento dos méritos do socialismo, graças aos préstimos de um historiador e youtuber do PCB. Nessa era de “digital influencers”, surgem assim, além dos jornalistas e liberais de todos os tipos que defendem os Estados Unidos, os “influencers” e seus influenciados que “torcem” para o o lado oposto, o do “comunismo”. Já tivemos ocasião de discutir em outro texto essa “nova Guerra Fria” do ponto de vista do seu anacronismo (e ao mesmo tempo, de sua sincronia com certos movimentos da cultura contemporânea).

O que buscaremos fazer aqui é uma exposição mais conceitual e histórica de por quê esse nome de “nova Guerra Fria” é completamente inadequado. Ao fazer essa exposição, apresentaremos uma tentativa experimental e sumária de síntese interpretativa da história do século XX, com todos os riscos que esse procedimento apresenta (afinal, são muitos os aspectos secundários e nuances que não vão poder ser detalhados). Ainda mais pelo fato de que apresentamos uma visão que é totalmente diferente da que predomina entre os adeptos do “influencer” do PCB e de outras seitas que lhe fazem oposição dentro do campo marxista, uma visão que sabemos heterodoxa, herética e principalmente lacunar. Mas para não tomar partido de alguma dessas torcidas que estão se digladiando nas redes sociais, um tal procedimento será inevitável.

Dizíamos pois que o nome de “nova Guerra Fria” é inadequado, porque ele é tomado de empréstimo à disputa que aconteceu no século XX, entre 1945 e 1991, que opunha o bloco capitalista (liderado pelos mesmos Estados Unidos) ao chamado bloco “socialista” (liderado pela extinta URSS, incluindo também, de forma independente, a própria China). Mas a disputa que aconteceu no século XX e a atual são bastante diferentes, e os discursos como os da Veja que querem fazer desaparecer a diferença entre os dois fenômenos buscam com isso fazer desaparecer (ou manter soterrada) principalmente a própria ideia de uma alternativa ao capital.

A disputa atual entre Estados Unidos e China é uma disputa entre impérios capitalistas. Uma disputa por controle político e militar de territórios, por oportunidades de exportação de capital, por espaços para investimento das transnacionais desses países, para venda de seus produtos e aquisição de matérias-primas, por controle sobre os meios de comunicação, difusão de ideias, costumes, estilos, etc. Em certo sentido, alguns níveis dessa disputa existem por parte dos Estados Unidos também contra a Rússia (a qual é uma rival no plano militar, mas não no econômico), bem como contra a Europa e o Japão (que são rivais no plano econômico e cultural, mas não no militar). O que esses pólos em disputa possuem em comum, porém, é o fato de que são todos igualmente capitalistas.

A Guerra Fria do século XX possuía algumas semelhanças com a disputa atual (disputa por territórios e zonas de influência, por controle econômico, importações e exportações, corrida armamentista, luta por hegemonia cultural). Em certo sentido, a URSS era também um império, pois possuía países diretamente subordinados (o leste europeu inteiro) e mais ou menos alinhados em outras regiões e continentes (Cuba, Vietnã). Mas havia algo mais além da disputa geopolítica, algo fundamentalmente diferente, expresso na natureza e origem da URSS (mesmo que de maneira muito problemática, como veremos) que era a disputa por uma alternativa ao capitalismo. Para entender isso, é preciso entender a história do século XX de uma maneira diferente do usual.

1. O século XX como disputa entre capitalismo e socialismo

A narrativa predominante sobre o século XX apresenta a disputa entre “democracia” e “autoritarismo” (ou totalitarismo) como sendo o conflito principal, tendo se materializado na II Guerra Mundial como o seu momento mais agudo. Naquele momento os aliados “democráticos” (Estados Unidos, Reino Unido, França) combateram as potências “autoritárias” do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), e nessa luta se uniram temporariamente a um outro país do tipo “autoritário”, a URSS. Vencida a guerra contra o Eixo, começou a disputa contra a URSS, a Guerra Fria propriamente dita, que terminou com a vitória da “democracia” e do “livre mercado”.

