Cobra Kai: nostalgia, reacionarismo ou superação?

Obs: não contém exatamente um “spoiler”, mas convém ler depois de ter assistido a série

O seriado “Cobra Kai”, em cartaz na Netflix, apresenta os personagens do universo dos filmes originais de “Karatê Kid”, voltando a se encontrar mais de 30 anos depois dos acontecimentos narrados nos filmes. A série é parte da onda de nostalgia pela década de 1980, com seu público cativo de quarentões e cinquentões, música de época (metal farofa estadunidense), etc., mas tem o cuidado de desenvolver as histórias de um núcleo de adolescentes ao lado dos personagens adultos, para manter também o interesse dos jovens (verdade seja dita, o elenco jovem deve ter sido escalado com base muito mais no talento em artes marciais do que no domínio das artes dramáticas, que é sofrível). Existe também uma divertida exploração das diferenças geracionais e do deslocamento social, que em alguns momentos faz parecer que alguns personagens ficaram retidos numa cápsula do tempo nos anos 1980 e foram repentinamente arremessados para o mundo da internet, smartfones, smartwatches, aplicativos de namoro, etc.

Mas talvez o principal mérito da série esteja na opção narrativa de adotar o ponto de vista do “vilão”. Essa opção dissolve o maniqueísmo tradicional da indústria cultural e convida o público a entender que uma mesma realidade pode ser encarada sob diferentes perspectivas, e que cada uma detém aspectos de verdade. Essa opção sobressai por ser radicalmente diferente da mesmice predominante nas narrativas pasteurizadas e nos induz a torcer pelo “outro lado”. Composta de duas temporadas, com dez episódios curtos de meia hora cada um, “Cobra Kai” mostra a luta de Johnny Lawrence, o competidor derrotado por Daniel Larusso no célebre duelo de décadas atrás, para reerguer sua vida pessoal e profissional, por meio da reconstrução do “dojo” (academia de karatê) em que treinava quando jovem. Inevitavelmente, esse projeto cruza o caminho de Larusso, hoje empresário de sucesso, que entra numa disputa contra o renascimento do Cobra Kai, por entender que esse projeto representa um desvirtuamento ideológico da arte marcial que aprendeu com o “sensei” (mestre) Miyagi.

O karatê Miyagi ensina a auto-defesa, auto-conhecimento, auto-controle, disciplina, concentração, paz de espírito. O Cobra Kai ensina agressividade, competitividade, não rendição, auto-confiança. Essas diferenças ideológicas ganham maior densidade por estarem fundamentadas também em diferenças de classe. Johnny tinha sido criado por um padrasto rico, mas sem afeto, e se tornou um trabalhador braçal amargurado. Daniel tinha sido criado por uma família pobre, mas afetuosa, e se transformou em empresário feliz. Claro que no cenário estadunidense, essas posições são apresentadas como se fossem facilmente intercambiáveis. Afinal Johnny pode supostamente se tornar empreendedor com seu dojo mediante um simples contrato verbal com o dono do imóvel, e com seu talento pode atrair alunos pagantes para se bancar e prosperar. De qualquer forma, essa diferença de classe e a rixa um tanto gratuita de Daniel contra seu rival torna mesmo inevitável torcer pelo protagonista/antagonista.

Mas há um problema sério no dojo Cobra Kai, o fato de que ele transforma os agredidos em agressores. Johnny recruta seus alunos entre os rejeitados, os nerds, os que estão fora de padrões de beleza, os solitários, tímidos e vítimas constantes de abusos e violências, físicas e psicológicas, na selva social-darwinista que são as escolas médias estadunidenses. Mas esses mesmos alunos que antes eram vítimas de agressão não apenas aprendem a se defender, mas passam a reproduzir sobre os outros as agressões e abusos que sofriam. É como se a sociedade estivesse dividida entre “vencedores” e “perdedores”, e se você não quer ser um “perdedor”, tem que se comportar como os “vencedores”, ou seja, tem que maltratar e humilhar os demais. Não há outra opção, não há como se fortalecer a não ser descarregando revolta, frustração e ressentimento contra os que ainda estão fragilizados. Essa é a lógica brutal da sociedade estadunidense, que os jovens internalizam desde muito cedo no seu processo de socialização pela violência física e psicológica.

O lema de “bater primeiro, bater forte, sem compaixão” é interpretado por esses jovens ressentidos e revoltados como uma autorização para vencer os duelos custe o que custar, seja em encontros formais ou informais, em competição ou fora dela. Vencer custe o que custar significa, inclusive, usar de deslealdade, subterfúgios e trapaças. Em certo momento da história, quando esses ensinamentos são postos em prática com consequências desastrosas, o próprio Johnny parece ter percebido que criou um monstro. Inclusive, o fantasma de seu antigo sensei, o fundador do Cobra Kai original, reaparece para retomar o dojo e assegurar a fidelidade ao seu método de vitória a qualquer custo e competição desleal. A série se encerra na segunda temporada sem um final conclusivo para esse dilema do seu protagonista/antagonista. Nas próximas temporadas, muito provavelmente, ele terá que descobrir uma forma de consertar o estrago que causou com a reativação do dojo e sua ideologia. Fazemos aqui essa aposta no desenvolvimento da narrativa, baseamos nisso nossa interpretação e aguardaremos os próximos capítulos. Não será nada surpreendente se a moral da história completa, caso haja mais uma temporada, seja o processo de superação e cura de Johnny para se livrar da parte problemática do legado do que aprendeu no Cobra Kai.

