Motivos de otimismo após a derrota do Trump

Certamente, se o Trump tivesse ganho, não iam faltar grandes analistas explicando que era impossível ser diferente, porque tais e tais condições deixariam a extrema direita no poder por um longo período. É bom, agora que o Biden ganhou, evitarmos cair no mesmo erro e sobreteorizar um resultado apertado de eleição.

Mas será que dá pra olhar com um distanciamento e tentar ver as grandes linhas do nosso momento histórico aí? Vou tentar.

Há algum tempo eu estou sendo acusado de otimismo absurdo pelas mesmas pessoas que sempre me chamaram de pessimista. Normal, porque o meu chute é o seguinte:

Temos que olhar a fragilidade do populismo de direita, se for comparado com o que aconteceu nas outras grandes crises do capitalismo (1929 e 1973). Dez anos depois da Grande Depressão, a humanidade estava entrando na Segunda Guerra Mundial, provocada pelo verdadeiro fascismo (não o xingamento que se fala hoje em dia): Estados totalitários em expansão para construir impérios. O pós-crise de 1973 não chegou a esse ponto, mas foi quando o neoliberalismo conseguiu chegar ao poder e começar um ataque às conquistas dos trabalhadores que ainda não terminou, sem falar que o começo da década de 1980 abriu a fase terminal do campo stalinista que, depois que foi destruído, e se formou no mundo inteiro a ideia de que não existe alternativa ao capitalismo, ideia que depois de trinta anos ainda não foi possível mudar na mente da grande maioria das pessoas.

Comparado com isso, o que é esse populismo de direita, representado pelo Trump, Orbán, Bozo, Netanyahu etc? Esses caras conseguiram provocar guerras? Conseguiram destruir as garantias democráticas que prometeram destruir? Não. Polarizam a sociedade em torno dessa guerra cultural reacionária, mas ladram muito mais do que mordem. Eles não refletem a verdadeira correlação de forças na sociedade.

Se eu tivesse menos vergonha na cara, poderia dizer “viu, essa eleição prova que o populismo de direita é frágil e instável”. Mas eu tava totalmente bolado na terça e na quarta, parece que a coruja de Minerva ainda não tinha me cantado a pedra. Mas a minha sem-vergonhice é suficiente pra eu ter coragem de dizer que, pelo que eu estou vendo, esses caras não têm projeto de sociedade e vão cair, mais dia ou menos dia.

Eles chegaram ao governo numa situação muito específica. A segunda pior crise mundial do sistema, depois de vinte ou trinta anos (dependendo do país) de consenso neoliberal, em que tanto a direita como a esquerda propunham pequenas mudanças dentro de um modelo econômico compartilhado entre as duas, e onde as duas faziam um discurso de defesa da globalização, da democracia, do multiculturalismo e dos direitos humanos. Mesmo que esse discurso fosse mentira, na boca de um Bush por exemplo.

Mas isso criou condições para que, com a novidade das mídias sociais, os populistas de direita se conectassem com dois tipos de gente: a minoria reacionária da população que não aceitou o discurso da democracia e direitos humanos (aqui no Brasil, as viúvas da ditadura, mas lá fora racistas, xenófobos e reaças em geral – logo depois ia acontecer uma simbiose entre todas essas pragas) e pessoas que acreditaram nesse discurso, mas viram os limites dele quando foram atingidas pela crise e passaram a responsabilizar todo o campo político por ela, e abraçaram o discurso “politicamente incorreto” dos populistas como uma forma de revolta individualista “contra o sistema”, jogando o rótulo de esquerda desde o PSOL até o MBL. Na prática, a rejeição ao neoliberalismo foi feita em nome de um individualismo doentio. O porquê da esquerda radical não ter conseguido um crescimento a partir de uma rejeição progressiva do neoliberalismo foge do assunto desse texto, mas merece uma reflexão.

É por isso que eu acho que cabe essa classificação de populistas. A jogada deles é tentar uma ligação direta com esses setores, em nome de um discurso supostamente não-ideológico, mas que na verdade é ideologia pura, só que uma mistura de posições reacionárias e antidemocráticas. E tentar governar não com um plano de governo, e sim numa campanha eleitoral permanente pra mobilizar essa base desorganizada. É uma forma específica de fazer política, e não uma orientação política específica (o Podemos na Espanha tentou se colocar como um populismo de esquerda, se baseando nas posições igualitárias e democráticas do povo desorganizado, em vez de nas posições reacionárias).

Mesmo que o Trump ganhasse, qual era o projeto? Manter a guerra cultural pra sempre? Negar a pandemia pra depois negar outro fato científico e assim por diante? A verdade é que eles têm uma estratégia de como chegar ao governo, mas não têm um projeto de sociedade pra colocar no lugar. A sociedade que seria o resultado da guerra cultural seria uma sociedade sem Estado de bem-estar social, com papeis sexuais e raciais dos anos 50, com perseguição a minorias nacionais e religiosas. Esse tipo de sociedade não tem como voltar através de eleições e nem mesmo de uma revolta popular de direita, só através de uma verdadeira contrarrevolução como aconteceu no Irã nos anos 80, o que tá fora de cogitação nas condições de hoje (pra começar, teria que ter uma possibilidade real de uma revolução socialista, pra obrigar a burguesia a aceitar ir até esse extremo).

Mas sabe quem tem? Os neoliberais. Um projeto que conseguiu uma implantação forte na sociedade. Eles apontam pra uma sociedade que não será mais definida pela nacionalidade, pela religião, pela democracia etc, e sim pelo mercado. Cada indivíduo se vendo como uma unidade econômica competindo pra ter acesso através do mercado às suas necessidades. É só conversar com a maioria dos motoristas de uber, ou com boa parte das pessoas que trabalham por conta própria, pra ver a extensão dessa ideologia na sociedade (na verdade, até com muitos assalariados). Ela tem até um braço religioso, que é a teologia da prosperidade, em que você demonstra a sua fé doando seu dinheiro pra conseguir, em grande parte das vezes, bens materiais.

É muito mais difícil derrotar o neoliberalismo do que o populismo de direita, justamente porque o neoliberalismo não é só uma guerra cultural, ele reflete a situação de flexibilização da economia atual. Mas é melhor encarar uma batalha no terreno real, tentando criar novas formas de solidariedade de classe, do que despender um esforço enorme lutando contra mamadeira de piroca, torcedores da cloroquina, seguidores do Qanon e outras merdas do tipo. Taí os motivos do meu otimismo