Essa narrativa é falsa por vários motivos. Por exemplo, pelo fato de que as potências ditas “democráticas”, nas suas guerras de dominação colonial e imperialista, cometeram genocídios e atrocidades contra os povos da Ásia, África e América Latina, num período de séculos, mais extensas do que aquelas que os países do Eixo cometeram na II Guerra contra populações europeias (com a diferença de que estes últimos o fizeram num intervalo de tempo mais curto e de modo mais intensivo, dotado de eficiência industrial). Mas o principal aspecto pelo qual essa narrativa é falsa é o fato de que a disputa fundamental no século XX não era apenas entre potências imperialistas, mas entre o capitalismo como um todo e a alternativa representada pela revolução socialista, a qual a URSS indiretamente relembrava.

A URSS adquiriu o status de potência geopolítica e rival dos Estados Unidos por ter sido, na verdade, a principal responsável pela vitória dos aliados na II Guerra Mundial. Foi a URSS quem suportou as maiores perdas em vidas humanas (mais de 20 milhões de pessoas) na guerra, foi o Exército Vermelho que varreu as tropas do Eixo, ocupou o leste europeu e chegou até Berlim. A URSS foi capaz de vencer a guerra contra uma das grandes potências de então, a Alemanha, porque a população soviética defendeu seu país de uma invasão imperialista que significaria a sua escravização. O que a população da URSS defendeu na guerra foram as conquistas da Revolução de 1917 e as melhorias que esta tinha trazido para sua vida, embora o impulso de transformação social da Revolução já tivesse morrido há muito tempo, como veremos também adiante.

Foi a ocorrência da Revolução que fez com que a Rússia se transformasse, de um país atrasado e elo mais frágil da cadeia do sistema de estados, em um competidor geopolítico, e essa revolução tinha como objetivo a superação do capitalismo. A luta contra o capitalismo era (e segue sendo) uma luta a ser travada em escala global, e a Revolução Russa foi um dos episódios dessa luta, que deixou as consequências mais duradouras na história do país e do mundo. Até o momento, o capitalismo segue vencendo essa luta, mas durante alguns momentos do século XX ela pareceu estar em aberto.

A Revolução de 1917, que derrubou o capitalismo na Rússia, tem que ser entendida, portanto, como parte de uma luta de classes mundial contra o capitalismo. Não foi um fenômeno especificamente russo, mas a versão russa de um processo mundial. Ao fim da I Guerra Mundial, as revoluções contra o capitalismo eclodiram em vários países europeus, como Alemanha (1919), Hungria (1920), Itália (uma quase revolução em 1919-1920). E mesmo em países em que não houve revolução, havia a presença destacada do movimento operário como força social e política, que entrava decididamente na disputa pelo poder de Estado, com alas radicais que se colocavam abertamente contra o capitalismo. As guerras mundiais foram disputas entre as potências capitalistas, que tinham na expansão ou defesa de seus impérios coloniais uma forma de sobreviver à ameaça interna de subversão representada pelo movimento operário dentro de cada uma dessas potências.

2. A URSS como uma forma de transição interrompida

O fato de que a Revolução anticapitalista tenha sido vitoriosa apenas na Rússia e derrotada nos demais países transformou os socialistas russos, inesperadamente, em liderança política e ideológica do movimento operário internacional, mas isso não alterou o fato fundamental de que a revolução contra o capitalismo, para abrir caminho para a construção de uma nova sociedade, precisava acontecer em escala mundial, e inclusive, precisava abranger prioritariamente os países capitalistas avançados. Quando falamos em revolução é preciso ter em mente que essa palavra deve ser entendida num duplo sentido, tanto como evento em que se derruba o poder político da classe burguesa, como enquanto processo, mediante o qual uma sociedade sem classes, sem exploração, sem Estado, etc., emerge do capitalismo. Os dois significados são inseparáveis, e a derrota em um desses dois planos implica na derrota do outro.