Esse legado se presta muito facilmente a uma apropriação reacionária. O atual clima político e ideológico mundial tende para esse tipo de apropriação, e boa parte do público, é claro, vai se identificar e fazer essa leitura reacionária. Mas seria um erro interpretar a série como mais uma exploração oportunista do reacionarismo e uma apologia da violência e da competitividade hoje predominantes. Há algo mais nessa série, que se deixa entrever pelo fato de que claramente a história não terminou e uma eventual terceira temporada trará novidades. Além disso, existe uma outra qualidade interessante no seriado, que mencionamos como um choque de gerações. Não são apenas os costumes, estilos musicais e vestuário que mudaram desde os anos 1980, mas uma certa postura perante os desafios e dificuldades da vida.

A agressividade do Cobra Kai se choca diretamente com um certo discurso identitário contemporâneo. O sensei Lawrence debocha cruamente das reclamações e fragilidades dos seus alunos nerds, rejeitados, tímidos, solitários, etc. Para a parcela reacionária do público, ele está dando uma merecida (e divertida) lição nos “molengas” e “vitimistas” por meio da sua pedagogia da brutalidade. Para o público identitário, ele está sendo apenas um chauvinista reacionário vulgar, e as piadas com o seu deslocamento geracional não têm graça nenhuma. Mas para nós não se trata nem de uma coisa nem de outra, e insistimos que existe algo mais nessa série, porque aquilo que alguém pode ver como ofensas do sensei aos seus alunos podem ser inversamente os passos necessários justamente para o seu fortalecimento. Afinal, por que se faz a escolha de tomar como alunos justamente os fracos e rejeitados, aquilo que nos Estados Unidos se costuma chamar de “underdogs”? Por quê escolher justamente esse público?

Será que a intenção é mesmo apenas ridicularizar os rejeitados? Se fosse isso, por que não apenas deixá-los como estão? Por que se dar ao trabalho de lhes ensinar artes marciais? Será que não há outra mensagem a ser aprendida nesse procedimento? A nosso ver, existe uma lição profunda a ser tomada, que contraria diretamente a estratégia identitária: não basta supor automaticamente que o mundo concederá dignidade e respeito aos explorados e oprimidos, aos rejeitados e underdogs de todos os tipos, bastando que assim se proclamem e o exijam. Um mundo assim não existe, o respeito e a dignidade têm que ser conquistados, e só vai ser possível com muita luta. O identitarismo funciona como uma espécie de auto-ajuda, ou seja, auto-ilusão, vendendo a ideia de que os oprimidos não têm nenhuma luta a travar, basta reivindicar reconhecimento. O nosso mundo hoje existente, que é superficialmente recoberto por um verniz politicamente correto, pode até conceder reconhecimento no plano do discurso, mas isso está longe de resolver o problema.

Para lutar contra a opressão, qualquer que seja ela, não basta reconhecer que ela existe, se reconhecer como vítima e supor que o mundo automaticamente vai reconhecer e respeitar essa condição. Uma tal suposição aprisiona as vítimas no mundo dos discursos, onde o reconhecimento das “diferenças” existe apenas para ocultar as estruturas materiais que as reproduzem. Para lutar contra a opressão é preciso dar um passo além, entender do que se trata a opressão, entender as estruturas materiais que as reproduzem, entender que se trata de um enfrentamento para a vida inteira. É uma situação injusta e muito odiosa em que nos encontramos, e na qual não pedimos para estar, mas que é a única situação realmente existente, a qual vai exigir de nós fortalecimento e vigilância constante. Qualquer outra postura é uma armadilha identitária que aprisiona os oprimidos na superfície do politicamente correto.

O mundo real abaixo dessa superfície não é um discurso, é um terreno de disputa, de luta de classes, de luta contra a opressão, em que se impõe uma dimensão material e concreta, muito além do simbólico e discursivo. De nada adianta aos oprimidos supor que o mundo os respeita automaticamente, pois agir com base nessa suposição produz um perigoso deslocamento da realidade. Esse deslocamento impede o desenvolvimento da combatividade necessária para transformar estruturas materiais opressivas fortemente entrincheiradas. A trajetória do personagem Demitri exemplifica bem a armadilha identitária: ele quer aprender a lutar como os colegas, mas sem fazer o esforço necessário para realmente aprender, sem ter que desenvolver nenhuma disciplina, sem fazer nenhuma dose de sacrifício, sem auto-superação. E isso nunca produzirá resultados.

É claro que se pode discutir os métodos de ensino e fortalecimento, e a pedagogia Miyagi pode ser mais adequada que a do Cobra Kai. Mas qualquer que seja o método, não se pode esquecer que o mundo é que nos bate primeiro, o sistema nos bate forte, e os poderosos não têm compaixão. Portanto, underdogs de todo o mundo, uni-vos!