Além disso, a derrota da revolução tem que ser entendida como um fenômeno mundial, como derrota da luta que tinha que ser travada para que a revolução se estendesse a uma arena global e abrangesse países avançados. O isolamento da revolução em um só país, a Rússia (a partir de 1922 rebatizada como União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS), significava, do ponto de vista mundial, a derrota da revolução mundial. Do ponto de vista da própria URSS, o isolamento significava que a Revolução, embora inicialmente bem sucedida no plano da destruição do poder político, iria se deparar com sérios limites enquanto processo de transformação social. A URSS iria inevitavelmente se defrontar com os limites do atraso do país em sua tentativa de transição. Esses limites poderiam ser enfrentados de diversas formas, mas o que aconteceu na URSS em termos de escolhas políticas da direção revolucionária fez com que o impulso de transformação social fosse abortado muito mais cedo. A liderança bolchevique castrou na origem as possibilidades do poder dos conselhos operários e restabeleceu a gestão individual nas empresas, a escolha dos gestores de todas as instituições pelo partido e não por eleição, a reconstituição de uma burocracia estatal, militar e policial, etc.

O tema principal, aqui, entretanto, não são as vicissitudes específicas da Revolução Russa e os motivos de sua derrota, a arqueologia dos erros e das lições a serem aprendidas, etc. Trazemos isso apenas para prosseguir com a narrativa de como a URSS se tornou um competidor geopolítico na Guerra Fria. A partir do final da década de 1920, se consolidou no país um novo regime, caracterizado pela propriedade estatal dos meios de produção, monopólio do comércio exterior pelo Estado, gestão burocrática da produção por gestores indicados pelo Estado, a extração de trabalho excedente dos operários e camponeses pela gestão burocrática; e a centralização da gestão e de todas as instituições por um sistema político de partido único, que impunha a sua ditadura por meio do terror policial e espionagem.

Esse sistema foi chamado pelos seus dirigentes de “comunismo”, sendo aqui referido entre aspas porque seria muito melhor denominado pela corrente política que o dirigia com mão de ferro, o stalinismo. Num primeiro momento, ao livrar a Rússia da espoliação imperialista e reorganizar a produção por meio da planificação, o impulso inicial da revolução parecia ter a capacidade transformadora suficiente para rivalizar com o capitalismo. As melhorias trazidas pela planificação centralizada, pela industrialização e pelo aumento da produção foram suficientes para impactar positivamente a vida da maior parte da população (apesar de várias brutalidades criminosas e falhas catastróficas no meio do caminho), a ponto de garantir sua adesão na II Guerra. E também, é claro, a ponto de dar condições materiais para disputar e vencer a própria guerra, em termos de uma indústria bélica com capacidade suficiente para sobrepujar a da Alemanha. E ainda, durante mais algumas décadas, de poder estar à frente dos Estados Unidos na corrida espacial.

As limitadas melhorias materiais iniciais, todavia, sem uma modificação total das relações sociais, não representam por si mesmas uma transição ao socialismo. Aquilo que começou como parte de um processo mundial de transição do capitalismo ao socialismo se cristalizou em um só país como uma forma intermediária, uma forma de transição interrompida. Embora tivesse rompido com alguns elementos do capitalismo (propriedade privada, motivação do lucro, alocação pelo mercado, compra e venda de força de trabalho), mantinha um traço fundamental, o trabalho subordinado e a extração de excedentes, apropriados pelo Estado. Na ausência de uma participação real dos trabalhadores no controle da produção e da vida social em suas diversa esferas, a ineficiência da gestão burocrática fez sentir seu peso, de modo que o desperdício, a irracionalidade e a corrupção minaram aos poucos esse sistema.

Conforme o impulso transformador inicial se esgotava e sucumbia sob o gélido contrapeso da burocracia e do stalinismo, as possibilidades de sustentação desse sistema também se reduziam. Na verdade, ele só perdurou por algumas décadas justamente devido ao prestígio obtido com a vitória na II Guerra. Essa forma de transição interrompida terminou retrocedendo de volta para o capitalismo, com o desmoronamento da URRS (1991), precedido pelo do Leste Europeu (1989 e 1990), no que foi comemorado como vitória definitiva do capitalismo e fim da Guerra Fria. A restauração capitalista na China (e também em Cuba e Vietnã) veio apenas completar essa avalanche ideológica da vitória do “livre mercado”, da “democracia”, da “globalização”, etc., e assinalar o que foi chamado de “fim da história”, “fim do marxismo”, “fim do socialismo”, “fim do sujeito”, “fim das grandes narrativas”, “fim do homem”, “fim do trabalho”, etc.

3. O mundo da Guerra Fria

O aspecto fundamental da diferença entre o século XX e XXI é que a URSS, mesmo não tendo podido vencer o capitalismo e tendo no final retornado a esse sistema, representou pela sua simples existência, como competidor geopolítico, a presença de uma ameaça ao capitalismo, a representação de uma alternativa societal distinta. A possibilidade dessa alternativa funcionava como uma motivação para as lutas sociais no mundo inteiro, ao manter aberta no horizonte histórico a ideia de que a superação do capitalismo não só era possível como também poderia, em novas tentativas, assumir formas distintas daquela da própria URSS. Essa abertura histórica para a transformação motivou a luta de várias gerações de trabalhadores durante o século XX e é a verdadeira ameaça que estava implícita durante a Guerra Fria. É essa ameaça de uma alternativa ao capitalismo que o discurso de “nova Guerra Fria” quer soterrar.

Por conta dessa abertura histórica, tanto o lado capitalista quanto o “comunista” dessa guerra trataram de implantar medidas para que uma alternativa independente não se construísse e as melhorias possíveis fossem mantidas sob seu controle. Assim, ao mesmo tempo em que representava uma confrontação geopolítica, a Guerra Fria era também uma operação combinada de cooperação das duas superpotências rivais e seus satélites na tarefa de contenção do movimento operário para que não fosse longe demais em suas aspirações. Essa operação combinada de cooperação requeria pois um certo nível de acordo e de concessões do capital às forças comprometidas com o modelo stalinista, para que assegurassem o controle e a domesticação do movimento operário.

Assim, além de vários países (leste europeu, China, Cuba, Vietnã, Coréia do Norte) terem adotado o sistema soviético (por ocupação direta do Exército Vermelho ou por ação de forças endógenas), havia forças políticas que defendiam esse sistema, os partidos comunistas (PCs) em centenas de países do mundo inteiro, com maior ou menor força em cada caso, com estratégias de luta armada ou disputa eleitoral, etc. Além dos PCs, havia também partidos baseados no movimento operário (bem como sindicatos, ONGs e outros movimentos sociais), com nomenclatura socialista, social-democrata ou trabalhista, que também se colocavam nominalmente contra o capitalismo, ou contra a classe capitalista, exigindo concessões do sistema, na forma de melhorias nas condições de vida dos trabalhadores.

O impulso da luta contra o capitalismo, que teve como um de seus resultados a Revolução Russa, trouxe dessa forma modificações significativas na vida do planeta inteiro, algumas positivas e duradouras. A ideia de bem-estar social ou de direitos sociais (aposentadoria, seguridade social, saúde pública, educação pública, serviços públicos em geral, transporte, moradia, lazer, etc. tudo isso a ser subsidiado pelo Estado por meio da centralização e racionalização da distribuição da riqueza socialmente gerada), ainda que só tenha se materializado em alguns países e por algumas décadas, permaneceu como uma referência que ainda hoje é ambicionada e tratada como modelo a ser atingido, defendido ou reconquistado. Essa ideia só existiu porque a classe capitalista foi obrigada a ceder certas melhorias, principalmente por pressão da ação da classe trabalhadora (com contribuição marginal da militância de diversas outras orientações independentes e opostas ao stalinismo e à social-democracia que seguiam existindo no movimento operário), mas que foram apropriadas politicamente pelo stalinismo e pela social-democracia. Seja como for, as concessões eram cedidas por medo de que a população se voltasse para a alternativa revolucionária ou “comunista”.

Sem a presença dessa alternativa, o capitalismo tende a revogar todas aquelas conquistas que foram uma vez concedidas aos trabalhadores. O fim do projeto do bem-estar social é uma consequência e ao mesmo tempo uma das causas que retroalimenta a crise capitalista das últimas décadas. Uma crise multifacetada, que tem expressão não só nas crises financeiras, nas recessões, no desemprego, na miséria crescente mesmo em países ricos (e agravada naqueles que já eram pobres), em fenômenos como a explosão de violência e criminalidade, no irracionalismo, niilismo e misticismo predominantes no terreno cultural, no colapso ambiental acelerado, etc.; mas também nas guerras e disputas geopolíticas, das quais a oposição Estados Unidos x China tem se tornado a principal.

4. A necessidade de uma alternativa socialista

Sem entender a dinâmica interna do capitalismo, suas contradições e a sucessão de crises sobrepostas em diferentes níveis incessantemente produzidas por esse sistema, não se entendem as disputas políticas como a Guerra Fria do século XX e a atual escalada de rivalidade inter-imperialista do século XXI. Aquela narrativa falsa de “democracia” x “autoritarismo” usada pelos defensores do capitalismo para embalar o século XX é repetida agora no século XXI, com a China “comunista” ocupando o lugar que foi da URSS. Essa narrativa se mostra conveniente para o operativo de mistificação, já que a China permanece sendo um regime ditatorial de partido único, o que acaba servindo como evidência de que ela continua sendo “comunista”, ou seja, autoritária como a URSS.

O erro dessa narrativa é descartar a análise das relações sociais e se concentrar apenas na esfera do Estado. Por isso, para os adeptos dessa narrativa, pouco importa que, no terreno das relações sociais concretas, no dia a dia da população, a China já seja capitalista, pois é movida a trabalho assalariado, compra e venda de força de trabalho, motivação pelo lucro, propriedade privada, alocação pelo mercado, etc. Desse ponto de vista, os vestígios de propriedade estatal, além do regime político ditatorial, bastariam para caracterizar o “comunismo” chinês. A oposição entre capitalismo e “comunismo” é tratada como uma oposição entre “mercado” x “estado”.

Curiosamente, esse revival da “Guerra Fria” no século XXI também produz uma curiosa aberração, que é a repetição desse erro conceitual com sinal trocado. Existem os nostálgicos da Guerra Fria pelo lado “comunista”, os defensores do estatismo, da propriedade estatal, como índice ou medida de “comunismo”. Para esse neostalinismo do século XXI, países como China e Rússia seriam os mocinhos e os Estados Unidos os vilões, porque nos primeiros ainda há uma porcentagem maior de propriedade estatal. Para estes, também, as relações sociais concretas, o dia a dia dos trabalhadores, o controle sobre a produção, têm pouca importância. Tudo o que importa para os neostalinistas são as relações jurídicas e políticas. Na disputa entre “mercado” x “estado”, eles escolhem o Estado, desconsiderando o fato de que a disputa real é entre o capital (com o Estado como complemento) x autogestão social.

Sem o critério das relações sociais concretas, do controle da produção e da vida pelos trabalhadores, pelo qual se detecta que nem a URSS nem a China estiveram ou estão próximos do socialismo, o debate fica preso a uma tautologia. Dizer que a URSS teve um “papel histórico” no século XX é a mesma coisa que não dizer nada, porque a história fica limitada a uma simples descrição do passado, sem nenhuma abertura para o futuro. Sem qualificar os detalhes específicos pelos quais a Revolução Russa impactou o mundo, seus resultados e limites, como tentamos acima, o discurso pelo qual os neostalinistas procuram se reinserir no debate político se limita a uma defesa do simples direito de narrar a história, em nome de uma alternativa política fracassada. Em nome do suposto “reconhecimento do papel histórico da URSS, com seus erros e acertos, inclusive no período stalinista”, o que se perde de vista é a própria necessidade de uma explicação de porquê esse “modelo” de socialismo hoje não existe mais, porquê fracassou e o que deve ser feito para que não se produzam novos fracassos semelhantes. Se a história passada não é vista como aberta, como portadora de diversas possibilidades que não se realizaram, e apenas daquelas que efetivamente existiram, a história futura também fica bloqueada, porque também não é possível fazer nada diferente do que é feito hoje.

A história do século XX, assim, além de ser a história da derrota da revolução mundial, é a história da luta pela revolução mundial. Além de conter o episódio da Revolução Russa, com sua subsequente derrota, retrocesso e degeneração, contém as lutas contra essa degeneração. Além de conter a derrota momentânea da luta pelo socialismo, o século XX contém a possibilidade do socialismo. Além de ser um competidor geopolítico, a URSS era também uma representação da alternativa societal, que é precisamente o traço que deixou de existir no século XXI. O “socialismo realmente existente” era uma representação da possibilidade de um outro “socialismo potencialmente existente”. Além dos PCs (stalinistas) e partidos social-democratas, havia também no século XX todo um conjunto de forças atuando no movimento operário que seguiam defendendo o socialismo, mesmo não reconhecendo a URSS como socialista. Mesmo se opondo à burocracia dirigente da URSS e aos seus defensores stalinistas, denunciando a traição, distorção, abandono do socialismo; havia correntes militantes no movimento operário que defendiam uma revolução socialista.

Para essas correntes, a existência da URSS era uma prova de que uma revolução anticapitalista podia ainda acontecer novamente, mesmo que todas reconhecessem também, por diferentes motivos, que ela era, ao mesmo tempo, uma prova de que a revolução poderia se degenerar novamente. As diferentes propostas de métodos de ação para evitar que uma nova revolução degenerasse era o que dava a diferença específica entre as diversas correntes trotskistas, comunistas de esquerda, conselhistas, anarquistas, situacionistas, autonomistas, etc., que mantinham vivo o imaginário da revolução, graças à existência da Revolução e da URSS, mas ao mesmo tempo, contra o seu tipo de “comunismo”.

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No século XXI, esse imaginário da revolução praticamente desapareceu ou se tornou irrelevante. Tendências reformistas, herdeiras do stalinismo e da social-democracia do passado, ainda tentam se apresentar nas eleições como alternativas ao status quo, mas depois de um século participando da gestão do capitalismo, convencem cada vez menos. À margem dessas correntes principais, diversas seitas trotskistas ainda parasitam os movimentos sociais, orbitando as suas margens para tentar converter militantes ao seu catecismo específico, definido pelas filigranas programáticas que fizeram com que rachassem umas com as outras. As novas formas de luta e movimentos sociais, tragicamente, tendem a ser motivados menos por um imaginário da revolução e superação do capitalismo do que por uma preocupação segmentada com as múltiplas ameaças que esse sistema produz à sobrevivência da humanidade.

As lutas contra a catástrofe ambiental, contra as múltiplas formas de miséria, contra as guerras e violências, contra as opressões de todos os tipos, etc., são o que ainda atraem ativistas para a vida política. No momento em que a humanidade mais precisa de uma alternativa real ao capitalismo, simplesmente para evitar a destruição do planeta e a própria dissolução da ideia universalista de humanidade em uma espiral entrópica de massacres étnico-religiosos; mais está ausente a ideia de uma alternativa ao capitalismo como modificação total das relações sociais, em direção à autogestão social.

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A imagem que acompanha o texto foi copiada de um perfil chamado Time Detective